Quinta-feira, 14 de maio de 2026. Enquanto Rui Costa e Rafinha embarcavam para Florianópolis para se sentar com Dorival Júnior, o presidente Harry Massis ainda ecoava em áudio vazado chamando de loucura o salário do treinador. Essa contradição não é detalhe — ela resume a crise de gestão que o São Paulo tenta disfarçar com urgência.
O diagnóstico que o áudio de Massis expõe sem querer
A eliminação para o Juventude na Copa do Brasil, na noite de quarta-feira (13/5), foi apenas o gatilho. O problema é anterior: o São Paulo demitiu Roger Machado sem ter um plano B desenhado, porque o presidente havia garantido publicamente a manutenção do técnico. O áudio vazado de Massis — no qual ele afirma que não havia dinheiro para nova multa rescisória e que os valores de Dorival eram uma loucura — foi gravado antes mesmo da eliminação. Em outras palavras, o clube decidiu trocar o treinador contrariando a própria avaliação financeira que seu presidente havia feito dias antes. Isso é improviso, não gestão.
A demissão de Roger vai custar R$ 2,4 milhões em multa rescisória. Somada às dívidas ainda pendentes com Hernán Crespo, Zubeldía e o próprio Dorival — que juntas ultrapassam R$ 10 milhões —, a situação financeira do clube torna qualquer negociação salarial acima de R$ 2 milhões mensais um exercício de fé, não de planejamento.
Os números que tornam a negociação com Dorival tão difícil
Roger Machado e sua comissão custavam R$ 800 mil mensais. Dorival Júnior recebeu entre R$ 2,8 milhões e R$ 3 milhões por mês no Corinthians — clube que o demitiu no mês passado após 63 jogos, com aproveitamento de 49,7% (25 vitórias, 19 empates, 19 derrotas). A missão que Rui Costa e Rafinha carregam para Florianópolis é convencer o treinador a trabalhar por no máximo R$ 2 milhões mensais, uma redução de pelo menos 28% sobre o que ele recebia no rival.
Quem defende a viabilidade do acordo argumenta que Dorival já demonstrou disposição para negociar. De fato, há sinais concretos nessa direção: segundo o jornalista Gabriel Sá, do UOL, o treinador sinalizou que aceita reduzir seus valores, mas condicionou a negociação a garantias sobre a montagem do elenco para o segundo semestre — janela internacional que abre em 20 de julho e fecha na primeira semana de setembro. Esse é o ponto que transforma a conversa salarial em algo mais complexo: Dorival não quer só dinheiro, quer poder de decisão sobre o plantel.
Aqui entra um dado que o SportNavo levantou a partir do histórico recente do técnico: na Copa do Brasil de 2023, quando Dorival conquistou o título inédito pelo São Paulo, o índice de pressão defensiva do time — medido pelo PPDA (passes permitidos por ação defensiva, métrica que indica o quanto uma equipe pressiona o adversário na saída de bola; quanto menor o número, maior a intensidade da pressão) — caiu de forma consistente a cada fase eliminatória. Isso não acontece por acaso: Dorival precisa de peças específicas para implementar seu modelo. Se o clube não garantir reforços compatíveis, o risco de repetir o desgaste da Seleção Brasileira é real.
Por que Dorival ainda faz sentido apesar do preço
O contra-argumento mais razoável contra a contratação de Dorival é simples: seu aproveitamento no Corinthians foi medíocre. 49,7% em 63 jogos é um número que qualquer treinador de clube grande no Brasil consideraria insuficiente. Mas esse argumento ignora o contexto. O Corinthians de 2025 era um clube em recuperação judicial, com folha salarial comprimida e ambiente político hostil. O São Paulo, apesar das dívidas, oferece um elenco mais qualificado e um histórico de entrosamento com o próprio treinador.
Mais relevante do que o número absoluto de vitórias no Corinthians é o que Dorival entregou quando teve condições adequadas: Copa do Brasil de 2023 e Supercopa Rei de 2024 pelo próprio São Paulo, além de Copa do Brasil e Supercopa do Brasil pelo Corinthians. São quatro títulos em menos de três anos. Nenhum dos nomes alternativos disponíveis no mercado — Vojvoda, desempregado após passagem discreta pelo Santos; Rogério Ceni, preso ao Bahia enquanto a situação não explodir — chega perto desse currículo recente.
A diretoria são-paulina aposta em três trunfos concretos para convencer Dorival: a saída sem desgaste em 2024 (ele deixou o clube em comum acordo para assumir a Seleção, sem ruptura política), a boa relação construída com lideranças do elenco durante a conquista da Copa do Brasil, e a promessa de participação ativa nas decisões de mercado no segundo semestre.

Os cenários das próximas semanas
Se o acordo sair entre R$ 2 milhões e R$ 2,3 milhões mensais, o São Paulo fecha uma contratação que, apesar do custo elevado para a realidade atual do clube, é defensável pelo histórico e pela urgência do momento. Se Dorival mantiver a exigência próxima de R$ 2,8 milhões, a negociação desmorona — e o Tricolor terá de partir para alternativas que, hoje, nenhum dirigente quer admitir publicamente.
Rogério Ceni só entra no radar se for demitido pelo Bahia, clube que acaba de sofrer nova eliminação, agora na Copa do Brasil para o Remo — situação classificada internamente como crítica. Vojvoda está disponível, mas seu trabalho no Santos foi apagado o suficiente para gerar resistência dentro do Morumbi. Nenhum dos dois tem a capacidade de reorganização de ambiente que Dorival demonstrou em 2023, quando o São Paulo vivia crise semelhante à atual.
O São Paulo volta a campo pelo Brasileirão nos próximos dias, ainda sem técnico definido. Cada rodada sem comando fixo amplia o desgaste sobre um elenco que já perdeu confiança. A pergunta que a diretoria precisa responder rápido é objetiva: Dorival aceita R$ 2 milhões mensais e as garantias sobre reforços que o clube consegue oferecer — ou o São Paulo terá de escolher entre pagar acima de sua capacidade e apostar em um nome que claramente não é sua primeira opção?








