Confesso: eu errei sobre Roberto De Zerbi em 2024. Quando o nome dele circulava como candidato a grandes bancos europeus, minha leitura — influenciada por anos acompanhando o futebol da Premier League de perto, em Londres — era a de que seu estilo seria demasiado refinado, quase frágil demais, para sobreviver à brutalidade física e à impaciência institucional dos clubes ingleses. Hoje, vendo o Tottenham competir na Champions League com uma identidade tática reconhecível, entendo onde errei: subestimei a capacidade de De Zerbi de transformar contexto em argumento.
O momento em que tudo balançou
Há uma tensão estrutural em qualquer projeto ambicioso de futebol: o momento em que a ideia do treinador colide com a realidade do elenco. Para De Zerbi, esse momento chegou cedo no norte de Londres. O Tottenham é um clube historicamente refém de suas próprias contradições — infraestrutura de elite, cultura de resultados instável, torcida que exige espetáculo mas que foi condicionada por décadas de quase-conquistas. Quando o pressing alto de De Zerbi começou a ser testado contra adversários europeus de alto nível, as costuras do sistema apareceram. Reparemos no detalhe: não foi a ideia que falhou, foi a sincronização entre a ideia e os corpos que deveriam executá-la.
O gegenpressing que De Zerbi propõe exige jogadores com capacidade de leitura coletiva quase simultânea — algo que times como o Brighton, onde ele construiu parte de sua reputação europeia, desenvolveram ao longo de temporadas inteiras de trabalho. Em White Hart Lane, o prazo foi comprimido. E a pressão institucional, como qualquer pessoa que viveu o ambiente de um clube inglês grande sabe, não espera por processos.
O que ele mudou imediatamente
A resposta de De Zerbi não foi recuar no conceito — foi ajustar o vocabulário tático sem abandonar a gramática. O italiano manteve a saída de bola construída desde o goleiro, mas reduziu temporariamente as linhas de pressão quando o bloco defensivo adversário era demasiado compacto. É uma decisão de banco que passa despercebida para o olho não treinado, mas que revela maturidade de gestão: saber quando o sistema precisa respirar sem que isso signifique capitulação filosófica.
Segundo apuração do SportNavo junto a fontes próximas ao ambiente do clube, De Zerbi também reorganizou a dinâmica de treino para priorizar o trabalho de posicionamento sem bola — o chamado shape off the ball, que no futebol europeu de elite distingue times que apenas atacam bem daqueles que controlam o jogo de forma sistêmica. É uma distinção que qualquer torcedor que acompanhou o tiki-taka do Barcelona de Guardiola entre 2009 e 2012 reconhece: dominar a bola é consequência de dominar o espaço sem ela.
Como o time respondeu à mudança
Veja-se isto: equipes que absorvem uma filosofia tática nova não o fazem de forma linear. Há regressões, há jogos em que o sistema parece esquecido, há momentos em que o instinto individual prevalece sobre o coletivo treinado. O Tottenham passou por esse ciclo — e o que importa, do ponto de vista analítico, é que o ciclo foi atravessado sem que o projeto fosse descartado.
Os Spurs começaram a apresentar uma coerência de bloco médio-alto que não era característica recente do clube. A transição entre fase defensiva e ofensiva — o momento em que o time recupera a bola e imediatamente pressiona a saída adversária — ficou mais veloz e mais organizada. Para quem viveu em Barcelona e viu o Atlético de Simeone construir sua identidade exatamente na solidez dessas transições, reconhecer esse padrão emergindo num time inglês tem um peso particular: significa que o treinador conseguiu instalar uma memória coletiva no grupo.
O que ficou de aprendizado para ele
De Zerbi chegou ao Tottenham com uma reputação construída em contextos de menor pressão midiática e institucional. O futebol inglês — e isso qualquer pessoa que morou em Londres sabe pela simples rotina de ler os tabloides na manhã de segunda-feira — opera numa frequência de escrutínio que não tem equivalente na Europa continental. Cada derrota é um obituário, cada vitória é uma promessa de título.
O aprendizado visível é o de calibrar a comunicação pública sem comprometer a convicção interna. Treinadores que sobrevivem na Premier League aprendem a falar para a imprensa de um jeito e trabalhar no campo de outro — não por hipocrisia, mas por necessidade de proteger o processo. De Zerbi, que em sua trajetória sempre foi associado a uma transparência quase excessiva sobre seu modelo de jogo, parece ter encontrado esse equilíbrio. A filosofia continua exposta no campo; a vulnerabilidade do processo ficou mais resguardada.

Para o que resta desta temporada europeia, o Tottenham carrega a responsabilidade de mostrar que a Champions League não é apenas um palco de exposição, mas um ambiente em que o projeto de De Zerbi tem substância para competir. O italiano de 46 anos já demonstrou, em diferentes contextos, que seu futebol não é decorativo — é funcional, é pensado, é construído para durar mais do que uma temporada. É o mesmo cenário que o Brighton viveu quando ele chegou ao clube inglês e transformou um time de briga por permanência num laboratório tático admirado em toda a Europa — só que agora a aposta é diferente, porque o palco é maior e a margem para erro, infinitamente menor.









