Em 1978, quando a Copa da Argentina foi transmitida para o mundo via satélite pela primeira vez em escala global, o sinal chegou a poucos milhões de lares asiáticos — a infraestrutura simplesmente não existia. Quase cinco décadas depois, a tecnologia deixou de ser o obstáculo: o que ameaça privar cerca de 3 bilhões de pessoas de assistir à Copa do Mundo de 2026 é algo muito mais prosaico — dinheiro e orgulho negocial.
O preço que a CCTV recusou pagar
A Fifa chegou às negociações com a emissora estatal chinesa CCTV pedindo 300 milhões de dólares pelos direitos de transmissão — aproximadamente 1,5 bilhão de reais. A proposta foi recusada. Segundo informações do portal estatal Sixthtone, publicadas em 8 de maio, a entidade cedeu e reduziu o valor pela metade para tentar destravar o acordo. O impasse, porém, não é só financeiro: as partidas serão transmitidas entre a madrugada e o início da manhã no horário de Pequim, o que reduz dramaticamente o apelo comercial para anunciantes locais.
O peso dessa ausência potencial fica claro quando se observa os dados da própria Fifa referentes à edição de 2022: a China registrou 510 milhões de telespectadores via TV linear, ocupando o primeiro lugar no ranking mundial de audiência do torneio. Nenhum outro país chegou perto desse número. Perder esse mercado em 2026 seria o equivalente a apagar o sinal do torneio em toda a América Latina somada.
A Índia e a oferta que a Fifa não aceitou
O cenário indiano repete a lógica do impasse, mas com valores ainda mais distantes. Uma joint venture entre a Reliance e a Disney apresentou uma proposta de 20 milhões de dólares — cerca de 100 milhões de reais — pelos direitos locais. A Fifa rejeitou o montante por considerá-lo muito abaixo das expectativas de mercado. Em 2022, a Índia foi a nona colocada no mesmo ranking de audiência linear, com 84 milhões de espectadores.
A recusa revela uma tensão estrutural que a apuração do SportNavo identificou como central nessa disputa: a Fifa precisa equilibrar receitas recordes com a promessa retórica de universalidade. O presidente Gianni Infantino declarou publicamente que a edição de 2026 — a primeira com 48 seleções, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá — seria a mais inclusiva da história do torneio. Mas inclusão, ao que tudo indica, tem um preço mínimo de tabela.
Infantino e a promessa que os números contradizem
Há uma ironia quase literária nessa situação — do tipo que o escritor John Le Carré usava para expor as contradições entre discurso e interesse real nas negociações de alto nível. Infantino repete o mantra da Copa mais inclusiva enquanto as tratativas com os dois países mais populosos do mundo permanecem em ponto morto. Em nota oficial enviada à imprensa em 4 de maio, a entidade confirmou que as conversas seguem ativas, mas pediu discrição.
"As negociações na China e na Índia sobre a venda dos direitos de transmissão da Copa do Mundo da FIFA de 2026 estão em andamento e devem permanecer confidenciais nesta fase", afirmou a Fifa em comunicado.
Até agora, a entidade fechou acordos com mais de 175 países. Mas esses 175 países não chegam, somados, ao contingente populacional que a China e a Índia representam. Juntos, os dois países concentram aproximadamente 40% da população mundial — o que transforma o impasse de uma questão comercial em um problema de legitimidade para o discurso que Infantino construiu ao longo dos últimos anos.

O que acontece se os acordos não saírem antes de junho
A Copa do Mundo 2026 começa em 11 de junho de 2026, e o tempo para fechar acordos que permitam produção, distribuição e venda de publicidade local está se estreitando rapidamente. Emissoras precisam de meses para estruturar grade, contratar comentaristas e negociar cotas com anunciantes. Se os contratos não forem assinados nas próximas semanas, o risco concreto não é apenas de ausência de transmissão — é de uma cobertura improvisada que esvazia o impacto comercial do torneio nesses mercados para todas as partes envolvidas.








