Confesso: eu errei sobre o São Paulo em 2024. Achei que a virada financeira que o clube prometia chegaria rápido o suficiente para dar margem de manobra ao novo presidente. Hoje o áudio vazado de Harry Massis Jr. me mostra que eu subestimei o tamanho do buraco.

O clássico que escancarou a crise no São Paulo

A derrota para o Corinthians no último domingo foi o gatilho. O São Paulo atuou de forma exposta, sem intensidade, e os dois gols marcados pelo Tricolor vieram de erros do adversário — não de construção ofensiva própria. A torcida já não aguentava mais. Nas redes sociais, a hashtag pedindo a saída de Roger Machado ficou entre os assuntos mais comentados do Brasil por horas após o apito final.

O problema: demitir custa dinheiro. E é exatamente isso que falta no Morumbi.

O áudio que o presidente não queria que você ouvisse

Massis Jr. enviou uma mensagem de voz a um amigo particular. O áudio vazou, foi ao ar e virou o assunto do dia no futebol brasileiro. O presidente não poupou palavras:

"Nós não temos condição de contratar, de trocar o técnico. Não temos dinheiro. Será que vocês não entendem que pegamos o São Paulo sucateado? Eles não pagaram nada o ano passado. Está sobrando tudo para mim."

Massis revelou que o clube ainda paga as multas rescisórias de Dorival Júnior, Luis Zubeldía e até de Fernando Crespo — da primeira passagem. Três ex-treinadores, três contratos rompidos, três contas abertas. É o equivalente a uma banda de rock que continua pagando o produtor de dois álbuns cancelados enquanto tenta gravar o terceiro sem estúdio reservado.

O presidente ainda descartou explicitamente o retorno de Dorival Júnior, citando uma conversa com Osmar Stabile, presidente do Corinthians:

"Falam em Dorival. Eu conversei com o presidente do Corinthians, ele e a comissão ganham R$ 2,8 a 3 milhões por mês. É uma loucura. Por favor, ajude."

Três vírgula oito a três milhões por mês. Para um clube que não consegue quitar multas antigas, esse número é inviável — e Massis deixou isso explícito.

Roger Machado fica, mas por quanto tempo essa conta fecha

A leitura dominante nas redes é que o São Paulo está refém de uma gestão anterior desastrosa e que Massis é vítima do legado alheio. Há verdade nisso. Mas a contra-leitura que circula entre analistas do futebol é igualmente válida: um presidente que governa por áudio vazado perde autoridade rápido. A transparência involuntária tem custo político.

Roger Machado, que nunca teve aprovação irrestrita da torcida, segue no cargo não por mérito técnico — o São Paulo caiu de líder do Brasileirão para fora do G-4 direto — mas por impossibilidade financeira de substituí-lo. O clube ainda está no grupo de acesso à Libertadores, mas a distância para as primeiras colocações cresce a cada rodada.

O próprio Massis calibrou as expectativas para baixo de forma brutal: "Se chegarmos em 6º do campeonato, está ótimo para ir para a Libertadores." Para um clube que chegou a liderar a competição, essa frase diz muito sobre onde a diretoria enxerga o teto real do elenco.

Na quarta-feira, dia 13 de maio, o São Paulo visita o Juventude, fora de casa, com Roger Machado no comando. Uma derrota vai reacender o debate — e o áudio de Massis vai voltar a circular. Se o time vencer e segurar a vaga no G-6, a pressão arrefece por uma semana. Se perder, a equação financeira que impede a demissão vai ser testada por uma torcida que cada vez menos aceita o argumento do caixa vazio: o São Paulo vai aguentar Roger até quando, mesmo sem dinheiro para substituí-lo?