A bola saiu do pé direito de Mendoza com força razoável. Não havia ângulo impossível, não havia desvio, não havia nenhuma das variáveis que absolvem goleiros em jornais esportivos. Agustín Rossi moveu os braços tarde, o corpo não fechou o espaço e a rede balançou na Arena da Baixada, em Curitiba, na noite deste domingo (17/05). Era a 16ª rodada do Brasileirão e, para uma parcela significativa da torcida do Flamengo, era também a segunda vez em menos de sete dias que o mesmo nome aparecia no centro do problema.
O que os dois lances de Rossi revelam sobre o momento rubro-negro
Na quinta-feira anterior, o Flamengo havia sido eliminado da Copa do Brasil pelo Vitória. Rossi foi apontado como o responsável direto pelo gol que encerrou a campanha do clube na competição. Dois erros consecutivos em decisões de alto impacto não são coincidência estatística — são padrão. E padrões, no futebol de alto rendimento, custam caro. O Flamengo acumula 30 pontos no Brasileirão, cinco atrás do líder Palmeiras, e qualquer tropeço evitável no campeonato tem peso multiplicado.
A reação nas redes sociais foi imediata e volumosa. A hashtag #NuncaMais circulou associada ao nome do goleiro argentino, que chegou ao clube em 2023 como titular indiscutível. A torcida, que já havia absorvido a eliminação da Copa do Brasil com custo emocional alto, não encontrou reservas de paciência para um segundo episódio da mesma série. Nas palavras de torcedores que dominaram os comentários em plataformas digitais, a mensagem era uniforme: a posição precisa de solução.
O que os números do Flamengo exigem de quem defende o gol
Segundo a avaliação do SportNavo, o contexto financeiro torna o debate ainda mais pertinente. O Flamengo encerrou 2025 com receita total superior a R$ 1,2 bilhão, consolidando-se como o clube de maior capacidade econômica do futebol brasileiro. Um orçamento dessa magnitude pressupõe profundidade de elenco suficiente para substituir qualquer posição sem trauma institucional. O técnico Leonardo Jardim escalou Rossi neste domingo ao lado de Guillermo Varela, Danilo, Léo Pereira e Alex Sandro na defesa, com Lucas Paquetá retornando de lesão no meio-campo — sinal de que o treinador ainda aposta na estabilidade do grupo, mas a pressão por mudanças cresce a cada falha.
Errou. Duas vezes. Em contextos que o futebol chama de decisivos e que a sociologia do esporte prefere classificar como momentos de alta visibilidade — aqueles em que o erro individual se transforma em narrativa coletiva, alimentando o ciclo de cobrança que grandes clubes de massa produzem com eficiência industrial.
A perspectiva de Jardim e o que vem pela frente para o goleiro
Há uma leitura que a imprensa esportiva raramente oferece com frieza: goleiros erram. A diferença entre o erro tolerado e o erro que vira crise está menos na gravidade técnica do lance e mais no acúmulo de capital simbólico que o atleta construiu antes dele. Rossi, que foi determinante em conquistas anteriores do clube, parece ter esgotado esse crédito junto à torcida — ao menos temporariamente. Não há tragédia: há contabilidade.
O Flamengo volta a campo na quarta-feira (20/05), quando enfrenta o Estudiantes pela Copa Libertadores. Com sete jogadores na pré-lista de Carlo Ancelotti para a Seleção Brasileira — entre eles Danilo, Léo Pereira, Paquetá e Pedro —, a partida tem dupla função: manter a competitividade continental e fornecer argumentos individuais ao técnico da CBF. A posição de Rossi entre os titulares dependerá, em grande medida, da avaliação que Jardim fará nos próximos dias sobre o custo de manter ou substituir o goleiro numa semana de alta exigência.









