A última vez que um clube brasileiro liderou o ranking de convocados para uma Copa do Mundo foi em 2002 — quando o São Paulo forneceu peças para o grupo que conquistaria o pentacampeonato no Japão e na Coreia. Vinte e quatro anos depois, na manhã desta segunda-feira, 18 de maio, Carlo Ancelotti anunciou os 26 nomes da Copa do Mundo no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e o número que sintetizou tudo foi um só: quatro. Quatro jogadores do Flamengo na lista final, mais do que qualquer clube europeu, mais do que o Real Madrid, mais do que o Arsenal, mais do que o Manchester United — todos com dois representantes cada.

O número quatro e o que ele carrega de história

Quatro é também o número de títulos brasileiros que o Flamengo conquistou no Campeonato Brasileiro por pontos corridos desde 2019, uma hegemonia doméstica que não tem paralelo no futebol nacional desta geração. Não é coincidência que a maior potência do futebol brasileiro interno seja agora a maior fornecedora da seleção. Ancelotti, ao montar sua lista, não estava fazendo um gesto simbólico em direção ao Rio de Janeiro — estava lendo o que o campo produziu ao longo de meses. Segundo apuração do SportNavo, a convocação reflete uma tendência que os analistas de desempenho já rastreavam desde o início das Eliminatórias: o Flamengo tinha mais jogadores em condição de titular do que qualquer outro clube com brasileiros no elenco.

Real Madrid e Arsenal, com dois convocados cada, representam a escala europeia que ainda absorve a maior parte do talento brasileiro exportado. O Zenit, de São Petersburgo, e o Manchester United completam a lista dos clubes com dupla representação. Mas nenhum deles chegou a quatro. O Flamengo chegou.

Como o Flamengo construiu um celeiro que rivaliza com a Europa

A explicação passa por uma métrica que os analistas chamam de expected threat (xT) — uma medida que quantifica o quanto cada ação com bola aumenta a probabilidade de um gol, considerando a posição no campo e a sequência de passes. Em termos simples: não basta finalizar, é preciso criar situações perigosas de forma consistente. Os jogadores rubro-negros convocados por Ancelotti figuram entre os mais altos nessa métrica dentro do futebol sul-americano, o que explica por que o técnico italiano os priorizou em detrimento de jogadores em clubes europeus de segunda linha.

O processo que gerou esses quatro nomes não nasceu de um ciclo curto. O Flamengo investiu, entre 2019 e 2024, mais de R$ 800 milhões em contratações e na estrutura do Ninho do Urubu, seu centro de treinamento. A base técnica, a regularidade competitiva na Libertadores e o nível de exigência tática imposto por sucessivos treinadores — de Jorge Jesus a Leonardo Jardim, passando por Renato Gaúcho e Vítor Pereira — forjaram jogadores capazes de suportar a pressão de uma Copa do Mundo.

Nas palavras do próprio Carlo Ancelotti, ao justificar a lista no Museu do Amanhã,

"Os jogadores do Flamengo estão em grande momento. Não há como ignorar quem está jogando bem, independentemente de onde joga."
A frase, dita com a economia de palavras típica do treinador italiano, vale mais do que qualquer análise: o maior técnico do mundo no momento reconheceu publicamente que um clube brasileiro voltou a ser referência de alto rendimento.

O número quatro e o que ele carrega de história Quatro rubro-negros na Copa e o
O número quatro e o que ele carrega de história Quatro rubro-negros na Copa e o

O que a liderança do Flamengo projeta para a Copa do Mundo

A seleção que Ancelotti levará à Copa do Mundo terá, portanto, um núcleo rubro-negro mais robusto do que qualquer clube europeu individualmente. Isso tem implicações táticas diretas: jogadores que treinam juntos diariamente, que conhecem os movimentos uns dos outros, que dividem o mesmo vestiário e a mesma pressão do Maracanã aos domingos. A sincronia entre companheiros de clube dentro de uma seleção é um fator raramente quantificável, mas historicamente relevante — a França de 1998 tinha seis jogadores do Juventus, a Espanha de 2010 tinha sete do Barcelona.

A convocação também reacende um debate que o futebol brasileiro carregava com algum constrangimento desde meados dos anos 2000: a fuga de talentos para a Europa antes da maturidade. O fato de quatro jogadores de alto nível permanecerem no Brasil — e serem convocados por um técnico com o currículo de Ancelotti — sugere que o equilíbrio financeiro entre o futebol doméstico e o europeu de médio porte se alterou. O Flamengo paga salários que, em muitos casos, superam os oferecidos por clubes da segunda divisão da Premier League ou da metade inferior da La Liga.

A lista completa dos 26 convocados traz representantes de clubes como Zenit, Manchester United, Real Madrid e Arsenal, mas nenhum deles com mais de dois jogadores. O Flamengo, com quatro, está sozinho no topo de um ranking que não via um clube brasileiro na liderança desde aquele julho de 2002, quando Ronaldo Fenômeno levantou a taça em Yokohama.

A Copa do Mundo começa em junho, e o Brasil estreia com uma seleção que carrega, pela primeira vez em quase um quarto de século, a marca de um clube carioca como sua principal base — está pronto o celeiro, falta o campo maior provar se a colheita sustenta o peso da expectativa.