É um espelho com moldura de ouro que reflete uma imagem que ninguém quer encarar de frente. Romário falou — e o futebol brasileiro, como costuma acontecer quando o Baixinho abre a boca, ficou sem resposta imediata.

Romário sai do silêncio e coloca o nome de Neymar no centro do debate

Em entrevista à TV Record exibida nesta semana, Neymar ganhou um defensor de peso: Romário, o homem que em 1994 carregou o Brasil ao tetracampeonato com 55 gols pela Seleção e cinco gols na campanha do torneio nos Estados Unidos. O argumento do ex-atacante vai além da simples lealdade a um colega de ofício.

"O Neymar tem que ir para a Copa! Ele faz diferença, é respeitado e vai ajudar o Brasil. Não sei se a presença do Neymar pode atrapalhar alguns moleques, que podem achar que deixarão de ser o primeiro ou segundo. Essas vaidades babacas que existem no futebol", disse Romário.

A declaração carrega um dado que merece atenção: Neymar, hoje aos 33 anos, acumula 79 gols em 128 jogos pela Seleção Brasileira, tornando-se o maior artilheiro da história do país. Em três Copas disputadas — 2014, 2018 e 2022 — marcou 8 gols e distribuiu 5 assistências. São números que poucos, ao longo de décadas de futebol brasileiro, conseguiram reproduzir no maior palco do esporte.

O diagnóstico de Romário sobre a força real do Brasil na Copa do Mundo

Reparemos no detalhe que mais incomodou: Romário não apenas defendeu Neymar, mas foi cirúrgico ao posicionar o Brasil no cenário do favoritismo mundial. Para ele, a Amarelinha está atrás de Argentina, França, Portugal, Espanha e Alemanha — ou seja, no mínimo em sexto lugar na hierarquia do torneio.

"A seleção brasileira é mais ou menos. Está atrás da Argentina, França, Portugal, Espanha e Alemanha", opinou o ex-atacante.

Essa leitura tem respaldo histórico que dói. Desde o título de 2002 na Coreia e Japão, o Brasil acumula quatro eliminações consecutivas nas quartas de final ou semifinal das Copas: 2006 (França, quartas), 2010 (Holanda, quartas), 2014 (Alemanha, semifinal, com o histórico 7 a 1), e 2022 (Croácia, quartas, nos pênaltis). Nenhuma dessas seleções citadas por Romário tem um histórico recente tão irregular no torneio quanto o Brasil.

Ancelotti e a questão do contrato antes da Copa do Mundo

A terceira frente aberta por Romário diz respeito ao técnico Carlo Ancelotti, cujo contrato a CBF pretende renovar antes mesmo do início da competição. O ex-centroavante foi direto ao ponto e posicionou sua tese com a mesma economia de palavras que usava na área adversária.

"Eu não renovaria com o Ancelotti antes da Copa. Só renovaria se fosse campeão", declarou Romário.

A posição tem lógica administrativa difícil de rebater: renovar antes da Copa garante estabilidade ao treinador, mas retira da CBF qualquer poder de barganha em uma negociação que envolve um dos técnicos mais vitoriosos da história — três Liga dos Campeões pelo Real Madrid, títulos em Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha e França. A questão não é se Ancelotti é bom; a questão é se o Brasil merece renovação automática sem entregar resultado.

O Brasil entra em campo no dia 31 de maio contra o Panamá, em amistoso preparatório, antes de enfrentar o Egito em 6 de junho. A estreia oficial na Copa do Mundo acontece no dia 13 de junho, contra Marrocos. Até lá, Ancelotti precisará responder às perguntas que Romário fez — não em entrevista, mas com escalação, resultado e, se tudo der certo, troféu.