Confesso: eu errei sobre Roger Martínez em 2024. Quando o atacante migrou para a Arábia Saudita, escrevi aqui mesmo que a mudança representava o fim de qualquer pretensão de Copa do Mundo — o mesmo diagnóstico que apliquei a outros sul-americanos que seguiram a rota do petrodólar. Hoje, diante de 23 gols em 32 jogos pelo Al-Taawoun na temporada 2025/2026, preciso reconhecer: subestimei a permanência competitiva do jogador. E Néstor Lorenzo, ao que tudo indica, cometeu erro semelhante — só que com consequências bem mais graves.
O que os números de Roger Martínez dizem sobre a pré-lista colombiana
A Colômbia divulgou, na quinta-feira 14 de maio de 2026, uma pré-lista de 55 atletas para a Copa do Mundo. O documento é extenso o suficiente para acomodar variações táticas, cobrir lesões e testar jovens promessas — e, mesmo assim, o nome de Roger Martínez, 31 anos, não apareceu. O atacante do Al-Taawoun encerrou a fase regular da Saudi Pro League como segundo maior artilheiro colombiano em atividade, com 23 gols em 32 partidas, ainda com duas rodadas a cumprir. Para contextualizar: na Copa do Mundo de 2014, a Colômbia inteira marcou 12 gols em sete jogos — a melhor campanha da história do país no torneio, com James Rodríguez artilheiro geral com seis tentos. Roger, sozinho, fez o dobro disso em uma única temporada de clube.
A reação do jogador foi imediata e sem filtro. Nas redes sociais, ele publicou uma nota que misturava estatísticas e indignação:
"Incrível. O segundo melhor artilheiro da Colômbia — 23 gols em 30 jogos, com duas partidas restantes, lutando para ser o melhor da temporada em um campeonato que é melhor do que muitos, com alguns dos melhores jogadores do mundo. Sempre que tive a chance, nunca pipoquei, mesmo quando não estava jogando na minha posição natural muitas vezes, mas você não sabe um ca****. Mais do mesmo. Mas é isso aí."
A frase "você não sabe um ca****" endereçada diretamente a Lorenzo é, do ponto de vista jornalístico, um documento raro: um jogador de seleção quebrando o protocolo diplomático que normalmente envolve convocações. Historicamente, episódios comparáveis no futebol sul-americano — como a crise entre Romário e Zagallo antes da Copa de 1998 ou a exclusão de Adriano por Dunga em 2010 — costumam revelar fraturas internas que a comissão técnica preferia manter ocultas.
Lorenzo tem razões técnicas ou está punindo o exílio saudita
A questão que precisa ser respondida antes de qualquer julgamento definitivo: Lorenzo está tomando uma decisão técnica embasada ou está aplicando um critério geográfico implícito que penaliza jogadores fora das ligas europeias tradicionais?
Essa distinção importa porque a Saudi Pro League de 2025/2026 não é mais o campeonato-vitrine de 2023, quando Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Neymar chegaram simultaneamente. O torneio hoje conta com ex-titulares de Premier League, La Liga e Serie A ainda em atividade competitiva de alto nível. Ignorar rendimento nesse contexto é diferente de ignorar gols em ligas de baixo nível técnico. O próprio Lorenzo convocou, no passado recente, jogadores de ligas sul-americanas com menor coeficiente técnico do que a saudita atual — o que torna a exclusão de Roger ainda mais difícil de justificar por critério puramente técnico.
O SportNavo mapeou as edições da Copa do Mundo em que artilheiros de ligas fora do eixo europeu foram preteridos por suas seleções: em 1994, Gabriel Batistuta chegou ao torneio vindo de uma Fiorentina que havia sido rebaixada à Serie B — e marcou quatro gols. Em 2002, Ronaldo retornou após temporada irregular pelo Inter de Milão e foi artilheiro com oito gols. A forma recente de clube, quando documentada em números, raramente mente.
Quem entrou na lista e o que isso revela sobre os critérios de Lorenzo
A pré-lista de 55 nomes permite análise comparativa. Lorenzo incluiu atacantes com rendimento inferior ao de Roger Martínez em suas respectivas ligas na temporada 2025/2026 — alguns com menos de dez gols em competições domésticas. A decisão sugere que o técnico argentino, que assumiu a Colômbia em julho de 2022 após a saída de Reinaldo Rueda, valoriza outros fatores: encaixe tático em seu 4-2-3-1 preferencial, histórico de convocações anteriores e relações construídas ao longo dos 23 jogos que dirigiu pelas Eliminatórias Sul-Americanas — campanha que terminou com a Colômbia em terceiro lugar na tabela, com 25 pontos, atrás de Argentina e Equador.
O problema é que critérios subjetivos, quando confrontados com números objetivos desta magnitude, precisam de explicação pública. Lorenzo ainda não se pronunciou diretamente sobre a exclusão de Roger. A ausência de justificativa alimenta exatamente o tipo de narrativa que o jogador construiu no Instagram — e que agora circula em toda a imprensa colombiana e internacional.
A lista definitiva da Colômbia, reduzida para os 26 convocados oficiais, precisa ser entregue à FIFA até 10 de junho de 2026. A Colômbia estreia na Copa do Mundo no Grupo K, ao lado de Alemanha, Marrocos e Arábia Saudita — curiosamente, o país onde Roger Martínez está fazendo a melhor temporada de sua carreira.
Nessa última ironia geográfica está o resumo de tudo: Roger Martínez vai ao estádio, marca gols, e talvez assista à Copa sentado na arquibancada do mesmo país que Lorenzo escolheu ignorar.









