Não, Andrew Robertson não é o lateral mais vistoso do futebol europeu neste momento. Não é o que aparece nas capas de revista com dribles desconcertantes ou gols olímpicos. A pergunta certa não é essa. A pergunta é: qual clube da Premier League sobreviveria a uma temporada inteira sem ele — e ainda brigaria pelo título?
Onde ele está no jogo global
Glasgow, março de 1994. Uma cidade que respira futebol como o Rio de Janeiro respira samba no Carnaval — com aquela urgência visceral, quase física. Foi nesse ambiente que Andrew Henry Robertson cresceu, e foi nele que aprendeu a correr como se o campo inteiro lhe pertencesse. Hoje, aos 32 anos, ele defende o Liverpool com a camisa 26 e acumula uma das trajetórias mais improváveis do futebol inglês contemporâneo.
Improváveis, porque Robertson não nasceu grande. Começou no Queen's Park em 2012 — clube amador, sem contrato profissional. Menos de dois anos depois, estava no Dundee United, e o impacto foi tão imediato que rendeu indicação ao prêmio de Jogador Jovem do Ano da SPFA e a primeira convocação para a seleção escocesa, tudo na mesma temporada. Em julho de 2014, o Hull City o contratou por 2,85 milhões de euros. O número parece irrisório hoje.
Três anos no Hull. Aprendizado. Erros. Crescimento. Em julho de 2017, o Liverpool bateu à porta com uma proposta estimada em torno de 8 milhões de euros. Foi o momento que separou o Robertson promissor do Robertson definitivo.
O que os números dizem na comparação
Na temporada 2025/2026, Robertson soma 33 jogos, 1 assistência e nenhum gol. Friamente, parece pouco. Mas lateral-esquerdo não é atacante — e essa confusão de métrica é o erro mais comum que se comete ao avaliar defensores modernos.
O SportNavo já mapeou isso em outras análises: laterais que aparecem nos rankings de assistências quase sempre fazem isso em detrimento da solidez defensiva. Robertson equilibra os dois lados da equação. Com 178 cm e 64 kg — estrutura física que alguns chamariam de limitada para a Premier League — ele compensa com leitura de jogo, posicionamento e uma intensidade que não se mede em quilograma.
Comparado aos pares da posição na liga, Robertson está num grupo seleto de laterais que superam a casa dos 30 anos e ainda mantêm regularidade de titulares absolutos. Trinta e três partidas numa temporada que ainda não encerrou é o dado mais honesto sobre sua condição física e relevância tática para Anfield.
Onde ele se distingue dos rivais
Há laterais mais rápidos. Há laterais com mais gols. Há laterais que vendem mais camisas.
Nenhum deles tem o currículo que Robertson construiu dentro de um único clube. Com o Liverpool, ele levantou a Liga dos Campeões da UEFA em 2018-19. Conquistou a Supercopa da UEFA e o Mundial de Clubes da FIFA em 2019. Celebrou a Premier League em 2019-20 — o título que o clube esperava há 30 anos. Voltou a erguer o troféu da liga em 2024-25. No meio desse caminho, ainda somou a Copa da Liga Inglesa em 2021-22 e 2023-24, a Copa da Inglaterra em 2021-22 e a Supercopa da Inglaterra em 2022.
É uma lista que qualquer lateral do mundo assinaria sem hesitar. E ela foi construída por um jogador que chegou a Merseyside por menos do que muitos clubes pagam hoje por reservas de segundo escalão.
Pela seleção escocesa, Robertson também carrega peso histórico. Sua estreia foi em março de 2014, num amistoso contra a Polônia. Em novembro do mesmo ano, marcou seu primeiro gol internacional contra a Inglaterra, no Celtic Park — num jogo que a Escócia perdeu por 3 a 1, mas que ficou marcado pela presença de Robertson no centro de tudo. Ao longo da carreira, acumulou 4 gols em 100 jogos pela seleção.

A trajetória que aponta o teto
Aos 32 anos, Robertson está num momento que poucos atletas da Premier League chegam a conhecer: veterano o suficiente para ter perspectiva, em forma o suficiente para ainda ser titular indiscutível.
Os próximos 12 meses vão exigir dele algo diferente do que os primeiros anos em Liverpool exigiram. Não é mais sobre provar capacidade. É sobre administrar. Saber quando pressionar, quando poupar, quando deixar o jovem ao lado brilhar sem abrir mão do espaço conquistado.
O cenário mais realista é de um Robertson que encerra a temporada 2025/2026 com números discretos — como os que já apresenta — mas com impacto que vai além das estatísticas. Um segundo cenário, igualmente plausível, é que o Liverpool opte por uma transição gradual na posição ao longo do próximo mercado de transferências, mantendo Robertson como referência enquanto prepara o sucessor.
O que não está em discussão é o legado já construído. De Queen's Park ao topo da Europa. De 2,85 milhões de euros no Hull City a oito troféus com o Liverpool. Essa é a trajetória de um homem que nunca foi o mais brilhante na vitrine — e que, exatamente por isso, durou mais do que quase todos que passaram por Anfield na última década.












