Firmou. Raphinha não hesitou um segundo quando a pergunta chegou: quer a Espanha na final da Copa do Mundo. A declaração, dada em entrevista à TNT Sports Brasil durante a semana de convocação da Seleção por Carlo Ancelotti, não foi retórica. Foi a resposta direta de um jogador de 31 anos que carrega a dor de 2022 nas costas e quer fechar a conta em 2026.

"Firmo. Seria muito bom jogar um Brasil e Espanha na final", afirmou Raphinha, que completou: "Não tem problema. A gente tem muito jogador de qualidade do nosso lado também. Vai ser legal. Vai ser um jogo bem interessante."

O que torna a declaração ainda mais carregada de significado é o contexto: Lamine Yamal, companheiro de Raphinha no Barcelona, havia levantado a mesma possibilidade dias antes, do lado espanhol. Dois jogadores do mesmo clube, com 11 anos de diferença de idade, apontando para o mesmo desfecho — cada um com a própria camisa.

Raphinha projeta a final que o Brasil ainda não viveu neste século

A última final de Copa do Mundo disputada pelo Brasil foi em 2002, contra a Alemanha, no Japão. Desde então, quatro eliminações, sendo a mais recente — e mais dolorosa para a geração atual — a derrota para a Croácia nas quartas de final do Catar, em 2022, nos pênaltis, após empate em 1 a 1 no tempo regulamentar e na prorrogação.

Raphinha esteve naquele jogo. Entrou no segundo tempo e converteu seu pênalti, mas o Brasil foi eliminado. A cicatriz é visível nas palavras que ele usou na entrevista.

"Aquela derrota foi muito dolorida. Durante alguns dias eu só queria ficar trancado dentro do quarto. Não queria sair por nada", revelou o atacante, que classificou a experiência como aprendizado coletivo do grupo brasileiro.

Na temporada 2025/2026 pelo Barcelona, Raphinha mantém números que justificam sua presença entre os convocados e seu peso dentro do grupo. Com 30 gols e 18 assistências na temporada passada — campanha que o colocou entre os melhores jogadores do mundo pela primeira vez na carreira —, o atacante baiano de Viamão (RS) chegou ao clube catalão em 2022 vindo do Leeds United por 58 milhões de euros. Formado nas categorias de base do Avaí e do Caxias, profissionalizou-se aos 18 anos e percorreu Anderlecht, Rennes e Leeds antes de chegar ao topo da Europa.

Para a Copa do Mundo de 2026, Raphinha elencou Brasil, Espanha e França como os três principais candidatos ao título. A ordem não foi aleatória: o Brasil apareceu primeiro.

Yamal do outro lado — o coadjuvante que já é protagonista aos 17 anos

Lamine Yamal completou 17 anos em julho de 2024 e já disputou uma Eurocopa — foi titular da Espanha no título europeu daquele ano, tornando-se o jogador mais jovem a marcar numa semifinal do torneio. Na temporada 2025/2026 pelo Barcelona, o extremo direito acumula participações decisivas em La Liga e na Champions League, consolidando-se como titular absoluto tanto no clube quanto na seleção espanhola.

A projeção de Yamal sobre uma possível final contra o Brasil não foi um devaneio adolescente. A Espanha é atual campeã europeia, com um elenco que combina juventude — Yamal, Gavi, Pedri — e experiência em grandes torneios. O técnico Luis de la Fuente tem um grupo coeso e um estilo de jogo reconhecível, baseado na posse e na pressão alta, que funcionou com consistência nos últimos dois anos.

Raphinha conhece Yamal de perto — treina com ele diariamente em Barcelona. A relação entre os dois vai além do campo.

"Eu levo ele muito como um irmão mais novo. Ele é mais novo que o meu irmão mais novo, então eu tento aconselhar dentro daquilo que eu posso, passar um pouco da minha experiência de campo e de vida para ele. É um talento natural. Ele é um menino muito bom, escuta bastante, muitas vezes pede conselho", descreveu Raphinha, ressaltando a diferença de 11 anos entre os dois.

Essa convivência cotidiana dá às declarações de ambos um peso diferente. Não são rivais que se provocam pela imprensa. São companheiros que se respeitam e, ainda assim, querem se enfrentar na maior partida possível.

Os caminhos até uma final que exige muito mais do que vontade

Para que Brasil e Espanha se encontrem na final, os dois precisam vencer seis jogos cada um — incluindo as fases eliminatórias a partir das oitavas de final. O formato da Copa do Mundo de 2026, com 48 seleções divididas em 16 grupos de três times, aumenta o número de partidas e, consequentemente, o risco de eliminações precoces por variáveis como lesões, suspensões e sorteios adversos.

O Brasil chega ao torneio sob o comando de Carlo Ancelotti, técnico italiano de 66 anos que assumiu a Seleção após o ciclo de Fernando Diniz e a passagem de Dorival Júnior. A convocação de 26 jogadores inclui Raphinha como titular esperado no ataque, ao lado de nomes como Vinicius Jr., Rodrygo e Endrick — geração com média de idade inferior a 25 anos nos postos ofensivos.

A Espanha, por sua vez, defende o título europeu de 2024 e não conquista uma Copa do Mundo desde 2010, na África do Sul. Com Yamal como principal referência ofensiva e um meio-campo tecnicamente superior à maioria das seleções do mundo, os espanhóis entram no torneio como um dos três ou quatro favoritos reais ao título — exatamente como Raphinha classificou.

Do ponto de vista estatístico, Brasil e Espanha se enfrentaram em Copas do Mundo em apenas duas ocasiões: 1950, quando o Brasil venceu por 2 a 0 na fase de grupos do torneio realizado no próprio país, e 2010, quando a Espanha eliminou o Brasil nas quartas de final por 1 a 0, com gol de David Villa — jogo que antecedeu o título espanhol. O retrospecto direto em Mundiais, portanto, está empatado em um jogo para cada lado, o que torna o simbolismo de uma final ainda mais carregado historicamente.

A Copa do Mundo de 2026 começa em junho, com sede compartilhada entre Estados Unidos, México e Canadá. O Brasil estreia na fase de grupos e, se confirmar o favoritismo projetado por Raphinha e por boa parte dos analistas, pode chegar à final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, no dia 19 de julho. A Espanha está no mesmo caminho imaginado pelos dois companheiros de Barcelona. Vale gravar a data.