"O Flamengo tem mais torcedores na Bahia do que o Vitória." A frase soa como provocação, mas é dado de pesquisa — levantamento conjunto dos institutos Múltipla, Anova e Opnus, realizado no fim de 2025, aponta que o Flamengo representa 24% da torcida em todo o território baiano, posicionando-se à frente dos dois principais clubes do estado, o Bahia e o Vitória. Nesta quinta-feira, 14 de maio, às 21h30, esse dado deixa de ser abstrato e ganha geometria concreta nas arquibancadas do Barradão.
O mapa das torcidas na Bahia e o que ele revela sobre o futebol brasileiro
A hegemonia do Flamengo fora do Rio de Janeiro não é fenômeno recente nem acidental. Ela é produto de décadas de exposição televisiva concentrada, de políticas de licenciamento que transformaram a camisa rubro-negra em commodity nacional e de uma estrutura de receitas que, segundo o Relatório de Finanças do Futebol Brasileiro da Pluri Consultoria, posicionou o clube entre os dez maiores em valor de marca da América Latina ao longo dos anos 2010. Quando um clube capta 24% da identificação torcedora num estado com mais de 15 milhões de habitantes — e onde dois clubes locais competem diretamente por esse mesmo público —, estamos diante de um fenômeno de concentração de capital simbólico que extrapola o campo esportivo.
Pesquisas de audiência regional do Ibope e do DataFolha, realizadas em ciclos anteriores, já sinalizavam que o Nordeste brasileiro concentra a segunda maior base de torcedores do Flamengo no país, atrás apenas do Sudeste. A Bahia, em particular, funciona como uma espécie de cinturão de transição entre o fã local e o torcedor de clube nacional — e o Flamengo ocupa esse espaço com eficiência que nenhum outro clube do Rio ou de São Paulo conseguiu replicar de forma sistemática.
O Barradão lotado e a pressão que se inverte no jogo de volta da Copa do Brasil
Na Copa do Brasil, a quinta fase tem formato de ida e volta, e o Flamengo chega ao Barradão com vantagem construída no Maracanã: 2 a 1 no primeiro duelo, disputado no Rio de Janeiro. Para avançar às oitavas de final, o clube carioca joga pelo empate — qualquer resultado que não seja uma derrota por dois gols ou mais garante a classificação. O Vitória, portanto, precisa vencer por dois gols de diferença para avançar no tempo normal; uma vitória por um gol leva a decisão para os pênaltis.
Todos os ingressos do setor visitante estão esgotados, o que indica presença massiva de flamenguistas nas arquibancadas. Segundo o técnico Leonardo Jardim, que comanda o Flamengo nesta temporada, a equipe tem trabalhado a gestão emocional para situações de pressão externa — fator que, em jogos fora de casa, tende a ser amplificado quando o ambiente não é inteiramente hostil ao visitante. A divisão evidente de torcidas dentro do Barradão cria uma atmosfera incomum para o Vitória, que precisaria de um caldeirão monolítico para potencializar o fator casa.
Nas palavras do levantamento dos institutos Múltipla, Anova e Opnus, o dado de 24% de identificação flamenguista na Bahia "reforça a força nacional do Rubro-Negro carioca e ajuda a explicar a presença constante de flamenguistas em jogos disputados em Salvador e em capitais do Nordeste". Em termos sociológicos, o que se observa é que o conceito de mando de campo — juridicamente atribuído ao Vitória — sofre erosão prática quando o visitante mobiliza uma base local maior do que os próprios clubes da cidade.
O que está em jogo para o Vitória além da classificação
Para o Vitória, a equação desta noite vai além da aritmética de gols. O clube baiano, que vem apostando em Erick como principal referência ofensiva da temporada 2026, enfrenta o desafio de produzir dois gols contra uma equipe que, no Maracanã, demonstrou organização defensiva suficiente para segurar o placar após abrir vantagem. Erick, que tem sido o atleta mais consistente do Leão da Barra neste ciclo, entra com expectativa de protagonismo num jogo em que qualquer erro de finalização pode ser fatal para as pretensões do time.
Há, ainda, uma dimensão econômica relevante: avançar às oitavas de final da Copa do Brasil representa, para clubes de médio porte, um incremento significativo de receita via cotas de televisão e premiações da CBF. Para o Flamengo, cuja receita operacional superou R$ 1,2 bilhão em 2024 segundo o balanço divulgado pelo clube, a Copa do Brasil é parte de uma estratégia de múltiplas frentes. Para o Vitória, ela pode representar a diferença entre um orçamento equilibrado e um déficit operacional ao fim do segundo semestre.

A pressão sobre o Vitória, portanto, é dupla: técnica, pela necessidade de vencer por dois gols um adversário que joga pelo empate; e sociológica, pela impossibilidade de contar com uma arquibancada monolítica num estádio que, em tese, deveria ser sua fortaleza. O Barradão recebe esta noite um jogo que, antes mesmo do apito inicial, já diz algo sobre como o futebol brasileiro distribui poder simbólico e econômico de forma profundamente assimétrica.
A bola rola às 21h30 desta quinta-feira, 14 de maio, com transmissão ao vivo pelo Amazon Prime Video. Quem quiser entender como o futebol funciona como espelho de estruturas sociais mais amplas, vale gravar o jogo e observar, nos closes de câmera, de que lado as arquibancadas do Barradão vão fazer mais barulho quando o primeiro gol entrar.









