Se a Copa do Mundo começasse hoje, o Brasil entraria como quinto favorito, no melhor cenário. Não é especulação de torcedor pessimista — é a avaliação do próprio Casemiro, um dos jogadores mais experientes do elenco e candidato a capitão no torneio de junho e julho. Em entrevista à ESPN, o volante do Manchester United listou Espanha, França, Argentina e Portugal como seleções com processo de preparação mais avançado que o brasileiro. A diferença é que, enquanto esses países chegam ao Mundial com projetos táticos consolidados e ciclos técnicos de pelo menos três anos, o Brasil chega com Carlo Ancelotti há menos de dois meses no cargo.
A realidade é que esse cenário não é hipotético. Ele já está se materializando.
Três anos vagando e o custo real da instabilidade técnica
Depois da eliminação nas quartas de final do Catar em 2022 — derrota nos pênaltis para a Croácia — a CBF iniciou o que pode ser chamado, sem eufemismo, de o período mais caótico da história recente da Seleção. Fernando Diniz foi contratado como técnico interino enquanto a entidade negociava com Ancelotti, que só liberou o Real Madrid no fim de 2025. No intervalo, Dorival Júnior assumiu, convocou um grupo diferente do que Diniz utilizava e deixou Casemiro fora das listas por meses. O próprio jogador resumiu o período com uma franqueza que raramente se ouve de dentro do vestiário.
"Quando o Tite saiu, depois da Copa de 2022, a gente não sabia para onde ir. Ficou meio sem rumo. Para onde que a gente vai? Qual é a linha a seguir? E quem é o chefe aqui? A gente meio que ficou vagando. Diria que a gente ficou três anos ali um pouco sem rumo", disse Casemiro.
Três anos sem rumo, em linguagem de tabela, significam pelo menos 30 partidas oficiais jogadas sem identidade tática definida, com convocações que variaram de acordo com o gosto de cada treinador. Para efeito de comparação, a Espanha chega ao Mundial com Luis de la Fuente no cargo desde dezembro de 2022, com um título da Euro 2024 no currículo e um modelo de jogo que seus jogadores já executam de memória. A França, com Didier Deschamps há mais de uma década, tem estrutura de seleção que funciona quase independentemente dos nomes convocados.
O peso histórico de uma sequência que ninguém quer calcular
O Brasil não vence uma Copa do Mundo desde 2002, quando Ronaldo Fenômeno marcou dois gols na final contra a Alemanha em Yokohama. Desde então, o roteiro se repetiu com variações dolorosas: quartas de final em 2006 (derrota para a França), quartas em 2010 (derrota para a Holanda), semifinal em 2014 (o 7 a 1 para a Alemanha, em casa), quartas em 2018 (derrota para a Bélgica) e quartas em 2022 (Croácia nos pênaltis). São cinco edições consecutivas sem chegar à final. Se o Brasil for eliminado nas quartas em 2026, será a quarta vez em quatro Mundiais — uma sequência que, na história do pentacampeão, só tem paralelo no período pré-1958, quando o país ainda buscava seu primeiro título.

A aposta de Casemiro é que o baixo favoritismo pode funcionar como combustível.
"Deixa o Brasil ali. A gente vai ganhando joguinho após joguinho e cresce dentro da competição", afirmou o volante, que também reconheceu a limitação do tempo com Ancelotti: "Nós estivemos com ele 40 dias, e 40 dias no futebol você não está nem começando ainda, não está nem conhecendo".
O Mundial que os hotéis americanos já não querem mais
Enquanto o Brasil tenta resolver sua crise interna, o torneio em si enfrenta turbulências logísticas que podem afetar a experiência do torcedor. Um relatório fechado em abril pela American Hotel & Lodging Association (AHLA), que representa 30 mil membros e 80% das franquias de hotéis nos Estados Unidos, aponta que mais de 80% dos hoteleiros ouvidos considera a demanda de Copa decepcionante e abaixo do esperado. A associação acusa a Fifa de ter bloqueado blocos de quartos em todas as cidades-sede e depois devolvido esses quartos sem reservas — em alguns casos, 85% dos quartos foram liberados desocupados às vésperas do torneio.
A Fifa contesta a narrativa. Em nota oficial, a entidade afirma que "todas as liberações de quartos foram realizadas em conformidade com os prazos contratualmente acordados" e que já foram comercializados mais de 5 milhões de ingressos, grande parte por torcedores internacionais. Fontes ligadas à Fifa ouvidas pelo SportNavo apontam que a baixa demanda hoteleira pode ter relação com a expansão de plataformas de hospedagem alternativas e com a precificação abusiva praticada por parte dos estabelecimentos. A própria AHLA reconhece outro fator: o endurecimento das políticas de imigração do governo americano, que torna o caminho até os Estados Unidos cada vez mais burocrático e intimidador para torcedores de países como Brasil, México e Argentina — justamente os que mais movimentam ingressos em Copas.
Ancelotti como aposta única num cenário sem margem de erro
A contratação de Carlo Ancelotti representa a maior mudança estrutural da Seleção Brasileira em décadas: pela primeira vez na história, o Brasil vai a uma Copa do Mundo com um técnico estrangeiro. O italiano de 66 anos chega com currículo que inclui quatro títulos da Champions League e passagens por Milan, Chelsea, Paris Saint-Germain, Bayern de Munique e Real Madrid. Mas currículo não substitui tempo de trabalho, e Casemiro foi explícito sobre isso: 40 dias de convivência não são suficientes para construir um sistema.
A janela que resta é estreita. Entre maio e o início do Mundial, em junho, o Brasil terá no máximo duas datas FIFA para treinos e amistosos. Ancelotti precisará definir esquema tático, hierarquia de convocações e gestão de egos — num elenco que inclui Vinicius Jr., Rodrygo, Raphinha e a dúvida permanente em torno de Neymar — em semanas, não meses. As seleções que Casemiro apontou à frente do Brasil tiveram anos para isso. Esse é o déficit real, e ele não some com discurso motivacional.

O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 em junho, em partida que será disputada em solo norte-americano. Se Ancelotti não conseguir imprimir identidade tática mínima nas próximas semanas, a Seleção pode chegar ao torneio com o mesmo problema que Casemiro descreveu: jogadores talentosos, sem saber para onde ir. Nesse caso, a pergunta que fica é concreta — se o Brasil cair nas quartas de final pela quarta vez seguida, a CBF terá coragem de manter Ancelotti para um ciclo de quatro anos rumo ao Mundial de 2030?












