O que faz um atacante de 32 anos, com 168 centímetros e uma carreira construída à margem dos holofotes, ainda buscar espaço no Brasileirão Série A? A pergunta parece simples, mas a resposta de Romarinho não cabe em uma linha de tabela.
Romarinho José Romário Silva de Souza — o nome completo carrega a sombra inevitável de um dos maiores centroavantes que o Brasil já produziu, o que por si só já é um peso simbólico considerável — chegou ao Criciúma com a discreta camisa 11 e a missão silenciosa de quem sabe que não há mais margem para temporadas de adaptação. Aos 32 anos, nascido em 1º de março de 1994 em Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte, ele carrega nas pernas a memória de competições continentais, estaduais e nacionais que poucos jogadores de sua prateleira tiveram a oportunidade de disputar.
O dia em que tudo mudou
A temporada de 2022 no Fortaleza EC representa o pico documentado da carreira de Romarinho até agora. Foram 26 jogos na Série A, com 3 gols e 3 assistências — números modestos em termos absolutos, mas que ganham peso quando se considera o contexto: o Fortaleza daquele ano disputou a Copa Libertadores, e o atacante somou participações também na Copa do Nordeste, no Campeonato Cearense e na Copa do Brasil. Jogar em quatro frentes simultâneas exige um tipo específico de resistência que não aparece em nenhuma planilha de dados.
Foi naquele ciclo que Romarinho deixou de ser apenas um nome de elenco para se tornar um jogador com histórico continental verificável. A Libertadores de 2022 pelo Fortaleza não foi uma participação decorativa — foi a confirmação de que o atacante nordestino podia operar em ambientes de alta pressão sem perder a funcionalidade tática que seus treinadores exigiam.
Antes do divisor de águas
Antes de chegar ao auge fortalezense, Romarinho já havia construído uma trajetória que mistura competências regionais e nacionais. Seu histórico inclui passagens pelo Campeonato Cearense, pelo Campeonato Pernambucano, pela Copa do Nordeste — competição que ele disputou por mais de um clube — e pela Copa do Brasil. Não é a biografia de um jogador que sempre esteve no centro das decisões, mas é a de alguém que entendeu cedo como sobreviver profissionalmente no futebol brasileiro sem depender de uma única janela de oportunidade.
Em 2023, dividiu a temporada entre Fortaleza e Sport Recife, acumulando 20 jogos na Série A e participações nas fases de grupo da CONMEBOL Sudamericana e da Libertadores. Em 2024, já exclusivamente no Sport, contribuiu com gols na Copa do Nordeste e na Série B. O padrão que emerge não é de explosão, mas de persistência funcional — o tipo de jogador que aparece quando é acionado, não necessariamente o que define partidas sozinho.
- 2022 (Fortaleza): 26 jogos na Série A, 3 gols, 3 assistências; participações na Libertadores e Copa do Nordeste
- 2023: temporada dividida entre Fortaleza e Sport, com 20 jogos na Série A e passagens por Libertadores e Sudamericana
- 2024 (Sport Recife): contribuições na Série B e Copa do Nordeste, com gols em ambas as competições
Como o futebol mudou ao redor dele
Há uma ironia estrutural na trajetória de atacantes como Romarinho: quanto mais o futebol brasileiro se sofistica taticamente, mais valoriza o perfil de jogador que ele representa — o atacante que não precisa ser o protagonista para ser útil, que ocupa espaços laterais, que pressiona a saída de bola adversária e que, quando o gol vem, não precisa ter sido construído por ele do início ao fim.
Na temporada atual de 2026, Romarinho acumula 34 jogos pelo Criciúma na Série A — número expressivo que revela a confiança do técnico em sua consistência física e tática. Os 4 gols marcados até aqui não transformam sua temporada em material de artilharia, mas indicam presença constante no setor ofensivo. Há algo na movimentação de Romarinho que lembra um temporal sem trovão: ele se desloca pelo corredor esquerdo sem anunciar a chegada, ocupa o espaço antes que o marcador perceba que o espaço existia, e só quando o perigo já está instalado é que o adversário nota o que aconteceu.
Comparado a outros atacantes de sua faixa etária no Brasileirão 2026, Romarinho não lidera nenhum ranking de eficiência ofensiva. Mas 34 jogos disputados em uma temporada de Série A — para um jogador de 32 anos que chegou de fora — é um dado que diz mais sobre confiabilidade do que sobre genialidade. Técnicos de Série A não escalam por saudade; escalam por necessidade.
O peso do nome e a leveza dos pés
Carregar o apelido Romarinho no futebol brasileiro é uma carga que poucos comentaristas resistem em ignorar. O nome evoca comparações impossíveis com o tetracampeão Romário — comparações que o jogador certamente aprendeu a desviar com o mesmo pragmatismo com que desvela marcadores em campo. Não há registro público de que ele tenha alimentado essa narrativa; ao contrário, sua carreira sugere um profissional que preferiu construir identidade própria pelo trabalho acumulado, não pelo simbolismo do apelido.
O próximo capítulo já começou
Com contrato em vigor no Criciúma e 34 jogos já disputados na Série A de 2026, Romarinho está no meio de um capítulo que ainda não tem desfecho definido. Aos 32 anos, ele pertence a uma geração de atacantes brasileiros que não terá mais ciclos longos de reconstrução — cada temporada é, na prática, uma candidatura renovada ao mercado.
O cenário mais realista para os próximos 12 meses depende de variáveis que o próprio jogador controla apenas parcialmente: o desempenho coletivo do Criciúma na reta final do Brasileirão 2026, a evolução de sua produção ofensiva nas rodadas restantes e a eventual chegada de propostas de clubes que precisem de um atacante experiente com histórico continental. Romarinho não é um nome que domina manchetes, mas é o tipo de profissional que clubes buscam quando querem consistência sem apostas de alto risco.

Ceará-Mirim não é uma cidade que costuma aparecer nos mapas do futebol brasileiro. Mas ela produziu um atacante que disputou Libertadores, Sudamericana, Copa do Brasil e Série A — e que, aos 32 anos, ainda acumula minutos em campo como se cada jogo fosse uma renovação de contrato silenciosa. Isso, por si só, já é uma história que vale ser contada.













