Quatro gols em uma temporada é o número que muitos meias e pontas vão embora sem alcançar. Puma Rodríguez, lateral-direito do Vasco da Gama, já está lá — e o mais recente par veio justamente na vitória por 2 a 1 sobre o São Paulo, na 12ª rodada do Brasileirão, em São Januário, resultado que encerrou um jejum de cinco jogos sem triunfo e recolocou a equipe carioca nos trilhos sob o comando de Renato Gaúcho.

O lateral que aparece quando o time mais precisa

Há algo de paradoxal na trajetória de Puma Rodríguez dentro do Vasco em 2026. O uruguaio começou a partida contra o São Paulo no banco de reservas, enquanto o time cedeu o primeiro gol por uma sequência de erros defensivos: Cuiabano afastou mal um chutão de Rafael, Robert Renan completou a distração ao ser driblado por Calleri — um atacante de mobilidade reduzida — e Luciano aproveitou o rebote para marcar. Era o retrato de uma defesa porosa, avaliada com notas baixíssimas pelo Ge, com Robert Renan recebendo 3,0 e Carlos Cuesta, 3,5. O segundo tempo, porém, pertenceu a outro Vasco.

Renato Gaúcho leu o jogo com clareza no intervalo. As entradas de Adson pela ponta direita e de Puma pelo setor defensivo — mas com liberdade para subir — redesenharam o time de um 4-3-3 que não funcionava para um 4-2-3-1 com Rojas recuado à posição de camisa 10. Com mais jogadores chegando à área, a superioridade criativa do Vasco, que havia desperdiçado o primeiro tempo dominando sem converter, finalmente se materializou em gols.

O lateral que aparece quando o time mais precisa Puma Rodríguez marca dois e vir
O lateral que aparece quando o time mais precisa Puma Rodríguez marca dois e vir

Dois gols que narram uma personalidade

O empate chegou por um gol de pênalti — e Puma foi a origem e o destino do lance. O lateral subiu na bola com Calleri na área, o árbitro marcou a falta, e o próprio uruguaio foi até a bola e converteu com segurança. Não foi um gol de oportunista: foi um gol de liderança, de jogador que não recua diante da pressão do momento.

O segundo gol também passou pelos pés de Puma, desta vez como arquiteto. Cuiabano, que havia crescido ao longo do segundo tempo após uma primeira etapa abaixo, iniciou a jogada com uma inversão para Adson. A bola chegou a Puma, que cruzou para a área com precisão. Com o espaço preenchido por Gómez, Adson, Brenner e Spinelli — um contraste brutal com o primeiro tempo, quando David era o único referencial ofensivo — Andrés Gómez concluiu para a virada. Na análise do SportNavo, a correção tática de Renato no intervalo foi o fator determinante para que os recursos ofensivos do elenco se expressassem.

Dias antes, em Bacaxá, Puma já havia protagonizado uma noite semelhante. Contra o Boavista, o lateral completou um cruzamento na área com oportunismo no primeiro gol e mostrou qualidade técnica de finalização no segundo — dois gols que renderam nota 7,5 do Ge e o segundo lugar no ranking de atuações daquela partida, atrás apenas de Johan Rojas, eleito o melhor em campo com 8,0. A assistência decisiva de Rojas para o segundo gol de Puma naquele jogo reforça como os dois se conectam dentro do esquema vascaíno.

Um fenômeno que a história do futebol conhece bem, mas raramente celebra

Laterais artilheiros são criaturas raras, mas não inéditas no futebol brasileiro. Roberto Carlos, no auge do Real Madrid dos anos 2000, somou temporadas com dupla finalidade; Cafu, campeão do mundo em 1994 e 2002, celebrou gols importantes pelo Palmeiras e pela Roma. No futebol nacional contemporâneo, no entanto, é incomum que um lateral-direito chegue a quatro gols antes de meados da temporada. Conforme levantamento do SportNavo, nenhum lateral do Vasco havia alcançado essa marca em tão poucas rodadas nos últimos dez anos de Brasileirão.

A nota 7,5 atribuída pelo Ge ao desempenho de Puma contra o São Paulo — a mais alta entre os jogadores de linha do Vasco naquela partida — é a síntese de uma presença que vai além da estatística. Paulo Henrique, titular na lateral direita, saiu com dores no joelho ainda no primeiro tempo, e Puma assumiu a posição com a naturalidade de quem aguardava a chance. O cruzamento para o gol da virada foi o gesto técnico que completou a imagem.

O que os quatro gols dizem sobre o Vasco de Renato

A virada sobre o São Paulo expôs virtudes e vícios do time de Renato Gaúcho. Daniel Fuzato, no gol do Boavista dias antes, fez uma defesaça em chute de Brunão e saiu bem nos pés para intervenções fora da área, enquanto Léo Jardim viveu lances de altos e baixos contra o tricolor paulista — salvos, em parte, pela reação coletiva do segundo tempo. O que une as duas vitórias é a capacidade do time de encontrar soluções a partir das peças que entram, e Puma tem sido a mais eloquente delas.

O Vasco volta a campo pelo Brasileirão com quatro gols de lateral-direito contabilizados e um argumento cada vez mais difícil de ignorar: Puma Rodríguez não é apenas um dado curioso de estatística. É uma arma tática real, um jogador que a torcida em São Januário já sabe chamar pelo nome quando a bola chega no lado direito do campo.