Travou. O inquérito civil aberto pelo Corinthians em dezembro de 2025 pelo Ministério Público de São Paulo para avaliar a possibilidade de intervenção judicial no Parque São Jorge está paralisado há meses, bloqueado por um recurso protocolado pelo próprio clube que gerou efeito suspensivo automático. Nesta terça-feira, 19 de maio de 2026, o Conselho Superior do MP-SP (CSMP-SP) se reúne para decidir o destino da ação — e o que estiver na pauta vai muito além de um procedimento jurídico.

Os 25 motivos que colocaram o Corinthians sob a lupa do MP

A origem do processo remonta a novembro de 2025, quando o promotor Cassio Conserino, responsável pelas investigações criminais sobre as gestões passadas do clube, encaminhou à Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social um documento de 55 páginas listando 25 razões para a abertura de uma ação civil pública. Por atuar na área criminal, Conserino não poderia propor a intervenção diretamente — sua recomendação funcionou como gatilho para que a Promotoria instaurasse o inquérito em 5 de dezembro de 2025.

A lista é extensa e tecnicamente detalhada. Entre os argumentos estão laudos de auditores externos com apontamentos de irregularidades; denúncias criminais já recebidas contra os ex-presidentes Augusto Melo (associação criminosa e lavagem de capitais) e Andres Sanchez (apropriação indevida e lavagem de capitais); investigação sobre volumoso desvio de material esportivo por dirigentes; sistema de compliance classificado como inoperante; notas supostamente frias emitidas por uma empresa chamada Oliveira Minimercado, apontada como fachada com o Corinthians como único cliente; e indícios da presença de crime organizado nas estruturas do clube. O MP também cita o Regime Centralizado de Execuções como não cumprido e não homologado, com contratos considerados lesivos ao clube incluídos no instrumento.

O déficit do clube chegou a R$ 204,2 milhões em 2025 — crescimento de 13% em apenas um mês, segundo dados publicados pelo Estadão. A folha de pagamento do Corinthians foi classificada pelo próprio MP como a terceira maior do futebol brasileiro, número que, isolado, já seria motivo de atenção em qualquer auditoria de governança.

A defesa corintiana e o recurso que pausou tudo

Diante do inquérito aberto, o departamento jurídico do clube protocolou recurso pedindo o arquivamento da investigação. O argumento central é que "as dificuldades enfrentadas não justificam intervenção judicial", e que o Corinthians funciona regularmente, sendo uma associação privada com autonomia garantida constitucionalmente. A defesa também aponta que outros clubes brasileiros enfrentam endividamento comparável sem serem alvo de investigação similar.

"Há mecanismos menos drásticos que intervenção para resolver o problema", sustenta o recurso corintiano, citando a possibilidade de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) como alternativa viável.

O clube ainda elencou medidas concretas adotadas pela gestão atual para demonstrar esforço de reestruturação: reprovação das contas do ex-presidente Augusto Melo; criação de comitê específico de reestruturação financeira; negociações com a União sobre dívidas tributárias; tratativas com a Caixa Econômica Federal sobre o financiamento da Neo Química Arena; e projeto de reforma do estatuto em andamento.

O MP-SP rebateu cada um desses pontos.

"Mesmo com autonomia, associações podem sofrer interferência se um inquérito apontar a necessidade", respondeu a Promotoria, acrescentando que há "indícios de má gestão, desordem administrativa, fragilidade econômica e financeira e instabilidade política" documentados no processo.

O recurso, ao ser protocolado, gerou automaticamente efeito suspensivo — o que significa que, desde então, os promotores André Pascoal da Silva e Luiz Ambra Neto estão impedidos de adotar qualquer providência investigativa. O processo ficou estagnado também por razões burocráticas: o julgamento estava previsto para 27 de janeiro de 2026, mas foi retirado da pauta às vésperas e adiado em sucessivas ocasiões, pois o relator Marcos Stefani só inseriu seu voto no sistema interno do MP nos últimos dias antes da data de hoje.

O que está em jogo no julgamento de hoje no CSMP-SP

O Conselho Superior do Ministério Público é presidido pelo Procurador-Geral de Justiça do Estado e funciona como instância recursal interna. Sua decisão sobre o caso corintiano pode seguir dois caminhos: acolher o recurso do clube e arquivar o inquérito civil, ou manter a investigação aberta, liberando os promotores para apurar todas as alegações presentes nos autos — incluindo manifestações de terceiros apensadas ao processo desde a abertura, entre elas uma de Romeu Tuma Júnior, ex-presidente do clube.

Se o inquérito for mantido, o MP poderá solicitar apresentação de documentos, coleta de depoimentos e realização de perícias, com o processo podendo resultar no ingresso de uma ação civil pública. Nesse cenário, o clube passaria a conviver com investigação ativa em curso simultâneo às negociações financeiras que a atual diretoria, encabeçada por Osmar Stabile desde meados de 2025, tenta conduzir. Se o recurso for acolhido, o inquérito é arquivado — mas os dados financeiros e os processos criminais individuais contra ex-dirigentes continuam correndo em paralelo, independentes desta decisão.

O julgamento do CSMP-SP está agendado para esta terça-feira, 19 de maio de 2026.