Diz-se que clubes em crise financeira perdem o controle das contratações de atletas. Mas o que os dados do caso Mega Assessoria mostram é diferente — e mais grave: o Corinthians perdeu o controle até da portaria. Entre setembro e outubro de 2025, o clube pagou R$ 676,6 mil a uma empresa de segurança que não tinha autorização da Polícia Federal para operar, não havia assinado contrato formal com o Timão e estava registrada em nome de um funcionário do próprio clube. O Ministério Público já abriu investigação criminal sobre o caso.
Três notas fiscais e nenhum contrato assinado no Parque São Jorge
A Mega Assessoria Operacional Ltda recebeu do Corinthians exatamente R$ 676.627,66, distribuídos em três notas fiscais emitidas em menos de dois meses: R$ 244.627,66, R$ 208.350,00 e R$ 223.650,00. Os serviços cobriam segurança no Parque São Jorge, no CT Joaquim Grava e no CT das categorias de base. Qualquer defensor da gestão Stabile dirá que havia urgência — e de fato havia: em 31 de maio de 2025, apoiadores de Augusto Melo invadiram a presidência do clube, criando a necessidade de reforçar o esquema de proteção. O problema é que urgência não dispensa autorização da PF, exigida por lei para empresas de vigilância privada, e tampouco justifica a ausência de contrato formal entre as partes.
A empresa no nome do gerente operacional do CT Grava
Fernando José da Silva, então gerente operacional do clube social, figura como titular da Mega Assessoria — e hoje ocupa a mesma função no CT Joaquim Grava, um dos locais que a empresa supostamente protegia. A sobreposição de papéis é o tipo de conflito de interesse que o próprio Corinthians disse não enxergar, mas que o MP enxerga com clareza suficiente para abrir inquérito criminal. Segundo apuração do SportNavo, o gerente deu versões contraditórias ao longo da investigação.
"A criação da empresa foi a pedido do diretor administrativo do Corinthians, Fábio Soares", afirmou Fernando José da Silva ao SportInsider — para depois mudar a versão e atribuir o pedido ao próprio presidente do clube.
Duas versões, dois responsáveis diferentes, e nenhum contrato para esclarecer a cadeia de comando. A distância entre o que foi dito numa entrevista e o que foi dito em seguida é menor do que a distância entre Recife e João Pessoa — mas o impacto jurídico é da magnitude de uma travessia entre Manaus e Salvador… e aí vem o problema.
O que a investigação do MP pode alcançar na gestão Stabile
A investigação criminal do Ministério Público não mira apenas a Mega Assessoria. Ela aponta para quem autorizou o pagamento de quase R$ 677 mil a uma empresa sem habilitação legal. Se a ordem veio do diretor administrativo Fábio Soares ou diretamente do presidente, como sugere a segunda versão do gerente, o raio de responsabilidade se expande consideravelmente. Contratar empresa de vigilância sem autorização da PF configura infração à Lei 7.102/1983, que regula serviços de segurança privada no Brasil — e a pessoa jurídica contratante também pode responder.

O clube "entende que não havia conflito de interesse" nos pagamentos, segundo nota divulgada pelo Corinthians à época, citando a necessidade emergencial criada pela invasão de maio de 2025.
Próximos passos e o peso do histórico jurídico corintiano
O Corinthians já acumula investigações sobre o contrato com a Vai de Bet, auditorias que apontaram R$ 593 milhões inflados no balanço e uma dívida que ultrapassa R$ 2 bilhões. Esse histórico torna qualquer nova irregularidade administrativa mais difícil de isolar como episódio pontual — o MP tende a analisar padrões, não incidentes. A próxima etapa da investigação passa pela oitiva formal dos envolvidos e pelo cruzamento das notas fiscais com os registros bancários do clube. Fernando José da Silva, Fábio Soares e a cúpula da gestão Stabile devem ser convocados a prestar esclarecimentos. O prazo para manifestação do Corinthians ao MP ainda não foi divulgado publicamente.








