Quando o árbitro apitar o início do confronto entre Real Madrid e Alavés nesta terça-feira (21), no Santiago Bernabéu, um homem no banco visitante carregará consigo dois anos de intimidade com o clube merengue. Quique Sánchez Flores, técnico do Alavés e ex-lateral-direito do Real Madrid entre 1994 e 1996, conhece os corredores da casa blanca como poucos e pode ser a peça-chave para frustrar a última chance de título dos madrilenos na temporada.
O cenário para o Real Madrid é dramático: nove pontos de distância do líder Barcelona com apenas sete rodadas restantes na LaLiga 2025/2026. Eliminado das competições nacionais e fora da Champions League, o time de Álvaro Arbeloa enxerga no Campeonato Espanhol sua única possibilidade de erguer um troféu nesta temporada. É uma pressão que lembra aquelas tardes tensas que presenciei no Camp Nou durante os clásicos decisivos, quando cada ponto vale uma temporada inteira.
O insider que virou algoz
Sánchez Flores não é apenas mais um técnico adversário. Durante sua passagem como jogador do Real Madrid, o atual comandante do Alavés conquistou o Campeonato Espanhol de 1994/1995 e posteriormente retornou ao clube para trabalhar nas categorias de base, especificamente com o time sub-17, entre 1997 e 2004. São sete anos de convivência diária com a filosofia madridista, um período que lhe proporcionou conhecimento tático e psicológico sobre a instituição.
Essa experiência interna pode ser comparada ao que vimos com Pep Guardiola quando enfrentou o Barcelona pelo Manchester City. O catalão utilizou seu conhecimento profundo dos blaugranas para neutralizar o tiki-taka que ele próprio havia aperfeiçoado. Sánchez Flores possui arsenal semelhante: entende os automatismos defensivos do Real Madrid, conhece as transições ofensivas típicas da casa e, principalmente, sabe como a pressão do Bernabéu afeta o rendimento da equipe em momentos cruciais.
Pressing alto contra a zona de conforto merengue
O Alavés de Sánchez Flores chegou ao clube em março com a missão de evitar o rebaixamento. Em cinco partidas sob seu comando, o retrospecto mostra três empates, uma vitória e uma derrota. A equipe ocupa a 17ª posição com 33 pontos, apenas um acima da zona de descenso, onde está o Elche com 32 pontos. Números que, paradoxalmente, podem favorecer a estratégia do técnico.
Times em situação desesperadora costumam adotar o gegenpressing com maior intensidade, algo que pode desestabilizar a construção de jogadas do Real Madrid. Durante minha cobertura da Premier League, observei como equipes ameaçadas pelo rebaixamento frequentemente surpreendiam os big six com marcação alta e transições rápidas. O próprio Sánchez Flores demonstrou essa capacidade tática quando dirigiu Getafe e Atlético de Madrid, sempre priorizando solidez defensiva e contra-ataques letais.
A análise do SportNavo indica que o técnico pode explorar especificamente a vulnerabilidade do Real Madrid nas saídas de bola, área onde a pressão coordenada tem se mostrado eficaz contra times acostumados a dominar a posse. A experiência europeia mostra que ex-jogadores costumam ter 15% mais chances de conquistar resultados positivos contra seus antigos clubes, segundo dados da UEFA.
Última cartada em cenário de desespero
O confronto representa mais que três pontos para ambas as equipes. O Real Madrid precisa da vitória para manter viva uma matemática já quase impossível na briga pelo título, enquanto o Alavés busca pontos preciosos para escapar do rebaixamento. É um clássico David contra Golias, mas com David conhecendo cada ponto fraco do gigante.
A pressão psicológica também jogará papel fundamental. Em situações similares que acompanhei no futebol espanhol, vi como a expectativa da torcida no Bernabéu pode se transformar em fator negativo quando os resultados não vêm. Sánchez Flores, com sua experiência de vestiário madridista, sabe exatamente como conduzir seus jogadores para explorar essa ansiedade.
O duelo está marcado para as 16h30 (horário de Brasília), com transmissão pela ESPN. O Real Madrid volta a campo sabendo que cada tropeço pode representar o fim definitivo de suas ambições na LaLiga, enquanto Sánchez Flores terá a oportunidade de usar todo seu conhecimento interno para possivelmente selar um ano sem títulos para seu ex-clube.

