— Cara, é o Sampaoli ali naquela roda de figurinha.
— Que Sampaoli?
— O treinador, mano. O do Atlético. Tá aqui no Rio trocando figurinha com um menino.
— Vai embora.

A conversa acima não é ficção. É, com pequenas variações, o que aconteceu em algum ponto do Rio de Janeiro nesta terça-feira, 2 de junho de 2026, quando Jorge Sampaoli — o mesmo que pressionou a linha defensiva do Chile até levá-la a uma Copa do Mundo em 2014, o mesmo que comandou a Argentina em 2018 na Rússia — apareceu sentado numa roda de trocas da Copa do Mundo, negociando figurinhas repetidas com o filho León, de seis anos. O registro viralizou nas redes sociais em minutos.

A febre das figurinhas que para até técnico de Copa

Há algo de quase arqueológico na cultura do álbum Panini. Ela atravessa gerações sem perder a gramática: o pacotinho aberto com cuidado, a figurinha repetida virada de costas, a lista anotada no caderno. Em 2026, com a Copa do Mundo começando em 11 de junho nos Estados Unidos, México e Canadá — e com 48 seleções disputando 980 figurinhas, o maior volume já produzido para uma edição do torneio —, essa febre voltou com intensidade particular. Pontos de troca se espalharam por praças, calçadões e parques de todo o Brasil, reunindo crianças, adultos e, aparentemente, técnicos de futebol desempregados.

A cena com Sampaoli foi registrada pelo perfil Que Jogada! no X (antigo Twitter) e rapidamente saiu do nicho esportivo para circular em grupos de família, grupos de pai de escola, grupos de tudo. Não há tragédia: há contabilidade. Um homem de 64 anos, com duas Copas do Mundo no currículo como treinador, sentado no chão com o filho de seis anos, olhando figurinha contra a luz para ver se tem brilho ou não. Isso é, objetivamente, uma das imagens mais humanas que o futebol produziu em semanas.

Quem é o Sampaoli que o Rio recebeu nesta terça

Jorge Luis Sampaoli Maina — nome completo, para quem quiser procurar no Google — mora no Rio de Janeiro há algum tempo e está sem clube desde que foi demitido do Atlético-MG em fevereiro de 2026. Na segunda passagem pelo Galo, que durou até o início deste ano, o argentino dirigiu 34 partidas: 10 vitórias, 16 empates e 8 derrotas — números que explicam, sem precisar de mais palavras, o desfecho. Na primeira passagem, em 2020, o cenário foi radicalmente diferente: 45 jogos, 26 vitórias, 9 empates e 10 derrotas, com o título do Campeonato Mineiro como recompensa.

Antes do Atlético, Sampaoli trabalhou no Flamengo e no Santos, além de passagens pelo Sevilla, pelo Marseille e pela própria seleção argentina. É um técnico que carrega uma identidade tática muito específica — pressão alta, linhas compactas, transições verticais — e que, quando funciona, produz futebol de alta intensidade. Quando não funciona, produz os 16 empates mencionados acima. A vida de técnico de alto nível é, em grande medida, essa oscilação.

León é um de seus quatro filhos. Tem seis anos. Provavelmente não sabe que o pai já foi chamado de gênio tático na imprensa europeia. Sabe, isso sim, que o pai tem figurinhas repetidas e pode ajudá-lo a completar o álbum.

O que a cena de Sampaoli revela sobre este momento do futebol

Há um paralelo histórico que me ocorre sempre que vejo um grande técnico num momento de pausa forçada. Em 1994, Johan Cruyff foi demitido do Barcelona após 8 anos e 4 títulos de La Liga — o último deles em 1991, com 112 pontos em 38 jogos, recorde da época. Cruyff passou os meses seguintes em casa, em Barcelona, fumando, jogando golfe e concedendo entrevistas filosóficas. Ninguém o viu trocando figurinha porque o álbum da Copa daquele ano não tinha a mesma penetração cultural que tem hoje. Mas a ideia é a mesma: grandes nomes do futebol têm intervalos, e esses intervalos revelam quem eles são quando a câmera de pressão é desligada.

Sampaoli no Rio, em junho de 2026, com a Copa começando em nove dias, é uma imagem que condensa várias camadas ao mesmo tempo. Há o técnico que está fora do mercado neste momento específico. Há o pai que aproveita uma janela rara de presença cotidiana com o filho. Há o argentino que vai assistir à Copa do Mundo — pela primeira vez em doze anos — sem ter uma seleção ou um clube para preparar. E há, acima de tudo, o homem que escolheu passar essa terça-feira numa roda de figurinhas em vez de dar entrevistas sobre mercado ou postar análises táticas nas redes sociais.

Segundo o registro que circulou nas redes, Sampaoli estava "negociando" com León — palavra que, nesse contexto, significa a versão de seis anos de uma reunião de diretoria. Você tem o Mbappé? Tenho dois. Troca pelo De Bruyne? Não, o De Bruyne eu já tenho. A lógica é exatamente a mesma de qualquer negociação de mercado de transferências, só que com stakes infinitamente mais razoáveis.

Registrado em matéria do SportNavo, o episódio ganhou repercussão justamente porque a Copa do Mundo de 2026 — a primeira com 48 seleções na história — está mobilizando o Brasil de uma forma que não se via desde 2014, quando o país sediou o torneio. A edição atual, disputada em três países, tem o Brasil no Grupo D, com jogos previstos para Los Angeles, San Francisco e Dallas nas fases iniciais.

Sampaoli, por sua vez, não tem data marcada para retornar ao trabalho. Há especulações sobre possíveis sondagens de clubes brasileiros e europeus, mas nada concreto até esta terça-feira. O que ele tem, concretamente, é um filho de seis anos com um álbum incompleto e nove dias antes de a Copa começar.

León segura o pacotinho novo. Abre devagar. A primeira figurinha é repetida. Sampaoli olha, sorri, e começa a negociar.