Confesso: eu errei sobre Neymar em 2022. Escrevi, semanas antes do Catar, que o histórico de lesões pré-Copa era uma coincidência estatística, que o jogador havia se profissionalizado fisicamente e que o ciclo de sustos havia encerrado. Ele entrou no torneio com tornozelo comprometido, jogou dez partidas com dor visível e saiu nas quartas. Eu estava errada — e hoje, diante de um edema na panturrilha direita detectado em 17 de maio durante a partida entre Santos e Coritiba, entendo melhor o porquê.
O padrão que nenhum preparador físico consegue quebrar
A sequência é documentada e constrangedora. Em 2014, Neymar fraturou a terceira vértebra lombar no último jogo da fase eliminatória contra a Colômbia e ficou fora da semifinal. Em 2018, rompeu ligamentos do tornozelo no amistoso preparatório contra o Catar, em março, e chegou à Rússia com mobilidade comprometida. Em 2022, torceu o tornozelo direito ainda na fase de grupos, contra a Sérvia, e disputou o restante do torneio com infiltrações. Agora, a menos de 30 dias da estreia do Brasil contra o Panamá — marcada para 31 de maio no Rio de Janeiro —, o diagnóstico de edema muscular na panturrilha direita volta a colocar a saúde do camisa 10 no centro do debate nacional.
O ortopedista esportivo João Polydoro, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que o edema representa acúmulo de líquido ao redor do músculo, geralmente causado por sobrecarga, pancadas ou microlesões de fibras. Segundo o especialista, quadros mais leves demandam de alguns dias a duas semanas de recuperação. Casos com rompimento de fibras podem exigir até três semanas ou mais. A janela, portanto, é apertada — mas não fechada.
O técnico Cuca revelou após o jogo que Neymar sentiu uma "beliscada" na região da coxa ainda durante a partida, o que interferiu diretamente na substituição do atacante. O jogador permaneceu em campo por alguns minutos adicionais em meio a uma confusão envolvendo a arbitragem antes de deixar o gramado.
"Ele sentiu uma beliscada na coxa e acabou ficando um pouco mais do que o planejado por causa da confusão com o árbitro", explicou Cuca em coletiva após o confronto com o Coritiba.
A tese do pessimismo e a contra-leitura que os números permitem
A leitura dominante — e compreensível — é a do torcedor que já viu esse filme três vezes e não acredita no final feliz. Há razão histórica nessa desconfiança. Nas últimas quatro Copas em que Neymar esteve presente, o Brasil nunca chegou a uma final. O atacante disputou 14 jogos mundialistas ao longo da carreira e marcou oito gols, mas nenhum desses torneios terminou com ele em condições físicas plenas nos momentos decisivos.
A contra-leitura, porém, existe — e tem base concreta. A diferença entre 2026 e as edições anteriores está na arquitetura do protocolo de recuperação. Pela primeira vez, CBF e clube estão formalmente alinhados desde o diagnóstico inicial: o Santos já trabalha internamente com a possibilidade de ausência do jogador nas próximas rodadas do Brasileirão, priorizando sessões de fisioterapia e controle de carga. A comissão técnica de Carlo Ancelotti acompanha o tratamento em tempo real, com acesso direto à equipe médica do clube paulista. Esse alinhamento institucional — que não existia em 2014, quando a CBF e o Barcelona operavam em silos distintos — representa uma mudança estrutural no gerenciamento do risco.
Para ter uma dimensão da diferença entre uma recuperação bem gerenciada e uma mal conduzida: o tempo entre o diagnóstico de Neymar em 2018 e a estreia na Copa foi de 78 dias, com o jogador realizando apenas seis treinos com bola antes do jogo contra a Suíça. Em 2026, entre o surgimento do edema e a estreia contra o Panamá, há aproximadamente 14 dias — uma margem tão estreita quanto a distância de Recife a Maceió comparada à que separava o atleta de uma preparação adequada naquele ciclo russo.
"A prioridade é garantir recuperação completa do camisa 10 sem acelerar o retorno aos gramados", informou a CBF em comunicado interno, segundo apuração do SP Diário.
O que a Copa de 2026 ainda pode oferecer — e o que exige de Neymar inteiro
Convocado por Carlo Ancelotti, Neymar ocupa papel central no planejamento tático brasileiro para o Mundial. O Brasil enfrenta o Panamá em 31 de maio e o Egito em 6 de junho nos amistosos preparatórios antes do início oficial da competição. A presença do atacante em pelo menos um desses compromissos seria o sinal verde que a CBF precisa para confirmar a aposta.
A panturrilha direita — o mesmo lado afetado em episódios anteriores — é a região mais exigida nas acelerações e arranques característicos do estilo de Neymar. Qualquer compensação biomecânica durante a recuperação pode sobrecarregar o tornozelo ou o posterior da coxa, criando o efeito dominó que marcou as Copas de 2018 e 2022. O protocolo de fisioterapia precisa, portanto, resolver o edema sem criar vulnerabilidades secundárias.
A síntese honesta desta situação é que o pessimismo histórico tem fundamento empírico, mas o otimismo estrutural tem, pela primeira vez, argumentos concretos. A CBF aprendeu — na marra, ao longo de três Copas — que gerenciar Neymar exige transparência diagnóstica e coordenação precoce entre todas as partes. Se esse protocolo for respeitado até 31 de maio, o atacante tem condições reais de chegar à estreia contra o Panamá em nível funcional adequado.
Se o edema evoluir para uma lesão de fibras confirmada por ressonância magnética nos próximos dias, o cenário muda completamente — e Ancelotti precisará decidir se mantém um camisa 10 em recuperação acelerada ou se convoca um substituto com ritmo de jogo. O Brasil estreia na Copa do Mundo em 15 de junho, com grupo, sede e adversários ainda a serem confirmados pela FIFA. Até lá: se os exames de imagem revelarem grau II de lesão muscular, você acredita que Ancelotti mantém Neymar na lista ou já aciona o plano B antes da apresentação em Granja Comary?









