Diz-se que o Benfica é o maior clube português em termos de palmarés. Os números domésticos sustentam essa afirmação — 38 campeonatos contra 31. Só que o palmarés de um clube não se mede apenas pela liga nacional, e é exatamente aqui que a narrativa vira. Com o título da temporada 2025/26, o FC Porto chegou a 87 troféus oficiais, igualando as águias no cômputo total. A diferença que separa os dois clubes não está mais nos números — está na geografia das conquistas.

A festa na Invicta e o número que mudou tudo

No Estádio do Dragão, neste sábado 16 de maio, a cerimônia de entrega da taça da Primeira Liga serviu de moldura para a consagração do 31º título dos dragões. O duelo com o Santa Clara — 12º colocado e já salvo do rebaixamento — foi protocolar na forma, mas simbólico no conteúdo. O guarda-redes João Afonso foi o personagem mais exigido da partida, defendendo tentativas de Rodrigo Mora e de Alan Varela numa primeira parte que terminou 0-0, enquanto as bancadas tratavam de transformar o Dragão num caldeirão antecipado de São João. O técnico italiano Francesco Farioli aproveitou o jogo para rodar o elenco — Bednarek, Kiwior, Froholdt e William Gomes foram titulares — e ainda manteve na manga nomes da equipe B como João Costa e Bernardo Lima, candidatos a figurar na lista oficial de campeões nacionais.

A decisão de adiar a entrega da taça para a última rodada foi deliberada. Segundo apuração do SportNavo com base em informações da imprensa portuguesa, o próprio FC Porto pediu à Liga Portugal que o troféu fosse entregue apenas na jornada 34, após o confronto com o Santa Clara — mesmo tendo matematicamente garantido o título duas semanas antes, ao bater o Alverca. A ideia era evitar clima de festa antecipada. As celebrações nos Aliados, em plena cidade do Porto, ficaram guardadas para o encerramento oficial da temporada.

Quando o Porto já havia reescrito a história europeia

Para entender o peso real desse 87º troféu, é necessário voltar a maio de 1987. Naquele ano, na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus disputada em Viena, o FC Porto derrotou o Bayern de Munique por 2 a 1 com um gol de Rabah Madjer — o famoso gol de calcanhar que entrou para o imaginário coletivo do futebol europeu. Era o primeiro título continental dos dragões, conquistado sob o comando de Artur Jorge, num momento em que o futebol português ainda era visto como periferia do continente. Três meses depois, o Porto ainda venceu a Supertaça Europeia. Em 1987 e 1988, somou também duas Taças Intercontinentais. Esse ciclo de conquistas internacionais — que o Benfica, com suas duas Ligas dos Campeões (1961 e 1962), não replicou nos anos seguintes — é a espinha dorsal da diferença no palmarés global.

O segundo capítulo europeu chegou em 2004, com José Mourinho conduzindo o Porto ao título da Liga dos Campeões em Gelsenkirchen, batendo o Monaco por 3 a 0. No mesmo ciclo, os dragões haviam vencido a UEFA Cup em 2003. Ao todo, o FC Porto acumula mais títulos internacionais do que o Benfica — duas Ligas dos Campeões, duas Taças Intercontinentais, uma Liga Europa e uma Supertaça Europeia, contra as duas Ligas dos Campeões das águias e nada mais de expressão continental desde então.

O jejum de quatro anos e o que Farioli reconstruiu

O título de 2025/26 chegou após um jejum que durou exatamente quatro temporadas. O último campeonato antes deste havia sido conquistado em 2021/22 — e nos três anos seguintes, o Porto assistiu ao Benfica e ao Sporting dividirem as taças da Primeira Liga. A chegada de Farioli ao banco azul e branco representou uma aposta num perfil menos convencional para o futebol português: treinador italiano formado nas categorias de base do Ajax e com passagem pela Ligue 1, o técnico montou uma equipe de alta regularidade defensiva, com a dupla Bednarek-Kiwior na zaga e Diogo Costa como referência entre os postes. O Porto foi, nas palavras da imprensa portuguesa, "de longe, a equipa mais regular do campeonato" — frase que resume a solidez de uma temporada sem grandes espetáculos individuais, mas com consistência coletiva rara.

"O rei e o capitão entregam a taça ao campeão" — frase exibida numa lona nas bancadas do Dragão, homenageando Jorge Costa e Pinto da Costa na cerimônia de consagração.

A homenagem a Pinto da Costa — presidente que conduziu o clube durante décadas e foi o arquiteto das conquistas europeias — e ao ex-capitão Jorge Costa funcionou como um elo explícito entre gerações. Com João Pinto e Vítor Baía presentes no camarote do Dragão, o clube tratou de conectar o presente com os anos dourados do final dos anos 1990, quando o Porto foi semifinalista da Champions em 2004 e construiu a última grande hegemonia europeia de um clube português.

O próximo passo para 88 — e o que o Benfica precisa fazer para responder

O equilíbrio em 87 troféus pode durar pouco. A próxima competição oficial da temporada 2026/27 para o FC Porto será a Supertaça Portuguesa, disputada contra o vencedor da Taça de Portugal entre Sporting e Torreense. Uma vitória nesse jogo eleva os dragões imediatamente a 88 troféus, abrindo nova vantagem sobre o Benfica — que, segundo a imprensa portuguesa, só teria condições de igualar novamente os rivais em janeiro de 2027, caso vença a Taça da Liga. A briga por títulos entre os dois maiores clubes portugueses, portanto, não termina com a festa desta tarde no Porto: ela recomeça já nas próximas semanas, num campeonato paralelo de acúmulo histórico que transcende qualquer temporada isolada.