Dois gols, 3.650 metros de altitude e uma carreira construída longe dos holofotes brasileiros. Foi assim que Robson Matheus, meia de 23 anos que rodou pelas divisões de base de Cruzeiro e Palmeiras sem nunca se firmar no futebol profissional do país, tornou-se o protagonista da noite mais amarga do Fluminense na Libertadores. Na quinta-feira (30), em La Paz, o tricolor carioca perdeu por 2 a 0 para o Bolívar e caiu para a lanterna do Grupo C, com apenas um ponto em três jogos.
Da base brasileira à titularidade na Bolívia
Robson Matheus fez toda a sua formação no futebol brasileiro — passou pelas categorias sub-17 e sub-20 de Cruzeiro e Palmeiras — sem acumular minutos relevantes nas equipes profissionais. A virada de chave veio em 2022, quando o meia desembarcou na Bolívia para defender o Bolívar. Em pouco mais de três temporadas no clube de La Paz, consolidou-se como peça ofensiva de referência no esquema boliviano. Nesta edição da Libertadores, já soma três gols em três rodadas — todos decisivos.
A análise do SportNavo sobre a trajetória do jogador mostra um padrão recorrente: jovens que não encontram espaço no futebol brasileiro de elite, especialmente oriundos das categorias de base de clubes grandes, têm migrado para ligas sul-americanas onde a valorização de atletas nacionais é mais imediata. Robson Matheus é o exemplo mais eloquente desta rodada.
Como os dois gols desmontaram a defesa tricolor
O primeiro gol saiu aos cinco minutos do primeiro tempo. Após troca de passes pela esquerda, José Sagredo recebeu livre de marcação e cruzou rasteiro. Robson Matheus apareceu entre os zagueiros tricolores e completou de primeira, com o pé esquerdo — um movimento clássico de segundo poste que o Fluminense simplesmente não neutralizou. O time de Zubeldía terminou a primeira etapa sem registrar uma única finalização ao gol de Lampe, dado que resume a dimensão do apagão ofensivo.

O segundo gol veio aos 16 minutos da etapa final, num cenário ainda mais deteriorado para o Flu. O volante uruguaio Facundo Bernal havia sido expulso aos três minutos do segundo tempo após reclamar da demora do VAR em analisar um possível vermelho para Canobbio — e ainda aplaudir ironicamente o árbitro na retomada do jogo. Com um homem a menos, Pato Rodríguez cruzou na medida pela direita e Robson Matheus antecipou Freytes para testar no ângulo: 2 a 0, jogo liquidado. As estatísticas finais apontaram seis finalizações no alvo para o Bolívar contra nenhuma do Fluminense.
"Precisamos de mais foco e mais vontade", declarou o goleiro Fábio em entrevista após o apito final em La Paz.
O diagnóstico de Fábio, porém, é apenas parte do problema. O Fluminense vinha desfalcado de Lucho Acosta, lesionado, e de Martinelli, ausente na competição. Sem esses dois jogadores no meio-campo, Zubeldía não encontrou equilíbrio nem para segurar a pressão do Bolívar — um time que, ironicamente, acaba de demitir o seu treinador e vinha de resultados irregulares na temporada boliviana.
A situação no Grupo C após a terceira rodada
O Grupo C ganhou contornos dramáticos para o Fluminense. O Independiente Rivadavia, da Argentina, lidera com 9 pontos e está virtualmente classificado para o mata-mata após vencer as três partidas. O Bolívar subiu para 4 pontos, o Caracas FC — La Guaira — tem 2, e o Fluminense amarga a lanterna com 1 ponto, colhido no empate da estreia. O tricolor é, neste momento, o único clube brasileiro ainda sem vitória na fase de grupos da Libertadores.
"É uma campanha vexaminosa. Que ainda pode ser salva, claro, mas a coisa está bem difícil", escreveu colunista do UOL Esporte após a derrota em La Paz.
O que o Fluminense precisa para seguir vivo
O caminho para o Fluminense continuar na Libertadores passa por uma sequência de resultados combinados nas três rodadas restantes. O primeiro passo — e o mais urgente — é a partida da próxima quarta-feira (7), quando o time viaja à Argentina para encarar o Independiente Rivadavia, líder com 100% de aproveitamento. Uma derrota em Mendoza, combinada com vitória do Bolívar sobre o La Guaira, praticamente elimina o tricolor da competição continental.

Zubeldía precisará encontrar soluções táticas concretas para um meio-campo desfalcado: sem Martinelli e com Lucho Acosta ainda fora, o técnico argentino lançou mão de Bernal — agora suspenso pelo acúmulo de amarelos — e viu o setor central ser dominado pelo Bolívar durante os 90 minutos. As entradas de Soteldo, John Kennedy e Alisson na segunda etapa não foram suficientes para alterar o volume ofensivo. Para o Rivadavia, pontuar deixou de ser meta — é obrigação.









