É um ecossistema de marca com chuteiras. Só que as chuteiras são a parte menos interessante do negócio agora.

O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista — o Bap —, subiu ao palco da São Paulo Innovation Week na quinta-feira (14) e anunciou quatro projetos que tiram o clube da dependência exclusiva do futebol para gerar receita. São eles: um reality show veiculado pela Flamengo TV, um aplicativo próprio de delivery, uma marca de moda com foco no público feminino e um projeto imobiliário ainda em desenvolvimento. A base que sustenta essa expansão é concreta: R$ 2 bilhões em receita acumulada ao longo de 2025, recorde absoluto na história do clube.

Bap e a lógica de quem não quer depender de troféu para pagar conta

O dirigente foi direto ao separar os números. Dos R$ 2 bilhões totais, R$ 1,4 bilhão representa a receita recorrente — sem contar venda de jogadores nem premiações por títulos. É esse patamar que Bap quer expandir com os novos negócios.

"Quem ganha R$ 1,4 bilhão não pode gastar mais que esse valor. Mas quando você aumenta a receita, você pode aumentar sua margem de ganho ainda mais. A gente trabalha para crescer esse valor não dependendo de venda ou premiações, porque são questões efêmeras", explicou Bap durante o evento.

A lógica é a mesma de qualquer empresa de tecnologia que busca recurring revenue em vez de picos de faturamento. Vender Gerson ou ganhar a Libertadores gera caixa, mas não garante previsibilidade. Um app com assinantes ativos ou uma marca de roupa com coleções sazonais, sim… e aí está o ponto central da estratégia.

"As fontes de receitas são finitas, então precisamos buscar outras formas de monetizar, principalmente com a torcida", completou o presidente.

O reality show da Flamengo TV e o app de delivery como apostas de engajamento

O reality show é o projeto mais nebuloso em termos de detalhes públicos, mas Bap garantiu que não é ideia no papel. O programa será veiculado pela Flamengo TV, canal próprio do clube, e vai envolver "figuras do esporte" e o universo do futebol. Sem revelar formato, o dirigente foi enfático:

"Nada do que eu falei aqui é só ideia no papel. Se fosse eu não ia falar… A gente vai partir para uma fase de criação de conteúdo para a Flamengo TV. É isso. O reality vai envolver o meio do esporte, vai envolver futebol."

A Flamengo TV já acumula audiência relevante nas plataformas digitais — o canal no YouTube do Flamengo passa de 4,5 milhões de inscritos, com vídeos de bastidores e documentários que facilmente ultrapassam 1 milhão de visualizações. Um reality show nesse ecossistema pode funcionar como isca de engajamento e, mais importante, como produto licenciável para plataformas de streaming.

O app de delivery é a aposta mais direta de monetização recorrente. A ideia é criar um canal próprio de venda — possivelmente de produtos licenciados, alimentação temática ou parcerias com marcas patrocinadoras — sem depender de marketplaces de terceiros que ficam com comissão. Clubes europeus como Manchester City e Barcelona já operam ecossistemas digitais próprios que geram dezenas de milhões de euros por ano em receita direta com o torcedor. O Flamengo está tentando replicar essa lógica no Brasil.

A marca de moda feminina e o que os coadjuvantes revelam sobre o plano maior

A aposta na moda é talvez a mais estratégica do ponto de vista de mercado. Bap deixou claro que o foco será o público feminino e que a marca vai atuar num segmento considerado nobre — ou seja, não é uma linha de camisas de torcida, mas uma grife com posicionamento de lifestyle. Pense menos em réplica de uniforme e mais em streetwear premium com identidade rubro-negra.

Aqui a analogia inevitável é com a música: artistas como Jay-Z e Rihanna transformaram sua base de fãs em consumidores de moda e beleza, construindo impérios paralelos à carreira principal. O Flamengo tem o mesmo ativo — uma das maiores torcidas do mundo, com estimativa de 40 milhões de torcedores no Brasil — e está tentando monetizar essa identidade além do estádio.

O projeto imobiliário ainda é o mais vago, mas Bap mencionou a possibilidade durante o evento como uma das frentes em análise. Clubes como o Real Madrid já operam empreendimentos imobiliários ligados à marca, e no Brasil o mercado de branded residences ainda tem pouca concorrência no segmento esportivo.

O risco real de toda essa expansão está na execução. Diversificar receita é uma estratégia sólida, mas clube de futebol que perde dentro de campo perde audiência fora dele também. A base digital do Flamengo — que soma mais de 25 milhões de seguidores somando Instagram, X e YouTube — é o combustível de qualquer produto de conteúdo ou consumo que o clube lançar. Se o time tropeça em sequência, esse engajamento cai, e os projetos de marca sofrem junto… mas falta o resto da equação, que é justamente o desempenho esportivo.

O próximo teste de campo para o Flamengo é pelo Brasileirão 2026, onde o clube precisa mostrar que a gestão bilionária de Bap também se traduz em título — porque sem isso, nenhum reality show sustenta a narrativa de clube vencedor que toda essa estratégia de marca precisa para funcionar.