A luz do Barradão pode se apagar para a Copa Sul-Americana antes mesmo de a bola rolar. O Vitória enfrenta uma corrida contra o tempo e contra a própria situação financeira: sem R$ 4,5 milhões para substituir o sistema de iluminação do Estádio Manoel Barradas, o clube não terá autorização da Conmebol para sediar partidas da competição internacional em seu próprio estádio. O presidente Fábio Mota foi direto ao ponto em coletiva realizada na tarde desta sexta-feira, 10, sem eufemismos e sem esconder a gravidade do cenário.
O que Fábio Mota disse e o que os números revelam
A fala de Mota na coletiva não deixou margem para interpretação.
"Para a gente jogar a Copa Sul-Americana aqui no Barradão, precisamos trocar a iluminação, o gradeio. Abrimos uma vaquinha online para arrecadar R$ 4 milhões e meio e precisamos intensificar isso. Sei que está todo mundo apertado, mas nem chegamos em 400 mil ainda. Se não trocar a luz, a gente não joga a Sul-Americana no Barradão", afirmou o dirigente.O dado mais brutal está nessa distância: o clube arrecadou menos de R$ 400 mil de uma meta de R$ 4,5 milhões — uma diferença proporcional à que separa a cidade de Aracaju da capital baiana em linha reta, pequena no mapa, mas intransponível quando não há estrada. A campanha de arrecadação popular existe, mas patina.
O contexto financeiro agrava tudo. Mota revelou que a folha salarial projetada para 2026 é de R$ 7,5 milhões mensais, ante R$ 5,5 milhões no ano anterior — um salto de 36% em doze meses. Com dívidas que precisam ser quitadas até dezembro e um plano de sócio-torcedor que ainda não atingiu o patamar necessário, o clube enfrenta múltiplas frentes de pressão simultâneas. A troca da iluminação compete diretamente com o pagamento de salários e compromissos correntes.
As exigências da Conmebol que o Barradão ainda não cumpre
A Conmebol estabelece padrões técnicos rígidos para estádios que sediam jogos de competições continentais, e a iluminação é um dos critérios mais objetivos e menos negociáveis. O regulamento exige índice mínimo de iluminância horizontal e vertical compatível com transmissões televisivas em alta definição — padrão que a instalação atual do Barradão não atinge. Além da iluminação, Mota também citou o gradeio como item a ser adequado, o que indica que a lista de pendências vai além de um único investimento pontual.
Segundo apuração do SportNavo, clubes brasileiros que disputaram edições recentes da Sul-Americana e Libertadores precisaram realizar obras emergenciais ou migrar para estádios alternativos exatamente por não cumprirem esses requisitos a tempo. O Vitória, que retornou à elite do futebol nacional em 2024 após anos na Série B e Série C, agora enfrenta o desafio estrutural de um estádio que acompanhou a queda, mas ainda não foi totalmente reequipado para o nível que o clube voltou a ocupar.
O impacto para a torcida e o que ainda pode mudar
Para a torcida rubro-negra, a perspectiva de não jogar no Barradão vai além do simbolismo. O estádio, localizado no bairro de Nazaré, em Salvador, tem capacidade para cerca de 35 mil torcedores e representa o principal ativo de receita de bilheteria do clube. Transferir partidas para outro estádio — como a Arena Fonte Nova, que pertence a um consórcio privado e cobra taxas de utilização significativas — reduziria a margem financeira do clube justamente nas partidas com maior apelo comercial da temporada.
O reajuste nos preços dos ingressos para jogos no Barradão, que gerou reação da torcida organizada Os Imbatíveis, já sinaliza que a diretoria tenta compensar receitas pelo lado da bilheteria. Mota foi explícito:
"O Vitória projetou uma folha de R$ 7 milhões e meio este ano. Ano passado, tínhamos R$ 5 milhões e meio, então este ano vai ser bem difícil também. Com isso, vamos precisar que o sócio torcedor renove seu plano, vamos precisar que façam novas adesões também."A equação é simples e crua: sem receita extra, não há obra; sem obra, não há jogo em casa; sem jogo em casa, menos receita ainda.
A campanha de arrecadação popular segue aberta, mas o ritmo atual torna matematicamente improvável que o clube alcance a meta apenas com contribuições espontâneas de torcedores. O prazo para adequação depende do calendário da Sul-Americana — a fase de grupos começa em abril, o que significa que o relógio já está correndo. Patrocinadores, parceiros institucionais e até negociação com a própria CBF por linhas de crédito ou antecipação de cotas são alternativas que o clube precisará explorar com urgência nas próximas semanas.
O Vitória disputa a Copa Sul-Americana de 2026 após garantir vaga pelo desempenho no Brasileirão da temporada passada. A estreia na competição internacional representa um marco para um clube que passou três anos fora da Série A. Perder o mando de campo logo na fase de grupos seria um revés simbólico e financeiro difícil de absorver — e a decisão sobre o Barradão precisará ser tomada antes do fim de março para que as obras, caso viabilizadas, sejam concluídas a tempo. A pergunta que fica é: se um patrocinador ou parceiro institucional entrar com parte dos R$ 4,1 milhões que ainda faltam, o clube consegue fechar o acordo e garantir as obras antes da estreia na Sul-Americana?












