Quando você abre a Polymarket para checar as probabilidades de um jogo da Copa do Mundo ou de uma final de basquete e vê um volume de negociação de centenas de milhões de dólares, a primeira reação é de confiança: tanta gente apostando aqui, as odds devem refletir algo real. Mas e se uma fatia enorme desse volume não existisse de verdade?
A pergunta ganhou resposta incômoda em maio de 2026, quando quatro pesquisadores da Universidade Columbia — entre eles Yash Kanoria e Hongyao Ma, professores da escola de negócios, e Rajiv Sethi, economista do Barnard College — publicaram no SSRN um estudo baseado em mais de dois anos de dados on-chain da plataforma. A conclusão: em média, 25% de todo o volume histórico da Polymarket pode ter sido gerado por wash trading, a prática de comprar e vender os mesmos contratos entre contas coordenadas para inflar métricas sem mudar a posição líquida de mercado.
O número médio já seria preocupante por si só. O que torna o estudo ainda mais perturbador é o pico identificado: em dezembro de 2024, quase 60% do volume semanal da plataforma foi sinalizado como suspeito. Em algumas semanas específicas, mais de 90% das negociações em mercados esportivos e eleitorais pareciam inautênticas, segundo o algoritmo desenvolvido pelos pesquisadores para detectar padrões de carteiras que abrem e fecham posições rapidamente, especialmente quando operam em loop com outras carteiras de comportamento idêntico.
O que os números da Polymarket escondem nos mercados esportivos
O estudo identificou um cluster de mais de 43.000 carteiras responsável por quase 1 milhão de dólares em volume de negociação — a maioria a preços abaixo de um centavo, com praticamente toda a atividade classificada como provável wash trading. Contratos passavam por dezenas de carteiras em rápida sucessão, às vezes com os operadores assumindo posições perdedoras deliberadamente, o que sugere que o objetivo não era lucro imediato, mas inflar métricas para se qualificar a futuros programas de incentivo da plataforma.
Para quem aposta em esportes, o problema é direto: as odds em mercados de predição como a Polymarket são derivadas do comportamento coletivo dos apostadores. Se uma parcela expressiva das negociações é fictícia, a "sabedoria da multidão" — argumento central dos defensores dessas plataformas — deixa de refletir a opinião de um grupo amplo e passa a ser distorcida por agentes que não têm interesse genuíno no resultado do evento. Uma probabilidade de 68% para um time vencer pode estar mais próxima de 55% se o volume que a sustenta for artificial.
Kanoria foi direto ao comentar o estudo por e-mail:
"Sou esperançoso de que a Polymarket receberá bem a análise do nosso artigo. O wash trading não adiciona liquidez nem informação ao mercado, então parece valioso distinguir volume autêntico de inautêntico."A Polymarket, por sua vez, informou que não tinha comentário imediato e estava revisando o estudo — resposta que, considerando o tamanho das alegações, diz muito pelo que não diz.
A corrida por apostas esportivas e o risco para o apostador desavisado
O timing do estudo não poderia ser mais delicado para a Polymarket. Após a eleição presidencial americana de novembro de 2024 — cujos mercados acumularam volume total de 3,7 bilhões de dólares —, a plataforma viu seu volume diário desabar 84% da noite para o dia, segundo dados da Dune Analytics. Os usuários ativos diários caíram 53%, para pouco mais de 24.000. A dependência do ciclo eleitoral ficou escancarada, e a busca por novos motores de crescimento apontou diretamente para os esportes.
Quatro dos cinco maiores mercados não-políticos da Polymarket por volume total eram esportivos — exatamente a categoria onde o estudo da Columbia encontrou os índices mais altos de wash trading. A plataforma anunciou recentemente um aporte de até 2 bilhões de dólares da Intercontinental Exchange Inc., o que eleva a pressão por crescimento e torna os mercados esportivos ainda mais estratégicos. A competidora Kalshi, que saiu de 3,1% para 62,2% de participação global em volume de predição ao longo de 2025, chegou a registrar 1,3 bilhão de dólares em setembro — contra 773 milhões da Polymarket no mesmo período — antes de a Polymarket reagir com 1,93 bilhão em volume semanal em março de 2026, superando a rival pela primeira vez.
A diferença entre os volumes das duas plataformas em setembro de 2025 — 527 milhões de dólares — é do tamanho do PIB mensal de uma cidade média nordestina: expressiva no papel, mas potencialmente ilusória se parte substancial for gerada artificialmente. A Kalshi, regulada nos EUA e com restrições de identidade mais rígidas, enfrenta seus próprios problemas — incluindo uma ação judicial do procurador-geral de Massachusetts por operar como casa de apostas esportivas sem licença —, mas a estrutura baseada em crypto da Polymarket é explicitamente apontada pelos pesquisadores como o que torna o wash trading possível em escala.
O que o apostador brasileiro precisa entender antes de confiar nas odds
O SportNavo acompanhou de perto a expansão das plataformas de predição no Brasil ao longo dos últimos 18 meses, e o padrão é consistente: apostadores brasileiros chegam a esses mercados atraídos pela narrativa de que as odds são mais "honestas" do que as das casas tradicionais porque emergem de um processo coletivo e descentralizado. O estudo da Columbia derruba essa premissa com dados concretos.
O problema não é apenas teórico. Em semanas onde 90% das negociações em mercados esportivos são suspeitas, um apostador que usa as probabilidades da Polymarket como referência para calibrar suas apostas em plataformas regulamentadas está, na prática, tomando decisões baseadas em sinal contaminado. A plataforma pode exibir 70% de chance para um resultado que o mercado genuíno precificaria em 58% — e essa diferença de 12 pontos percentuais representa, em apostas repetidas, perdas sistemáticas.
Yash Kanoria e seus coautores foram cuidadosos em afirmar que suas estimativas não são definitivas e que o estudo ainda não passou por revisão por pares. Mas a metodologia — rastrear comportamento de carteiras on-chain em escala, identificar loops de negociação e clusters de contas coordenadas — é suficientemente robusta para exigir uma resposta da plataforma mais substantiva do que "estamos revisando".
"Se parte desse volume é fictícia", escrevem os autores, "isso poderia alterar a compreensão da força relativa da Polymarket na indústria e também minar a noção de que os mercados de predição refletem a sabedoria de uma multidão maior."
A Polymarket tem até o fim de maio para responder formalmente ao estudo — prazo informal que o próprio Kanoria sinalizou esperar. Enquanto isso, o próximo grande catalisador de volume já está no horizonte: os mercados ligados à Copa do Mundo de 2026, cujos jogos começam em junho no México, EUA e Canadá, devem atrair bilhões em apostas de predição. Quando as odds aparecerem na tela, a pergunta de abertura deste texto vai continuar sem resposta oficial: quanto daquele número é real?
Num servidor em algum lugar, 43.000 carteiras aguardam o apito inicial.












