O maior atacante da história do Brasil pode não ser o melhor atacante do Brasil neste momento. Esse paradoxo, aparentemente absurdo, é exatamente o que Carlo Ancelotti precisou resolver nesta segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, ao anunciar os 26 jogadores que defenderão o país na Copa do Mundo 2026.
O que os números dizem sobre Richarlison nesta temporada
Neymar não é convocado para a Seleção Brasileira desde outubro de 2023, quando entrou no segundo tempo da derrota para o Uruguai, em Montevidéu, substituindo exatamente Richarlison. Desde então, o camisa 10 do Santos acumulou lesões, meses de inatividade e uma volta ao futebol brasileiro que ainda não produziu resultados coletivos concretos — o Peixe perdeu por 3 a 0 para o Coritiba no último domingo, 17 de maio, na Neo Química Arena. A CBF chegou a solicitar exames de imagem após uma pancada na panturrilha direita sofrida naquela partida.
Richarlison, por sua vez, apresenta-se ao debate com credenciais objetivas: 54 jogos pela Seleção, 20 gols marcados com a Amarelinha, artilheiro do Brasil no Catar-2022 com três gols em cinco partidas, e uma temporada 2025/2026 pelo Tottenham com 23 jogos disputados, cinco gols e duas assistências — incluindo o título da Europa League pelo clube londrino. O atacante capixaba, de 29 anos, não veste a Amarelinha há mais de dois anos, mas chegou à pré-lista dos 55 nomes enviada à Fifa em condição física incomparavelmente mais estável do que a do companheiro de geração.
A bagagem histórica de Neymar e o peso de cada Copa disputada
Quem acompanhou as quatro Copas do Mundo em que o Brasil participou desde 2010 sabe que Neymar carrega um peso estatístico difícil de ignorar. Na África do Sul, em 2010, sob Dunga, o jogador nem foi convocado — tinha 18 anos e ficou de fora de uma lista que incluía Robinho como referência ofensiva. Em 2014, como anfitrião, marcou quatro gols em quatro jogos antes de se machucar contra a Colômbia, nas quartas de final, no Castelão. Em 2018, na Rússia, sob Tite, foram dois gols em cinco partidas. No Catar, em 2022, um gol e duas assistências em quatro jogos antes da eliminação para a Croácia nas quartas, nos pênaltis. São sete gols em 13 partidas mundialistas — um aproveitamento de 0,54 gols por jogo que nenhum outro brasileiro ativo sequer se aproxima.
O presidente do Santos, Marcelo Teixeira, presente no evento da CBF nesta segunda-feira, foi direto ao ponto ao defender a convocação do camisa 10:
"O projeto foi exatamente esse: acolher o Neymar no Brasil. Assim, ele poderia se recuperar, ter o melhor condicionamento. Hoje, ele demonstra que está melhor tecnicamente, fisicamente e mentalmente. O Neymar está apto, sim, para jogar a Copa do Mundo."
O ex-lateral Léo Moura, ídolo do Flamengo e presença no mesmo evento, endossou o argumento com ênfase na experiência: "Eu levaria. É um cara que eu levaria, que na minha opinião e visão, é um cara que tem que estar num grupo de uma seleção. Eu acho que em algum momento ali a seleção vai precisar de ter um cara como o Neymar. Até pela responsabilidade, pela bagagem, pela experiência." Léo Moura foi eleito quatro vezes consecutivas o melhor lateral-direito do Campeonato Brasileiro durante sua passagem pelo Flamengo — sabe o que significa um nome decisivo num vestiário de Copa.
O que Ancelotti prometeu e o que a escolha revela sobre o projeto tático
Ao chegar ao Museu do Amanhã acompanhado da esposa, Mariann Barrena McClay, Ancelotti foi preciso sobre a filosofia que guiou sua lista:
"Foi uma lista feita com paixão. Não será uma lista perfeita, mas é uma lista com a menor chance de erros. É uma lista para fazer uma Copa do Mundo espetacular."
A frase "menor chance de erros" é a chave do raciocínio. Um técnico com a experiência de Ancelotti — quatro Champions League, títulos em Inglaterra, Espanha, Itália e Alemanha — não convoca por sentimento. Convoca por função. E a função de centroavante referência, aquele que pressiona a linha defensiva adversária, disputa bolas aéreas e finaliza dentro da área, é preenchida por Richarlison com muito mais consistência neste ciclo do que por Neymar, que atua como meia-atacante pelo lado esquerdo ou centralizado atrás do nove. São posições distintas, o que tecnicamente permitiria os dois na mesma lista de 26 — mas o estado físico de Neymar é a variável que complica a equação.
Arthur Elias, técnico da Seleção Feminina e presença no evento, foi cuidadoso ao ser questionado sobre o assunto, mas deixou uma pista importante: "As decisões têm que ser tomadas de acordo com o contexto. E cada um tem o seu." O contexto de Richarlison é o de um atleta que encerrou a temporada europeia com título continental e minutagem regular. O contexto de Neymar é o de um jogador que passou por exame de imagem 24 horas antes da convocação.
O ex-campeão mundial de 2002 Edmílson, também no Museu do Amanhã, avaliou que Ancelotti já tinha sua lista praticamente definida há semanas e que não haveria grandes surpresas — o que sugere que a decisão sobre Neymar foi tomada com base em critérios construídos ao longo de meses, não numa tarde de domingo. O levantamento do SportNavo sobre os números comparativos dos dois atacantes desde 2023 reforça que a disputa, no papel, é mais desequilibrada do que o debate público sugere.
O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 no dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — o mesmo estádio que sediará a final do torneio, em 19 de julho. Se Neymar entrar em campo naquela noite de junho, será sua quarta Copa do Mundo; se Richarlison for o titular, será sua segunda. A pergunta que fica para as próximas semanas é concreta: caso Neymar seja convocado e precise ser substituído por lesão já na fase de grupos, Ancelotti tem um substituto natural para o papel que o camisa 10 desempenha, ou o Brasil chegará às oitavas de final sem um jogador capaz de criar desequilíbrio individual nas situações de bola parada e no um contra um?









