Confesso: em 2022, quando o Brasil foi anunciado como candidato a sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027, escrevi que a logística seria o menor dos problemas. Errei. E os documentos internos do Ministério do Esporte, obtidos pela imprensa nas últimas semanas, provam exatamente o tamanho do equívoco.

O governo federal estima que precisará de ao menos R$ 1,5 bilhão para viabilizar o torneio, que será realizado pela primeira vez na América do Sul. O Mundial reunirá 32 seleções distribuídas em oito cidades-sede: Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. O número parece redondo até você abrir a planilha linha por linha.

A conta que não fecha no Ministério da Justiça

O documento elaborado pelo Ministério do Esporte em meados de abril aponta que a maior demanda de verba vem de uma pasta que, à primeira vista, parece fora do jogo: o Ministério da Justiça e Segurança Pública, com necessidade de R$ 676 milhões distribuídos nos orçamentos de 2026 e 2027. A verba cobre Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Força Nacional.

Mas um segundo documento, produzido pelo próprio Ministério da Justiça na semana seguinte, já projeta um valor superior a R$ 760 milhões — incluindo mais de R$ 150 milhões em equipamentos e sistema anti-drone e cerca de R$ 130 milhões para viaturas, blindados e veículos operacionais. A pasta já pediu formalmente à equipe econômica do governo a inclusão de aproximadamente R$ 600 milhões no orçamento corrente. Quando você soma segurança com infraestrutura esportiva, o R$ 1,5 bilhão começa a parecer piso, não teto.

"O processo de planejamento e dimensionamento orçamentário ainda está em andamento e envolve múltiplos órgãos e frentes de atuação", afirmaram em nota conjunta os ministérios do Esporte e da Justiça, sem confirmar o valor definitivo.

O Ministério do Esporte, por sua vez, sinalizou à equipe econômica que a planilha tinha como objetivo "sinalizar a necessidade adicional de suplementação" de diversos órgãos — e que a própria pasta precisa de R$ 620 milhões até o fim do ciclo. A Lei Geral da Copa, que ainda tramita no Senado, precisa ser aprovada para que os números ganhem forma definitiva: o texto regula direitos comerciais, segurança, infraestrutura e até premiações a ex-jogadoras.

Quais cidades chegam ao jogo com mais fôlego

Pense numa corrida de resistência de 24 horas: algumas equipes chegam ao grid com o carro calibrado, combustível certo e pneus frescos. Outras ainda estão ajustando o câmbio no warm-up. A Copa Feminina de 2027 tem exatamente esse perfil entre as oito sedes.

São Paulo e Rio de Janeiro partem na pole. O Morumbi e o Maracanã têm capacidade acima de 60 mil lugares, redes hoteleiras consolidadas e conexões aéreas internacionais diretas. Belo Horizonte, com o Mineirão — que recebeu seis jogos da Copa Masculina de 2014, incluindo o histórico 7 a 1 — também entra com infraestrutura madura. Brasília tem o Mané Garrincha, reformado para 2014 com investimento de R$ 1,4 bilhão, mas ainda carece de rede hoteleira proporcional à capacidade do estádio.

Fortaleza, Recife e Salvador concentram os maiores gargalos de mobilidade urbana. As três cidades nordestinas têm aeroportos com capacidade crescente, mas transporte público insuficiente para absorver o fluxo de um Mundial de 32 seleções. Porto Alegre, por sua vez, enfrenta um desafio adicional e concreto: as enchentes de maio de 2024 deixaram sequelas na infraestrutura da cidade que ainda não foram completamente sanadas — e a Arena do Grêmio precisará de avaliação criteriosa antes de receber delegações internacionais.

O legado de 2014 que virou referência e advertência ao mesmo tempo

A Copa Masculina de 2014 custou ao Brasil aproximadamente R$ 26 bilhões em valores da época, segundo o Tribunal de Contas da União. Parte dos estádios construídos ou reformados — Arena Amazônia, em Manaus, e Arena Pantanal, em Cuiabá — tornou-se símbolo de elefantes brancos, com custos de manutenção que superam a receita gerada. A Copa Feminina de 2027 tem escopo menor: 52 jogos contra 64 em 2014, e orçamento estimado em 6% do valor gasto há doze anos. Mas a proporcionalidade não elimina o risco.

Segundo apuração do SportNavo junto a especialistas em gestão de megaeventos, o principal diferencial positivo em relação a 2014 é que sete das oito sedes já possuem estádios com capacidade adequada — nenhuma arena nova precisa ser erguida do zero. O desafio está na última milha: mobilidade, hospedagem para delegações e torcedores, e sistemas de credenciamento e segurança perimetral. É exatamente aí que os R$ 760 milhões do Ministério da Justiça entram em campo.

"Os investimentos terão como foco ações relacionadas à segurança pública, infraestrutura de telecomunicações, além da construção do legado da Copa e de promoção do evento", informaram os ministérios em comunicado oficial.

O que o futebol feminino brasileiro ganha — ou perde — nessa equação

A Copa do Mundo Feminina de 2023, realizada na Austrália e Nova Zelândia, registrou 1,978 bilhão de espectadores em plataformas de transmissão ao redor do mundo, segundo a FIFA — recorde absoluto para a competição. O Brasil tem a chance de transformar esse momentum em legado estrutural para o futebol feminino nacional, que ainda opera com contratos profissionais precários e calendário fragmentado.

A Lei Geral da Copa, ao prever estímulos à participação feminina no esporte e premiações a ex-jogadoras, aponta para um reconhecimento tardio, mas real. O risco é o de sempre em megaeventos brasileiros: o investimento se concentrar nos 30 dias de competição e evaporar nos 30 meses seguintes. Se a infraestrutura construída para 2027 não tiver plano de uso pós-torneio — especialmente nas cidades nordestinas —, o legado vira vitrine sem conteúdo.

A votação final da Lei Geral da Copa no Senado está prevista para o segundo semestre de 2026. Até lá, os números continuarão flutuando entre planilhas de ministérios. Mas há uma data que concentra tudo: em julho de 2026, o governo precisa apresentar à FIFA o relatório de progresso de infraestrutura — e será nesse documento que saberemos, com precisão cirúrgica, quais das oito cidades chegaram ao grid calibradas e quais ainda estão ajustando o câmbio.