Dezenove gols marcados e apenas quatro sofridos. Essa é a radiografia da sequência de sete vitórias consecutivas do Flamengo sob o comando de Leonardo Jardim, encerrada com a goleada por 4 a 0 sobre o Atlético-MG na Arena MRV, pela 13ª rodada do Brasileirão. O resultado coloca o Rubro-Negro na vice-liderança e, mais revelador do que o placar, expõe uma transformação tática que contradiz a lógica comum: um time que ataca de forma avassaladora, com trocas de passes rápidos e verticalidade constante, tornou-se simultaneamente a defesa menos vazada da competição — posto dividido com o Palmeiras.
O paradoxo do time ofensivo com menor volume sofrido
A pergunta que qualquer observador faz ao ver o Flamengo de Jardim é simples: como um time que pressiona tão alto e avança tanto defensivamente sofre tão pouco? A resposta está no desenho de transição. Os volantes do Rubro-Negro têm atuado como linhas de cobertura imediata, fechando os corredores centrais no momento em que a posse é perdida, o que reduz o tempo de reação do adversário para organizar contra-ataques. Contra o Atlético-MG, Eduardo Domínguez até reconheceu que o time mineiro criou chances — mas Pedro, Arrascaeta e Plata chegaram cômodos às finalizações, enquanto o Galo pagou o preço pela falta de frieza na área adversária.
"Fizemos um bom jogo no ataque. No ataque, a equipe criou situações, as mesmas ou até, talvez, algumas mais que o rival. O rival não chegou muito, não acho que tenha sido um problema na criação de jogo do rival, mas a finalização de jogadores de tanta hierarquia que chegam cômodos. Dentro da área, pagamos caro, muito caro", admitiu o técnico Eduardo Domínguez após a derrota.
A declaração de Domínguez é, involuntariamente, um retrato fiel do sistema de Jardim. O técnico português não constrói uma defesa baixa e retrancada — constrói uma armadilha de espaços. O Atlético-MG até transitou, mas transitou para onde o Flamengo queria. Nos quatro gols marcados, os atacantes rubro-negros chegaram com liberdade justamente porque o time adversário buscou atacar e deixou linhas abertas nas costas da marcação.

Os números que contextualizam a série histórica
A sequência atual de Jardim já supera qualquer série de Filipe Luís, que em 101 jogos no comando do time principal chegou ao máximo de seis vitórias consecutivas — em três oportunidades diferentes. A marca de sete vitórias iguala Renato Gaúcho em 2021 e Tite em 2024, embora a sequência do ex-treinador da Seleção tenha ocorrido no Campeonato Carioca, competição de menor resistência. O próximo sarrafo é a sequência de Jorge Jesus, que em 2019 encadeou oito vitórias seguidas no Brasileirão. Jardim tem a chance de igualar essa marca na quarta-feira contra o Estudiantes, em La Plata, pela fase de grupos da Libertadores.

Uma análise do SportNavo sobre os dados da sequência revela um detalhe operacional relevante: Jardim tem rotacionado o elenco de forma sistemática, mas mantém Pedro e Arrascaeta em campo sempre que os dois estão disponíveis. Pedro abriu o placar contra o Atlético-MG aos 8 minutos, aproveitando cruzamento rasteiro de Samuel Lino, e fechou o placar aos 38 do segundo tempo após passe de Evertton Araújo — gol confirmado pelo VAR após marcação equivocada de impedimento em campo. Arrascaeta, por sua vez, marcou o terceiro gol de cabeça após assistência de Varela, confirmando o que o comentarista Eric Faria chamou de "Arrascabril", em referência à tendência do uruguaio de engrenar especificamente no mês de abril.
"Para mim, o importante é a atuação da equipe, é a equipe que a gente propõe, a atitude que os jogadores têm com os adversários, no respeito aos times defensivos e também no respeito aquilo que são as nossas ideias. No futebol não existe troféus individuais, existem troféus coletivos. É para isso que trabalhamos", disse Jardim na coletiva pós-jogo.
Transição defensiva como arma tática
O segundo gol da partida, marcado por Gonzalo Plata aos 31 minutos do primeiro tempo, é o exemplo mais didático do sistema de Jardim. Pedro saiu da área para ajudar na marcação e acionou Plata, que recebeu, superou três marcadores e bateu colocado da entrada da área. A cena ilustra como o técnico português distribui responsabilidades defensivas entre atacantes — uma prática que Jorge Jesus também utilizava e que Jardim, sugestão do próprio português para substituí-lo já em 2020, certamente absorveu como referência.
O levantamento do SportNavo mostra que, nas sete vitórias da sequência, o Flamengo enfrentou Santos, Crusco, Fluminense, Independiente Medellín, Bahia, Vitória e Atlético-MG — uma grade que mistura adversários de nível variado, o que exige adaptação de intensidade a cada partida. A gestão desse calendário triplo foi feita com rotações pontuais: contra o Santos, por exemplo, o Fla virou no segundo tempo depois de o adversário cansar fisicamente, o que sugere que Jardim monitora o desgaste acumulado e usa o banco como ferramenta de pressão, não apenas de manutenção de resultado.
O Atlético do outro lado da equação
Enquanto o Flamengo acumula sequência e solidez, o Atlético-MG soma 14 pontos em 13 rodadas e está em 15º lugar, na mesma pontuação de Internacional (16º) e Santos (17º), primeiro da zona de rebaixamento. A derrota por 4 a 0 em casa, somada à saída turbulenta de Hulk do vestiário para negociar com outro clube antes da partida, criou um ambiente de colapso institucional que extrapola a análise técnica. O técnico Domínguez, apesar da pressão, pregou serenidade e pediu mais "agressividade para defender e para atacar", mas o clube tem compromisso já na quarta-feira contra o Deportivo Cienciano pela Copa Sul-Americana, seguido do clássico contra o Cruzeiro no sábado, dia 2. Pouco tempo para reconstruir o que o Flamengo desfez em 45 minutos na Arena MRV.









