Não foi a demissão em si que colocou o Atlético-MG em rota de colisão com Jorge Sampaoli — foi o que aconteceu depois dela. Três meses após o encerramento do vínculo, o clube pagou exatamente R$ 666,6 mil dos R$ 10 milhões acordados como multa rescisória. O restante, R$ 9,33 milhões distribuídos em 14 parcelas, permanece em aberto. Na última sexta-feira (15), os advogados do treinador argentino acionaram a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) para cobrar o montante.

Como a segunda passagem de Sampaoli pelo Galo chegou ao fim

Contratado em 2 de setembro de 2025 para uma segunda passagem pelo clube mineiro, Sampaoli assinou um contrato com validade até o fim de 2027. O retorno gerou expectativa considerável, mas os números não sustentaram o otimismo: em 34 partidas sob seu comando, o Atlético somou 10 vitórias, 16 empates e 8 derrotas — um aproveitamento de 41,2%, insuficiente para qualquer projeto de médio prazo. A diretoria optou pelo desligamento em fevereiro de 2026, após pouco mais de cinco meses de trabalho. Para efeito de comparação, o Galo levou as mesmas 34 partidas para acumular pontos equivalentes ao que Cuca somou em 18 jogos na sua melhor passagem pelo clube.

O acordo de 15 parcelas que virou litígio na CNRD

Com a saída acertada, as partes negociaram a rescisão. O modelo escolhido previa o pagamento de R$ 10 milhões em 15 prestações mensais de R$ 666,6 mil cada — uma estrutura que diluía o impacto financeiro ao longo de mais de um ano. Segundo apuração do ge, apenas a primeira parcela foi quitada logo após a demissão. As demais não foram honradas. Sampaoli e sua comissão técnica, que também integra a cobrança, decidiram formalizar o impasse por meio da CNRD, órgão fundado em 2016 pela CBF com o objetivo de resolver disputas no futebol nacional com mais celeridade do que o Poder Judiciário comum. O colegiado é composto por cinco membros titulares e cinco suplentes, todos com atuação em direito desportivo nacional ou internacional.

Segundo apuração do ge, só uma das parcelas foi paga logo após a demissão — e os advogados do treinador resolveram entrar na CNRD nesta sexta-feira para resolver a situação.

O que a inadimplência pode custar ao Atlético além dos R$ 9,3 milhões

O Atlético-MG não se pronunciou oficialmente sobre a ação até o momento da publicação desta matéria. A ausência de posicionamento público não elimina o risco prático: processos na CNRD podem resultar em sanções que vão além do valor original da dívida, incluindo acréscimo de juros e, em casos extremos, restrições à contratação de novos profissionais enquanto a pendência não for quitada. O clube já carrega um passivo financeiro relevante — contexto que torna a gestão de cada saída contratual ainda mais sensível. A CNRD tem competência para atuar sobre clubes, federações, atletas, treinadores e membros de comissão técnica, o que significa que todos os integrantes do staff de Sampaoli podem ser parte legítima na cobrança. O próximo passo do processo depende da resposta formal do Atlético ao órgão, prazo que será definido pela própria câmara após o protocolo da ação.