O cheiro de campanha eleitoral chegou ao Morumbi antes mesmo do apito final da temporada. Nos corredores do Conselho Deliberativo do São Paulo, onde as disputas políticas costumam ser tão intensas quanto as do gramado, um nome começou a circular com força nas últimas semanas: Rogério Caboclo, ex-presidente da CBF, é o novo favorito da oposição para encabeçar uma chapa presidencial nas eleições previstas para o fim de 2026. Ao seu lado, o nome de Vinícius Pinotti surge como vice, numa articulação que envolve cerca de 120 dos 250 conselheiros aptos a voto.

A reviravolta que tirou Speranzini do centro do tabuleiro

Até poucos dias atrás, o empresário Dáurio Speranzini era tratado como a principal aposta da oposição. Conselheiro com trânsito reconhecido no clube e avaliado internamente como um quadro preparado para a função, ele reunia o perfil técnico que parte do grupo considerava necessário para desafiar a gestão atual de Harry Massis Júnior. O problema não era competência — era política.

Segundo interlocutores ouvidos pelo UOL, críticas recorrentes ao nome de Speranzini, amplificadas nos bastidores do Morumbi, passaram a contaminar parte dos sócios e conselheiros, tornando a construção eleitoral progressivamente mais difícil. A resistência cresceu a ponto de forçar o grupo a recalcular a rota. No futebol como na política, quem não tem cão caça com gato — e a oposição foi buscar um nome com maior apelo simbólico.

Foi nesse vácuo que Caboclo ganhou tração. Segundo pessoas envolvidas na articulação, o ex-dirigente tem dado sinalizações positivas e intensificou conversas nos últimos dias com diferentes atores políticos do clube. A avaliação interna é que ele reúne experiência administrativa e influência entre conselheiros — atributos que, combinados, poderiam viabilizar uma candidatura competitiva.

Quem é Caboclo e o que sua candidatura carregaria de bagagem

Rogério Caboclo presidiu a CBF entre 2019 e 2021, período que incluiu a organização da Copa América disputada em solo brasileiro em 2021, realizada em meio à pandemia e a forte oposição de jogadores da Seleção. Seu mandato foi interrompido em junho daquele ano, quando foi afastado do cargo após denúncias de assédio moral e sexual feitas por funcionárias da confederação — episódio que abriu procedimentos internos e investigações judiciais.

Caboclo sempre negou as irregularidades. Posteriormente, decisões judiciais determinaram o arquivamento ou trancamento dos processos relacionados às acusações, sem condenação do dirigente. Ainda assim, qualquer candidatura sua ao Morumbi inevitavelmente recolocará esses episódios no centro do debate público — e a oposição já sabe disso.

"Ele tem experiência, tem influência e tem disposição" — foi com esse argumento, segundo interlocutores ligados ao movimento, que o nome de Caboclo começou a circular com força entre os conselheiros do São Paulo.

Ao mesmo tempo, integrantes do grupo admitem reservadamente que o nome ainda precisa conquistar a adesão de algumas lideranças internas. Os 120 conselheiros articulados representam uma base sólida, mas insuficiente para garantir vitória por si só numa eleição em que os 250 aptos a voto podem pender para qualquer lado dependendo do cenário que se formar nos próximos meses.

O que falta resolver antes das urnas

Para a presidência do Conselho Deliberativo, o nome mais bem avaliado dentro do grupo oposicionista é o de Caio Forjaz — figura que complementaria a chapa encabeçada por Caboclo e Pinotti, dando ao projeto uma estrutura mais completa de poder institucional.

Do lado da situação, o cenário tampouco está definido. A sucessão de Harry Massis Júnior permanece aberta e marcada por incertezas, com o clube sem um candidato oficial declarado. A ausência de um nome forte na situação pode, paradoxalmente, tanto facilitar quanto complicar a vida da oposição: facilita porque reduz a resistência organizada; complica porque, sem um adversário claro, fica mais difícil mobilizar o eleitorado conselheiro em torno de uma narrativa de mudança.

Quantos presidentes do São Paulo chegaram ao Morumbi carregando históricos polêmicos e mesmo assim conseguiram transformar o clube?

A pergunta não é retórica por acaso. A história do São Paulo é repleta de gestões que chegaram sob desconfiança e saíram com títulos — e de outras que chegaram com promessas e deixaram dívidas. O nome de Caboclo, com toda a sua carga simbólica, não é nem vilão nem herói predefinido nessa narrativa. Ele é, por ora, uma variável.

Segundo pessoas envolvidas na articulação, "o nome ainda precisa de aceitação de algumas lideranças" — reconhecimento interno de que os 120 conselheiros alinhados são ponto de partida, não de chegada.

O calendário político do clube prevê eleições para o fim de 2026, o que significa que os próximos meses serão decisivos para a consolidação ou o abandono da candidatura Caboclo. A oposição precisará converter a articulação atual em adesões formais, apresentar um programa de gestão capaz de dialogar com a massa de conselheiros indecisos e, sobretudo, decidir se o perfil do ex-presidente da CBF é o argumento mais forte disponível — ou se um novo nome ainda pode emergir antes do prazo. A eleição do Conselho Deliberativo do São Paulo, prevista para o segundo semestre, será o momento em que todas essas peças precisarão estar no lugar.