42 clubes rebaixados, R$ 300 milhões embolsados, 26 estados afetados. Esses são os números que William Pereira Rogatto admitiu, sem hesitar, em depoimento remoto à CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas, do Senado, nesta terça-feira. A confissão é a mais impactante já registrada na história do futebol brasileiro — e viralizou nas redes em menos de uma hora.

A confissão ao vivo que travou o Twitter

Rogatto foi convocado pela CPI como suspeito de chefiar um esquema de apostas ilegais no Distrito Federal. Mas o que os senadores ouviram foi além: ele assumiu a autoria de rebaixamentos em todos os estados da federação mais o DF, ao longo de uma carreira construída nas divisões de acesso do futebol nacional.

"Rebaixei 42 times e sou conhecido como 'rei do rebaixamento', não dá para ganhar dinheiro sem os rebaixar. Não estou matando nem roubando ninguém. O sistema é falho e estou indo contra o sistema."

O trecho circulou nos principais perfis de esporte do Instagram e TikTok com mais de 2 milhões de visualizações nas primeiras horas. A hashtag #ReiDoRebaixamento entrou nos trending topics nacionais ainda durante o depoimento.

Como o esquema funcionava na prática dentro dos clubes

O modelo de Rogatto era simples e eficiente. Ele se infiltrava como gestor ou patrocinador em clubes de menor expressão nas divisões estaduais, prometia reforços de nome para atrair a confiança das diretorias e, no momento certo, manipulava os resultados para garantir o rebaixamento — posição que ele apostava nas plataformas ilegais.

O caso mais detalhado citado no depoimento foi o do Santa Maria, clube do Distrito Federal que disputou o último Candangão. Rogatto era o gestor da equipe e confirmou ter usado a estrutura do clube para adulterar resultados. Ele pediu desculpas à presidente do Santa Maria, Dayana Nunes.

"Réu confesso, totalmente. Comecei a trazer jogadores de nome, mostrando para ela que eu iria fazer um excelente campeonato. Depois, falei que os jogadores meus de nome não tinham condições de ir, mas que ia dar tudo certo. E, infelizmente, eu vim a rebaixar o Santa Maria. Peço perdão para as pessoas", disse Rogatto, referindo-se a Nunes.

O lucro declarado de R$ 300 milhões veio das apostas feitas antecipadamente nos mercados de rebaixamento e de resultados específicos — mercados com odds altas justamente por serem considerados imprevisíveis. Com a manipulação, o risco deixava de existir.

Alcance nacional e a conexão com John Textor

A abrangência do esquema é o dado que mais assusta. Segundo apuração do SportNavo, Rogatto operou em clubes de todas as regiões do país, aproveitando a fragilidade administrativa e financeira de equipes das séries C, D e campeonatos estaduais — competições com menos fiscalização e maior vulnerabilidade à infiltração externa.

No depoimento, Rogatto ainda citou John Textor, dono da SAF do Botafogo, que há meses faz acusações públicas de manipulação no futebol brasileiro. O empresário afirmou desconhecer as provas do americano, mas sinalizou ter informações que poderiam corroborar parte das denúncias — sem detalhar.

Rogatto declarou viver atualmente em Portugal e disse temer por sua segurança, motivo pelo qual não revelou tudo na sessão remota. Propôs encontrar parlamentares na Europa para apresentar provas pessoalmente. A CPI avalia a viabilidade do deslocamento.

Punições, investigações e próximos passos

A CBF e o Ministério do Esporte ainda não se manifestaram oficialmente sobre os nomes dos 42 clubes afetados — informação que Rogatto não divulgou na íntegra durante o depoimento. A CPI pode convocar novamente o empresário e solicitar a lista completa como parte do processo investigativo.

Na avaliação do SportNavo, o caso expõe uma brecha estrutural: clubes das divisões inferiores raramente têm auditoria financeira rigorosa, contrato de gestão com cláusulas antimanipulação ou monitoramento de apostas vinculado à CBF. A nova lei das apostas esportivas, em vigor desde 2025, criou obrigações para plataformas licenciadas, mas o controle sobre gestores de clubes ainda é incipiente.

A CPI das Apostas tem previsão de apresentar seu relatório final ao plenário do Senado ainda no primeiro semestre de 2026. A confissão de Rogatto deve acelerar os trabalhos e pode resultar em indiciamento formal pelo Ministério Público Federal — que acompanha as sessões como observador.