A noite de quinta-feira no Maracanã não foi apenas de goleada. Foi de revelações. Enquanto o Flamengo atropelava o Independiente Medellín por 4 a 1 na segunda rodada da Libertadores, Samuel Lino desenhava em campo uma metamorfose tática que começou a tomar forma desde a chegada de Leonardo Jardim. O ponta-esquerda, protagonista direto de dois dos quatro gols rubro-negros, deixou o gramado com uma confissão que ecoa pelas arquibancadas da Gávea: prefere o estilo do português ao de Filipe Luís.
A reinvenção posicional de Samuel Lino
As estatísticas não mentem. Sob o comando de Jardim, Lino acumula três jogos, duas vitórias expressivas e participação direta em cinco gols – três assistências e dois tentos. Números que contrastam com o rendimento irregular apresentado nos últimos meses da gestão de Filipe Luís, quando o jogador oscilava entre momentos de brilho e longos períodos de invisibilidade tática.
"Com o Filipe Luís, eu jogava um pouco mais aberto, um contra um. Eu acabava não por ser prejudicado, porque eu tenho um pouco dessa característica, mas muitos dos clubes aqui no Brasil trabalham com marcação individual, e às vezes vem uma dobra e é difícil de passar por um, dois, três jogadores que vêm"
A mudança não é apenas filosófica. É geométrica. Onde antes Lino se posicionava colado à linha lateral esquerda, esperando receber a bola para partir em velocidade contra o lateral adversário, agora ele flutua entre as zonas. Participa da construção, busca espaços nas entrelinhas e explora corredores internos que o sistema defensivo colombiano simplesmente não conseguiu mapear durante os 90 minutos.

O laboratório tático de Leonardo Jardim
A goleada sobre o Medellín serviu como vitrine para as modificações implementadas pelo técnico português. Jardim escalou uma formação que privilegiou a mobilidade, especialmente no setor ofensivo, onde Lino ganhou liberdade para ocupar diferentes posições conforme o desenvolvimento das jogadas. A estratégia funcionou desde o primeiro minuto, quando o camisa 16 serviu Carrascal em uma oportunidade desperdiçada aos dois minutos.
O primeiro gol do Flamengo, marcado por Paquetá aos 15 minutos, nasceu de um movimento coletivo que teve Lino como peça fundamental na articulação pela esquerda. Mais tarde, aos 44 minutos do primeiro tempo, foi novamente o ponta-esquerda quem encontrou Arrascaeta para o cruzamento que resultou no gol de cabeça de Bruno Henrique.

"Com o Leonardo Jardim, não. A diferença dele é a mobilidade de você jogar por dentro, jogar de costas, pedir a bola nas costas, às vezes abrir. Ele dá essa liberdade, e com esse estilo de jogo eu me identifico mais"
O contexto histórico das mudanças táticas no Flamengo
A evolução de Lino espelha um fenômeno recorrente na história recente do Flamengo: a capacidade de jogadores talentosos encontrarem seu melhor rendimento quando o sistema tático dialoga com suas características naturais. Lembremos de Everton Ribeiro sob Jorge Jesus em 2019, quando deixou de ser um meia clássico para se tornar um organizador dinâmico, ou de Bruno Henrique, que migrou da ponta para uma função de segundo atacante.
Segundo apuração do SportNavo, a mudança no posicionamento de Lino reflete uma tendência moderna do futebol, onde ponteiros puros cedem espaço para jogadores híbridos, capazes de ocupar múltiplas posições durante a mesma partida. O modelo implementado por Jardim alinha o Flamengo com as principais potências europeias, que há tempos abandonaram conceitos rígidos de formação.
Os números que comprovam a evolução
A performance de Lino contra o Medellín apresentou dados reveladores: 73% de passes certos, quatro desarmes defensivos e duas finalizações certas. Mais importante que os números absolutos, porém, é a variação posicional registrada pelo GPS da Conmebol. O mapa de calor mostra um jogador que ocupou desde a linha de fundo até a intermediária defensiva, confirmando a liberdade tática concedida por Jardim.
A vitória deixou o Flamengo com 100% de aproveitamento na Libertadores, somando seis pontos e liderando o Grupo A. A equipe superou o Estudiantes (quatro pontos), o próprio Independiente Medellín (um ponto) e o Cusco FC, ainda zerado na competição.
O Flamengo volta a campo no domingo, dia 19, contra o Bahia no Maracanã, pela 12ª rodada do Campeonato Brasileiro. Será mais uma oportunidade para Jardim consolidar as mudanças táticas e para Lino confirmar que sua reinvenção posicional pode ser a chave para uma campanha vitoriosa na principal competição continental.

