Diz-se que o Camp Nou viu sua melhor temporada como mandante com Lewandowski no centro de tudo. Na verdade, não foi bem assim — e o jogo de domingo (17) contra o Real Betis deixou isso explícito. Foram 19 vitórias em 19 jogos como mandante na La Liga 2025/26, aproveitamento perfeito que dificilmente será repetido na história do clube, mas o nome que saiu do Spotify Camp Nou gravado na memória da tarde não foi o do polonês. Foi o de Raphinha.
O brasileiro voltou ao time titular após duas semanas fora por lesão na coxa e respondeu da única maneira que conhece: com dois gols. O primeiro, aos 27 minutos do primeiro tempo, numa cobrança de falta que encontrou o ângulo com a precisão de quem não precisa de tempo de preparação. O segundo, aos 16 do segundo tempo, quando Héctor Bellerín errou na saída de bola e o camisa 11 do Barcelona não perdoou. Dois meses sem balançar a rede, encerrados numa tarde de sol em Barcelona com sabor de celebração.
O precedente que ninguém lembrou antes da partida
Para entender o que Raphinha representa neste Barcelona de Hansi Flick, é útil olhar para o que Arjen Robben significava para o Bayern de Guardiola entre 2013 e 2015: um extremo que desaparecia por semanas, voltava de lesão e imediatamente recolocava o time no eixo. A comparação não é forçada. Nas temporadas em que o holandês ficou mais tempo fora por contusão, o Bayern oscilou de forma visível. Com Raphinha, o padrão se repete em sentido inverso — o Barcelona perde consistência ofensiva quando ele está ausente, e recupera o fio condutor quando ele retorna.
A diferença relevante entre os dois casos está na maturidade tardia. Robben chegou ao Bayern com 25 anos, já formado. Raphinha, gaúcho de Porto Alegre criado no futebol europeu, só encontrou seu melhor futebol aos 28, 29 anos — e hoje, aos 29, está no auge técnico. Seus números na temporada 2025/26 de La Liga confirmam isso com uma clareza que dispensa adjetivos.
Os números de uma temporada que redefine o brasileiro na Europa
Antes da rodada 37, Raphinha já acumulava participações diretas em mais de 20 gols na La Liga — entre marcados e assistidos. Com os dois gols contra o Betis, encerrou a fase como mandante numa posição que poucos atacantes brasileiros alcançaram no futebol espanhol nas últimas duas décadas. Para contextualizar: Ronaldinho Gaúcho, nos seus melhores anos no Barça, raramente ultrapassou 15 gols em uma única temporada de liga. Raphinha está além disso.
- 2 gols contra o Betis, encerrando jejum de dois meses
- 19/19 vitórias do Barcelona como mandante na temporada — aproveitamento de 100%
- 94 pontos do Barça na tabela, já campeão desde o dia 10 de maio
- 119 gols em 192 jogos de Lewandowski — legado que Flick precisará substituir sem o polonês
O gesto simbólico da tarde também não passou despercebido: Raphinha tirou a braçadeira de capitão e a entregou a Lewandowski antes de o polonês deixar o campo, sob aplausos e cachecóis erguidos pela torcida. O atacante saiu visivelmente emocionado, aos 40 minutos do segundo tempo, depois de uma chance clara criada por Pedri que não resultou em gol. Ao final, os jogadores o lançaram para o alto no gramado — ritual de despedida que o Camp Nou reserva para poucos.
A herança de Lewandowski e o que muda no ataque catalão
Robert Lewandowski chegou ao Barcelona em julho de 2022 com a missão quase impossível de preencher o vazio deixado por Messi. Em quatro temporadas, disputou 191 partidas, marcou 119 gols e distribuiu 22 assistências, colecionando três títulos de La Liga, uma Copa do Rei e três Supercopas da Espanha. Na temporada 2025/26, viveu sua fase mais produtiva no clube, com 42 gols em 52 jogos — um número que, paradoxalmente, chega no mesmo ano de sua saída.
A partida de domingo encerrou um ciclo. Com a saída confirmada pelo próprio jogador no sábado (16), o Barcelona precisará reorganizar seu ataque para a próxima temporada. E é exatamente nesse vácuo que Raphinha se torna ainda mais central — não apenas como extremo, mas como referência técnica e liderança simbólica de um grupo que terá de ser reconstruído em parte.
O que Flick disse sobre o papel de Raphinha
Nas palavras do técnico Hansi Flick, Raphinha representa "o tipo de jogador que eleva o nível de todos ao redor" — uma descrição que ressoa com a ideia do pressing alto que o alemão implementou no Barça, modelo que exige intensidade e inteligência posicional dos atacantes. O brasileiro reúne as duas qualidades.
Raphinha e a Copa do Mundo que Ancelotti está montando
Há um paralelo inevitável com o que aconteceu com Ronaldinho Gaúcho entre 2005 e 2006: melhor jogador do mundo no clube, chegou à Copa da Alemanha como favorito ao protagonismo na Seleção Brasileira — e o torneio não correspondeu à expectativa. A diferença é que Raphinha chega ao Mundial de 2026 num momento de forma ascendente, não de declínio, e numa seleção que Carlo Ancelotti está moldando com critérios europeus que o próprio Raphinha conhece profundamente.
O técnico italiano, que assumiu a Seleção Brasileira após o ciclo de Fernando Diniz, tem no extremo do Barcelona um perfil que se encaixa no gegenpressing moderno que ele admira — mesmo que seu estilo pessoal seja mais posicional. Raphinha transita entre os dois mundos: sabe jogar no sistema de tiki-taka que Flick adaptou no Barça e tem a explosão vertical que Ancelotti busca para pressionar linhas defensivas.
A questão sobre a titularidade na Copa deixou de ser especulação depois de domingos como este. Com Vinicius Jr. consolidado na esquerda, Raphinha tem a direita como território praticamente seu — e os dois gols contra o Betis, somados a uma temporada de alto nível, tornam qualquer argumento contrário difícil de sustentar. O Barcelona fecha a La Liga 2025/26 no sábado (23) contra o Valencia, no Mestalla — e Raphinha chegará a esse jogo com 100% de aproveitamento em casa e dois gols nas últimas 90 minutos que jogou. São 29 anos, forma física recuperada e Copa do Mundo a 13 meses de distância.









