— Você acredita que eles convocaram o Lukaku de novo?
— Com 33 anos e mais de 80 gols pela seleção? Eu convocava também.
— Mas e os jovens?

Esse diálogo, repetido em bares de Bruxelas e Liège nesta sexta-feira (15), sintetiza a tensão estrutural que cerca a Copa do Mundo de 2026 para os Diabos Vermelhos. O técnico Rudi Garcia anunciou os 26 convocados da Bélgica apostando num modelo que privilegia repertório sobre renovação — e a decisão divide opiniões tanto quanto une expectativas.

ERIC FARIA DESTACA PRESENÇA DE THIAGO SILVA NA PRÉ-LISTA DA COPA DO MUNDO | #shorts | sportv

O que dizem os protagonistas de Garcia

Kevin De Bruyne, 34 anos, que defende o Napoli na Serie A 2025/2026, é o eixo criativo da convocação. Ao lado do meia, Rudi Garcia reenconvocou o goleiro Thibaut Courtois (Real Madrid) e o centroavante Romelu Lukaku, também no Napoli — dupla que protagonizou a campanha de terceiro lugar na Rússia em 2018. Nas palavras do técnico francês durante a coletiva desta sexta, a aposta na experiência é deliberada: segundo Garcia, o grupo conhece os mecanismos de um torneio de alta pressão e sabe administrar o peso de uma semifinal. A confiança nos veteranos, portanto, não é nostalgia — é cálculo.

A lista completa inclui nomes como Youri Tielemans e Amadou Onana (ambos no Aston Villa), Leandro Trossard (Arsenal) e Charles De Ketelaere (Atalanta). A presença de Zeno Debast (Sporting-POR), ainda em recuperação de lesão muscular grave, foi uma das surpresas declaradas pelo próprio staff técnico.

"Apostamos na experiência porque sabemos o que um torneio de Copa do Mundo exige mentalmente", sintetizou Garcia ao anunciar a lista, segundo apuração do SportNavo junto a fontes da imprensa belga.

As ausências também falam. Loïs Openda, destaque da Juventus na Serie A, ficou de fora. O mesmo aconteceu com Roméo Lavia (Chelsea), Arthur Vermeeren (Olympique de Marseille) e os jovens Malick Fofana (Lyon) e Mika Godts (Ajax) — omissões que indicam uma escolha clara de Garcia por maturidade tática em detrimento de potencial de longo prazo.

O que os números revelam sobre a geração belga

A Bélgica acumula, entre De Bruyne, Lukaku e Courtois, mais de 380 partidas combinadas pela seleção nacional — volume superior ao total de aparições internacionais de toda a atual seleção da Nova Zelândia, adversária no Grupo G. Esse dado não é apenas curiosidade estatística: ele ilustra a densidade de experiência que Garcia coloca em campo cada vez que esses três jogam juntos.

O retrospecto histórico reforça a ambição. Em 1986, a geração de Jean-Marie Pfaff terminou em quarto lugar, eliminada pela Argentina de Maradona na semifinal. Em 2018, a Bélgica foi mais longe: eliminou o Brasil por 2 a 1 nas quartas de final em Kazan, antes de cair para a França — que se tornaria campeã mundial. O terceiro lugar permanece, até hoje, o teto da seleção belga.

A Bélgica desembarca no Grupo G como cabeça de chave, ao lado de Egito, Irã e Nova Zelândia. Em termos de ranking FIFA, é o grupo de menor resistência proporcional ao qual os Diabos Vermelhos poderiam ter sido alocados — condição que amplia a pressão por uma classificação sem tropeços para as oitavas de final.

A leitura do quadro para a Copa do Mundo 2026

Há uma contradição produtiva no projeto belga: a mesma geração que nunca venceu o Mundial é a que concentra o maior capital técnico do futebol do país. De Bruyne foi eleito o melhor jogador da Serie A 2024/2025 pelo Napoli; Lukaku marcou 27 gols em todas as competições pelo clube napolitano na temporada atual; Courtois recuperou a titularidade no Real Madrid após grave lesão no joelho. A janela biológica desses três está se fechando — e Garcia sabe disso.

"Esta é provavelmente a última Copa do Mundo de alguns dos nossos melhores jogadores. Queremos honrar isso com um resultado histórico", disse um membro da comissão técnica belga, conforme relato da imprensa europeia.

A pergunta que a sociologia do esporte faz a esse tipo de convocação não é apenas tática — é sobre o peso da narrativa. Selecionar veteranos num torneio eliminatório é também uma escolha de identidade coletiva: a Bélgica prefere chegar com quem já conhece o peso de perder uma semifinal a chegar com quem ainda não sabe o que isso significa. Há racionalidade nessa escolha. Há também risco.

O que os números revelam sobre a geração belga Rudi Garcia aposta nos veteranos
O que os números revelam sobre a geração belga Rudi Garcia aposta nos veteranos

A estreia dos Diabos Vermelhos está marcada para o dia 15 de junho, em Seattle, contra o Irã. Rudi Garcia terá, a partir dali, aproximadamente 90 minutos para demonstrar que apostar em quem tem 34 anos e 130 jogos de seleção é uma estratégia — não uma despedida.