O silêncio que tomou o Luzhniki em 15 de julho de 2018 não foi o silêncio da derrota — foi o silêncio de quem acabou de entender que viu algo raro. Copa do Mundo, final, França 4 a 2 sobre a Croácia, e ali, no centro do gramado de Moscou, Luka Modric ficou parado por alguns segundos antes de receber a Bola de Ouro do torneio. Vice-campeão. Melhor jogador do mundo. Uma contradição que só o futebol produz com tanta crueldade e tanta beleza ao mesmo tempo.

O que os números de Modric revelam sobre uma geração inteira

Há uma pergunta que qualquer torcedor croata carrega desde 2018: o que mais esse homem precisa fazer para ganhar uma Copa do Mundo? A resposta está, em parte, nos números — e eles são monumentais. Modric chega à Copa do Mundo de 2026 prestes a ultrapassar a marca de 200 jogos pela seleção, tornando-se de longe o maior representante em partidas da história croata. Nos Mundiais, são 19 jogos disputados em quatro edições — 2006, 2014, 2018 e 2022 —, com 2 gols e 1 assistência, números que contam menos do que o peso que cada uma dessas partidas carregou.

A trajetória começa em 2006, na Alemanha, quando um menino de 20 anos entrou em campo por apenas 29 minutos distribuídos em dois jogos de uma Croácia eliminada na fase de grupos. Em 2014, no Brasil, foram três partidas e mais uma eliminação precoce. O padrão se quebraria em 2018, quando Modric conduziu a Croácia a sete jogos — incluindo prorrogações dramáticas contra Dinamarca, Rússia e Inglaterra — até a final em Moscou. Em 2022, no Qatar, mais sete jogos e o terceiro lugar, encerrado numa semifinal de 3 a 0 para a Argentina de Messi. Ao todo, segundo levantamento do SportNavo, Modric acumulou nos Mundiais uma taxa de aproveitamento que poucos meio-campistas da história conseguiram manter por cinco torneios consecutivos.

Por que 2018 ainda define tudo o que Modric representa

Seria injusto chamar de era o que Modric construiu para a Croácia — mas é uma era em escala doméstica, com 14 prêmios de Jogador Croata do Ano no currículo. O ano de 2018 foi, no entanto, o ponto de convergência de uma trajetória que atravessou o Dínamo Zagreb, o Tottenham e chegou ao Real Madrid, onde conquistou 6 títulos da UEFA Champions League e 4 da La Liga entre 2012 e 2025. A Bola de Ouro da France Football daquele ano — a primeira e única entregue a um jogador que não se chamava Messi ou Cristiano Ronaldo entre 2008 e 2023 — foi o reconhecimento tardio de um estilo que o futebol moderno demorou a saber nomear: a arte de controlar o tempo da partida sem precisar de velocidade, sem precisar de gols, apenas com a inteligência de saber onde estar antes de qualquer outro.

"Modric não joga futebol. Ele conduz o futebol." — síntese que circulou entre jornalistas europeus após a final de 2018 e que resistiu ao tempo melhor do que qualquer estatística isolada.

O prêmio de Melhor Jogador da Europa em 2018 e o The Best da FIFA completaram um ano que nenhum croata viveu antes — nem mesmo na geração de Davor Šuker, artilheiro da Copa de 1998, quando a Croácia chegou ao terceiro lugar pela primeira vez. Modric não apenas igualou aquela geração: a superou em longevidade e consistência.

O que ainda falta resolver em 2026

A Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, México e Canadá, será a quinta e última de Modric. Aos 40 anos — nascido em 9 de setembro de 1985, em Zadar —, ele chega após uma temporada no AC Milan, clube pelo qual assinou em 2025 após encerrar seu ciclo no Real Madrid. A Croácia, admitem os próprios analistas croatas, está em transição. Os titulares que chegaram à final de 2018 envelheceram junto com o camisa 10, e a renovação ainda não produziu um substituto à altura do legado que ele deixará.

"Esta Copa será diferente para mim. Quero terminar do jeito certo." — Modric, em entrevista à imprensa croata antes da convocação para o Mundial de 2026.

A pergunta que abre esta história — o que mais esse homem precisa fazer? — talvez não tenha resposta dentro de um campo. Modric já tem o que nenhum jogador da história da Croácia conseguiu: 200 jogos pela seleção, cinco Copas do Mundo, uma Bola de Ouro e a certeza de que, quando a Croácia entrar em campo em 2026, o número 10 ainda será o coração de tudo. Ele tem 40 anos e vai jogar sua quinta Copa.