O Santos oficializou uma dívida de R$ 90,5 milhões com a NR Sports, empresa que gerencia a carreira de Neymar Jr., resultado direto de cláusulas contratuais estabelecidas em 2009, quando o atacante tinha apenas 17 anos. O montante, que se acumula há mais de uma década, transformou-se no maior passivo individual da história do clube praiano e levou a diretoria a oferecer o CT Rei Pelé como garantia judicial.
A dívida tem origem no contrato de formação assinado entre Santos e Neymar em março de 2009, documento que previa participações em transferências futuras e direitos de imagem. Na época, o jovem atacante recebia salário de R$ 20 mil mensais, mas o acordo estabelecia que o clube manteria 40% dos direitos econômicos em caso de venda internacional e 25% dos rendimentos com direitos de imagem durante toda a carreira profissional do jogador.
Cláusulas que geraram o débito milionário
O núcleo da disputa judicial concentra-se em três dispositivos contratuais específicos. A primeira cláusula garantia ao Santos participação de 40% em qualquer transferência de Neymar para clubes estrangeiros, percentual que deveria ser mantido mesmo após sucessivas vendas. Quando o Barcelona pagou 57,1 milhões de euros ao Santos em 2013, o clube brasileiro recebeu apenas parte do montante devido.
A segunda fonte de litígio refere-se aos direitos de imagem. O contrato de 2009 assegurava ao Santos 25% de todos os rendimentos publicitários de Neymar durante sua carreira, incluindo contratos com Nike, Red Bull e outras marcas globais. Entre 2013 e 2024, estes valores atingiram cifras superiores a 200 milhões de euros, mas o repasse ao Santos ficou aquém do estabelecido contratualmente.
A terceira cláusula controversa envolvia bônus por títulos conquistados pelo jogador. O acordo previa pagamentos escalonados baseados em conquistas individuais e coletivas: R$ 500 mil por cada título de liga nacional, R$ 2 milhões por Champions League e R$ 5 milhões por Copa do Mundo. Com as conquistas de Neymar no Barcelona e PSG, somadas aos êxitos pela Seleção Brasileira, o montante acumulado superou R$ 15 milhões.
Precedentes contratuais na base santista
A situação de Neymar não representa caso isolado na história recente do Santos. Em 2019, o clube enfrentou disputa similar com Robinho, relacionada a um contrato de 2002 que previa participação em direitos de imagem durante 15 anos. O valor da causa atingiu R$ 12 milhões, resolvido através de acordo extrajudicial em 2021.
Anteriormente, em 2015, o Santos havia negociado com o Real Madrid cláusulas semelhantes no contrato de Rodrygo Goes. Aprendendo com os precedentes de Neymar, o clube estabeleceu prazos de vigência limitados a cinco anos para direitos de imagem e 20% de participação em transferências, evitando passivos de longo prazo.
O advogado especialista em direito desportivo Paulo Schmitt, que representou o Santos em casos anteriores, explicou que contratos de formação assinados antes de 2013 continham "cláusulas perpétuas que se tornaram armadilhas financeiras para os clubes brasileiros, especialmente quando os jogadores atingiam patamares de rendimento internacional".
Centro de Treinamento como garantia judicial
A oferta do CT Rei Pelé como garantia representa medida extrema na tentativa de evitar bloqueios judiciais mais severos. A propriedade, localizada em Santos e avaliada em R$ 120 milhões, abriga as categorias de base e foi inaugurada em 2006 com investimento de R$ 45 milhões.

Segundo documentos do processo, a NR Sports solicitou inicialmente o bloqueio de contas bancárias e receitas de bilheteria do Santos. A diretoria, presidida por Marcelo Teixeira, optou pela garantia real para manter o fluxo de caixa operacional, especialmente durante a disputa da Série B do Campeonato Brasileiro.
"Preferimos oferecer uma garantia sólida para preservar nossa capacidade de honrar compromissos correntes com funcionários e fornecedores", declarou o presidente Marcelo Teixeira em coletiva no dia 15 de janeiro.
O Santos disputa atualmente a Série B do Campeonato Brasileiro pela primeira vez em sua história centenária. O próximo compromisso da equipe será contra a Ponte Preta, no dia 2 de fevereiro, na Vila Belmiro, partida que pode definir a liderança do Grupo A da primeira fase.

