13 de maio de 2026. O relatório anual da EY sobre as finanças do futebol brasileiro cai na mesa dos dirigentes como um espelho incômodo: R$ 14,9 bilhões em receita recorde, crescimento de 33% sobre 2024, e uma dívida líquida consolidada de R$ 14,3 bilhões que cresce junto, passo a passo, como o trânsito da Avenida Paulista às 18h — inevitável e sufocante. No centro desse paradoxo está o Atlético-MG, clube com o maior endividamento líquido entre todos os participantes da Série A, superando a marca de R$ 2 bilhões.
Receita que cresce mas não cobre o buraco do Atlético-MG
O argumento mais recorrente dos defensores do modelo galo é simples: o clube cresceu em faturamento, portanto está no caminho certo. Os números da EY derrubam essa tese com precisão cirúrgica. Os custos operacionais dos clubes da Série A subiram 30% em 2025 — ritmo que praticamente anula o avanço de receita. No caso do Atlético-MG especificamente, os investimentos em elenco, tanto em aquisições quanto em folha salarial, avançaram em velocidade incompatível com a geração de caixa operacional. O resultado é uma razão endividamento/receita que, segundo a própria EY, apresenta níveis de alavancagem elevados em comparação com qualquer setor corporativo tradicional.
"O aumento nos investimentos em elencos, tanto em aquisições de atletas quanto em folhas salariais, ocorreu em ritmo acelerado, resultando em uma razão endividamento/receita que, em termos comparativos com o setor corporativo tradicional, apresenta níveis de alavancagem elevados", afirmou José Ronaldo Rocha, sócio de Tecnologia, Mídia e Entretenimento da EY para a América Latina.
A Arena MRV, inaugurada em 2023, representa um ativo relevante no balanço patrimonial — o valor total dos ativos dos clubes brasileiros atingiu R$ 47,4 bilhões segundo a Sports Value —, mas também carrega o peso do serviço da dívida de sua construção. Infraestrutura gera receita de matchday, que somou R$ 1,8 bilhão em toda a Série A em 2025, mas esse fluxo não cobre sozinho os compromissos financeiros de um projeto que custou centenas de milhões.

O que separa o Atlético-MG do Flamengo nessa equação
A comparação com o Flamengo é devastadora para o Galo. O clube carioca faturou R$ 2,089 bilhões em 2025 — primeiro time brasileiro a ultrapassar essa marca — e aparece apenas na oitava posição em endividamento líquido, com R$ 473 milhões. A relação dívida/receita do Flamengo é de 0,42 vez, o menor índice entre os clubes endividados da Série A. O Atlético-MG, com dívida superior a R$ 2 bilhões, opera em patamar radicalmente diferente nesse indicador. Enquanto o Flamengo construiu receitas recorrentes robustas — R$ 1,571 bilhão sem contar transferências — o modelo atleticano dependeu de aportes e endividamento para montar o elenco que conquistou o tricampeonato em 2024.
O Botafogo também ultrapassou R$ 2 bilhões em endividamento líquido, segundo a EY. Mas há uma diferença estrutural relevante: o Botafogo opera como SAF desde 2022, com aporte direto do grupo 777 Partners e posteriormente sob nova gestão. O Atlético-MG, mesmo tendo aprovado uma SAF em 2024 com captação de R$ 530 milhões, ainda carrega um passivo acumulado de decisões tomadas antes da reestruturação societária. Corinthians e Palmeiras registraram passivos próximos de R$ 1 bilhão — a metade do que o Galo deve.
A inflação da competitividade e seus limites reais
Existe um fenômeno que os especialistas chamam de "inflação da competitividade" — a pressão para gastar mais porque os rivais também gastam mais. O ciclo é real. O novo contrato de TV do Brasileirão injetou mais dinheiro no sistema, o Mundial de Clubes adicionou mais de R$ 800 milhões aos cofres dos participantes brasileiros, e as receitas totais cresceram 73% nos últimos cinco anos. Mas esse crescimento não foi distribuído de forma homogênea: Flamengo, Palmeiras, Botafogo, São Paulo e Fluminense concentram 49% de toda a receita da Série A. Clubes que tentam competir com esse grupo sem a mesma base de receita recorrente precisam se endividar para montar elencos equivalentes.
"O indicador de endividamento líquido segue o movimento de inflação dos valores de mercado e de grandes aportes na indústria", explicou Rocha. "Além disso, as outras formas de endividamento também cresceram, como o tributário e com empréstimos."
Os números confirmam: o endividamento tributário dos clubes da Série A atingiu R$ 4,5 bilhões em 2025, enquanto as dívidas com empréstimos chegaram a R$ 3 bilhões. O endividamento líquido total cresceu 15% sobre 2024, quando já estava em R$ 12,4 bilhões. A trajetória é linear e preocupante. Juventude e Mirassol aparecem como exceções positivas — os únicos clubes sem endividamento líquido no período —, provando que disciplina financeira é possível mesmo em orçamentos menores.
O que os próximos meses vão revelar sobre a sustentabilidade do modelo
A janela de transferências de julho de 2026 será o primeiro teste concreto da nova realidade financeira do Atlético-MG sob a SAF. Clubes com alta alavancagem precisam de duas coisas simultâneas que raramente chegam juntas: resultados esportivos que garantam premiações e presença em competições internacionais, e vendas de atletas que gerem caixa imediato. Em 2025, toda a Série A arrecadou R$ 3,9 bilhões com transferências — a segunda maior fonte de receita do setor. Para o Galo, essa linha deixou de ser opção e virou obrigação estrutural.
O modelo que o Atlético-MG adotou entre 2022 e 2024 — gastar acima da capacidade operacional para vencer — trouxe títulos e trouxe dívida. A SAF resolveu parte do passivo bancário, mas o endividamento líquido acima de R$ 2 bilhões indica que o saneamento completo ainda está longe. Com o Brasileirão 2026 em andamento e a Copa Libertadores no horizonte, a pergunta que os credores e os torcedores do Galo precisam responder é a mesma: o clube consegue manter competitividade esportiva e ao mesmo tempo reduzir a dívida líquida abaixo de R$ 1,5 bilhão até o final de 2027, ou o próximo relatório da EY vai mostrar que o buraco ficou ainda maior?









