As vaias contra Roger Machado durante o anúncio da escalação no Morumbis e os xingamentos direcionados a Rui Costa na partida contra o Juventude, pela Copa do Brasil, representam mais um capítulo da relação conturbada entre a torcida são-paulina e a gestão do clube. Os protestos de terça-feira (21) ecoam uma década de manifestações que já resultaram na queda de dirigentes como Leco e técnicos como Hernán Crespo.

Na segunda-feira (20), membros da Independente, principal organizada tricolor, estiveram no CT da Barra Funda para uma conversa tensa com o presidente Harry Massis. Durante o encontro, os torcedores pouparam Roger Machado, mas exigiram mudanças na direção executiva.

"O técnico aqui [Roger Machado] é um coitado, viu... E sabe por que ele vai ser mandado embora, como foram o Crespo, o Zubeldía...? É por causa do Rui Costa", declarou um representante da organizada.

Evolução dos protestos tricolores desde 2016

A análise dos movimentos contestatórios da década revela mudanças significativas tanto nas pautas quanto nas formas de manifestação. Entre 2016 e 2019, durante a gestão de Carlos Augusto de Barros e Silva (Leco), os protestos se concentravam principalmente na falta de títulos expressivos e nos resultados insatisfatórios no Campeonato Brasileiro - o clube terminou em 13º (2016), 4º (2017), 6º (2018) e 6º (2019).

O período de Raí como diretor executivo (2019-2022) trouxe novo foco às manifestações. A torcida passou a questionar mais especificamente as contratações e a política de formação de elenco. Durante esse ciclo, o São Paulo conquistou o Campeonato Paulista de 2021 e chegou às semifinais da Libertadores do mesmo ano, mas os protestos continuaram pela inconsistência no Brasileirão - 4º lugar em 2020, 13º em 2021 e 11º em 2022.

Padrão de cobrança sobre técnicos intensifica pressão

O levantamento do SportNavo sobre as manifestações tricolores mostra que, nos últimos quatro anos, oito treinadores enfrentaram protestos diretos da torcida: Diego Aguirre, Hernán Crespo, Rogério Ceni (segunda passagem), Thiago Carpini, Luis Zubeldía e agora Roger Machado. A rotatividade no comando técnico se intensificou após 2020, com média de permanência inferior a oito meses por profissional.

No caso de Roger Machado, os números justificam a pressão. Desde sua chegada, em março de 2024, o São Paulo conquistou apenas 10 pontos em 24 possíveis sob seu comando - aproveitamento de 41,6%. São três vitórias, um empate e quatro derrotas em oito jogos, desempenho que coloca o técnico entre os piores índices da era recente.

"Fazer a gente passar essa vergonha, presidente... Bem no dia do aniversário de 54 anos da torcida. Nós fomos lá, cantamos mais alto que a torcida do Vasco e esses c*** nem andaram", protestou outro torcedor durante a visita ao CT.

Rui Costa enfrenta maior resistência organizada

A gestão de Rui Costa como diretor executivo marca um novo patamar de contestação organizada. Diferentemente dos protestos anteriores, focados em resultados pontuais, as manifestações atuais questionam a estrutura de poder e a capacidade de liderança do ex-jogador. As faixas no Morumbis pedindo sua saída e os cantos ofensivos representam escalada na tensão entre torcida e direção.

A estratégia das organizadas de poupar Roger Machado enquanto atacam Rui Costa demonstra entendimento tático sobre a hierarquia decisória do clube. Conforme apurado junto às lideranças torcedoras, existe percepção de que a instabilidade técnica deriva de problemas estruturais na gestão executiva, não apenas de questões pontuais de campo.

Evolução dos protestos tricolores desde 2016 Protestos da torcida tricolor mostr
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O histórico recente confirma essa leitura: desde 2020, o São Paulo demitiu sete técnicos, mas manteve continuidade na direção executiva. Essa disparidade alimenta o argumento de que mudanças cosméticas no comando técnico não resolvem problemas de gestão mais profundos.

O próximo teste para a resistência de Rui Costa aos protestos acontece no sábado (25), quando o São Paulo enfrenta o Mirassol, fora de casa, pelo Campeonato Brasileiro. Uma derrota pode intensificar ainda mais a pressão sobre o dirigente e colocar em xeque também a permanência de Roger Machado no comando técnico.