Quando Willian José cabeceou para o fundo das redes aos 37 minutos do segundo tempo e igualou o placar na Arena Fonte Nova, o Santos encerrou ali qualquer chance de vitória e confirmou um padrão que assombra a temporada: a dificuldade de sustentar resultados sem Neymar em campo. O 2 a 2 diante do Bahia, pela 13ª rodada do Campeonato Brasileiro, deixou o Peixe na 15ª colocação com 14 pontos, a sete do adversário desta tarde, que chega a 21 e ocupa provisoriamente o G-4.
A decisão de poupar o camisa 10
A comissão técnica optou por não escalar Neymar em Salvador, alegando a alta sequência de jogos recente do atacante. O foco declarado é preservá-lo para a partida contra o San Lorenzo, na quinta-feira (30), em Buenos Aires, pela Copa Sul-Americana. A decisão é tecnicamente compreensível, mas o resultado desta tarde reaviva o debate sobre a dependência do Santos em relação ao seu principal jogador — uma equação que o clube jamais conseguiu resolver desde o retorno do ídolo. Nas redes sociais, torcedores foram diretos ao cobrar a ausência do camisa 10, apontando-o como o diferencial que poderia ter garantido os três pontos em situação de vantagem.
Rollheiser carregou o time, mas não foi suficiente
Na ausência de Neymar e também de Gabigol, foi o meia-atacante argentino Hernán Rollheiser quem assumiu a responsabilidade ofensiva. Ele converteu dois pênaltis no primeiro tempo: o primeiro aos 21 minutos, após Erick Pulga derrubar Gabriel Bontempo — lance confirmado pelo VAR —, e o segundo nos acréscimos, depois de a bola tocar no braço de Ramos Mingo em cruzamento de Thaciano. A vantagem de 2 a 0 no intervalo parecia mais do que suficiente para uma tarde tranquila.

O Bahia, porém, voltou do vestiário com outra postura. Rogério Ceni havia sido hostilizado pela própria torcida na saída para o intervalo, sob vaias e gritos pedindo sua saída. O ambiente de pressão, paradoxalmente, parece ter acordado o Tricolor de Aço: Luciano Juba descontou aos 30 minutos com cobrança de falta de efeito precisa, que ainda tocou na trave antes de entrar, surpreendendo o goleiro Diógenes que estava adiantado. Sete minutos depois, Erick Pulga cruzou pela direita e Willian José apareceu livre para cabecear — 2 a 2 e a vitória foi por água abaixo.
"Foi um bom jogo. Deixamos escapar a vitória por um detalhe. Sabemos que era uma grande equipe, eles jogaram diante de sua torcida. Temos que melhorar, pequenos detalhes para não cometer os mesmos erros nas próximas partidas", disse Rollheiser ao Premiere.
O argentino ainda fez questão de contextualizar seu momento individual dentro do grupo:

"Estou contente por somar alguns minutos e por conseguir ajudar a equipe. Tenho que estar sempre preparado para ser acionado pela comissão técnica e continuar ajudando a equipe."
O padrão que incomoda — e a história que se repete
A análise do SportNavo sobre o desempenho do Santos em 2026 aponta um padrão consistente: o time apresenta maior fragilidade defensiva no segundo tempo quando enfrenta adversários de maior porte sem seus principais criadores em campo. O 2 a 2 de Salvador não é um episódio isolado — é a síntese de uma limitação que o elenco ainda não conseguiu superar coletivamente. Para dimensionar a fragilidade: em jogos nos quais Neymar não entrou em campo desde o início na temporada, o Santos não somou nenhuma vitória fora de casa no Brasileirão.
Historicamente, o Santos já viveu este dilema em outras épocas. Na década de 1960, a dependência de Pelé era tão acentuada que Lula, presidente do clube à época, chegou a afirmar que o time sem o Rei era "uma orquestra sem maestro". O Santos de 2026 não está naquele patamar de elenco, evidentemente, mas a lógica da dependência criativa de um único jogador guarda paralelos incômodos. Rollheiser foi o melhor em campo neste sábado, com dois gols e participação direta nas jogadas de maior perigo, mas foi substituído por Miguelito no segundo tempo — exatamente o período em que o Bahia virou o jogo emocionalmente.
O que vem pela frente
A situação do Santos na tabela é delicada. Com 14 pontos em 13 rodadas, o Peixe pode entrar na zona de rebaixamento ao final desta rodada, caso Grêmio e Corinthians vençam seus respectivos compromissos. O clube disputa três competições simultaneamente — Brasileirão, Copa Sul-Americana e Copa do Brasil —, e a gestão do elenco, especialmente de Neymar, será um dos maiores desafios de Cuca nas próximas semanas. O próximo teste no Campeonato Brasileiro será de altíssima dificuldade: no sábado (3), o Santos recebe o Palmeiras no Allianz Parque, às 18h30, pela 14ª rodada — um confronto no qual a presença ou ausência do camisa 10 pode definir muito mais do que apenas três pontos.









