Costuma-se dizer que Neymar é o jogador que mais sofre lesões em Copas do Mundo. A afirmação parece óbvia — mas ela esconde algo mais perturbador do que a simples má sorte: em nenhuma das quatro participações do camisa 10 em Mundiais o Brasil teve o atacante disponível, inteiro e em condições ideais durante toda a competição. Não uma vez. E a lesão grau 2 confirmada na panturrilha direita nesta quinta-feira, 28 de maio, pelo médico da Seleção Brasileira, Rodrigo Lasmar, apenas fecha um ciclo que começou em Belo Horizonte, numa tarde de julho de 2014, e que ainda não encontrou seu ponto final.
O drama de 2014 que mudou a história da Seleção
Naquele quarto de final contra a Colômbia, no Estádio Castelão, em Fortaleza, Neymar havia marcado quatro gols na fase de grupos e carregava o peso de um país inteiro nas costas. A joelhada do colombiano Zuñiga nas suas costas, aos 86 minutos do segundo tempo, resultou em fratura na terceira vértebra lombar — e tirou o camisa 10 da semifinal mais catastrófica da história do futebol brasileiro. O 7 a 1 para a Alemanha, no Mineirão, aconteceu sem ele. A derrota para a Holanda na disputa do terceiro lugar, também. Neymar assistiu a tudo de muletas, com um colete ortopédico, incapaz de qualquer intervenção que não fosse emocional.
Quatro anos depois, em 2018, o roteiro mudou de forma, mas manteve a essência. Poucos meses antes da Copa do Mundo da Rússia, Neymar sofreu grave lesão no quinto metatarso do pé direito atuando pelo Paris Saint-Germain e precisou de cirurgia. Chegou ao Mundial em recuperação, disputou os cinco jogos do Brasil — incluindo a eliminação para a Bélgica por 2 a 1 nas quartas de final — mas nunca apresentou o nível técnico que o tornara o mais caro do mundo quando trocou o Barcelona pelo PSG por 222 milhões de euros, em agosto de 2017. Marcou dois gols, mas foi alvo de críticas por performances abaixo do esperado.
O tornozelo no Catar e o retorno que não salvou o Brasil
No Qatar, em 2022, o drama físico apareceu já na estreia. Neymar sofreu entorse no tornozelo direito durante a vitória por 2 a 0 sobre a Sérvia e deixou o campo chorando, com o tornozelo visivelmente inchado. A lesão o tirou das duas rodadas seguintes da fase de grupos. Ele retornou nas oitavas de final, marcou contra a Coreia do Sul na goleada por 4 a 1, e voltou a balançar as redes diante da Croácia nas quartas — mas o Brasil foi eliminado nos pênaltis, após empate por 1 a 1 no tempo normal. Neymar converteu o seu pênalti. Não foi suficiente.
"Todo grande jogador carrega sua própria maldição. A de Neymar é chegar à Copa sempre com uma parte do corpo que não obedece completamente. E o Brasil paga o preço toda vez." — comentarista esportivo veterano, em análise transmitida durante a Copa do Qatar
Agora, em 2026, a lesão aconteceu no dia 17 de maio, durante a partida entre Santos e Coritiba pelo Campeonato Brasileiro. Neymar deixou o campo reclamando de dores na panturrilha direita após uma pancada na região. O Santos tratou o caso inicialmente como um edema — diagnóstico que se revelou insuficiente após a ressonância magnética realizada sob os cuidados da CBF na Granja Comary. O exame confirmou lesão muscular grau 2, com ruptura parcial das fibras dos músculos gastrocnêmio e sóleo, estruturas absolutamente centrais para as acelerações, mudanças de direção e arrancadas que definem o jogo de Neymar.
O que uma lesão grau 2 significa para o calendário da Copa
O médico da Seleção, Rodrigo Lasmar, foi direto ao informar o prazo: "O atleta segue em tratamento, a nossa expectativa é que no prazo de duas a três semanas ele esteja liberado. Conosco ele está em tratamento intensivo para avaliarmos diariamente a evolução, mas a expectativa é essa." Duas a três semanas, contadas a partir desta quinta-feira, 28 de maio, colocam o retorno de Neymar entre 11 e 18 de junho. O Brasil estreia na Copa contra Marrocos no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A aritmética é implacável: Neymar dificilmente estará disponível para o jogo mais difícil da fase de grupos.

O fisioterapeuta esportivo Renato Valença, especialista com passagens pela Seleção Brasileira de base, explica a distinção técnica que torna o caso mais grave do que o edema inicialmente divulgado pelo Santos: "O edema é basicamente uma resposta inflamatória local desencadeada por qualquer agressão ao tecido, seja ela estrutural ou não. A presença ou ausência de ruptura estrutural é que vai determinar o tempo de retorno e o risco de recidiva." No grau 2, há ruptura parcial real — e o risco de recidiva caso o retorno seja precipitado é consideravelmente alto.
A CBF decidiu manter Neymar entre os 26 convocados de Carlo Ancelotti, ao menos por ora. O regulamento da FIFA para a Copa de 2026 permite substituições até 24 horas antes da primeira partida da equipe — ou seja, até 12 de junho — desde que o atleta substituto conste na lista prévia e a lesão seja comprovada com documentação médica formal enviada à entidade. A lista definitiva precisa ser entregue até 1º de junho. A partir daí, qualquer corte exige justificativa médica aceita pela FIFA.
O Brasil que entra em campo antes de Neymar estar pronto
O cenário mais otimista dentro da comissão técnica de Ancelotti projeta o retorno de Neymar para a segunda rodada da fase de grupos, contra o Haiti, no dia 19 de junho, na Filadélfia. O cenário mais conservador aponta para a terceira rodada, diante da Escócia, em Miami, no dia 24 de junho. Nos dois casos, o Brasil terá que disputar ao menos uma partida — e provavelmente a mais difícil do grupo — sem o seu principal nome ofensivo, o maior artilheiro da história da Seleção, com 79 gols em 128 jogos.
Há um paralelo histórico que poucos mencionam: em 1998, Romário foi cortado da Copa da França por lesão na coxa e o Brasil chegou à final sem ele, perdendo para os anfitriões por 3 a 0. A Seleção sobreviveu à ausência do camisa 11. Em 2014, não sobreviveu à ausência do camisa 10 — ao menos não com dignidade. A diferença entre os dois episódios diz muito sobre o grau de dependência que cada geração construiu em torno de um único jogador.
Neymar, aos 34 anos, disputa sua quarta Copa do Mundo e chega lesionado pela quarta vez consecutiva. A CBF monitora sua evolução clínica diariamente e tem até 12 de junho para tomar a decisão definitiva sobre sua permanência na lista. O Brasil enfrenta o Panamá no Maracanã no sábado, 31 de maio, e o Egito em Cleveland no dia 6 de junho — ambos os amistosos sem o camisa 10. A estreia contra Marrocos, no dia 13, será o primeiro teste real de quanto Ancelotti conseguiu preparar a equipe para jogar sem o seu principal jogador disponível.









