Se a temporada do Real Madrid terminasse hoje, os merengues encerrariam 2025/26 sem uma única taça — algo que só aconteceu cinco vezes no século XXI. Esse cenário, que parecia improvável em setembro, é agora a probabilidade mais concreta que o clube de Chamartín enfrenta. Com 11 pontos de desvantagem para o Barcelona na La Liga e apenas três rodadas restantes, o que restava de esperança matemática depende de um colapso catalão que nada no futebol atual sugere estar próximo.

O que mudou

A temporada começou com o Real Madrid como favorito natural. Campeão da Champions em 2023/24, o clube entrou em 2025/26 com Kylian Mbappé já ambientado, Vinícius Júnior em forma e Carlo Ancelotti no banco. O que ninguém esperava era a sequência de tropeços precoces que transformou o calendário em uma série de despedidas antecipadas. Na Copa do Rei, a eliminação nas oitavas para o Albacete — clube da segunda divisão espanhola — foi o episódio mais constrangedor. Para quem viveu a eliminação para o Alcoyano em 2021, na fase de 16 avos, o padrão de derrotas para adversários de menor porte começa a ser uma assinatura perturbadora.

Na Supercopa da Espanha, o Barcelona foi mais forte e levou o troféu com autoridade. Na Champions League, o Bayern de Munique eliminou os madridistas nas quartas de final, repetindo o roteiro de 2009/10, quando o mesmo clube alemão — então treinado por Louis van Gaal — despachou o Real ainda nas oitavas, na temporada em que o time de Mourinho terminou sem nenhum título apesar de ter acumulado 96 pontos na La Liga. Segundo levantamento do SportNavo, a temporada atual é apenas a sexta vez desde 2000 que o Real Madrid corre o risco de encerrar o ano sem conquistas.

Por que agora

Há uma lógica estrutural nessa crise que vai além das lesões ou de uma sequência de resultados adversos. Pense no que aconteceu em 2018/19, última temporada sem títulos antes de 2020/21: o Real demitiu Lopetegui após 9 jogos, chamou Solari às pressas e depois trouxe Zidane de volta. O elenco estava em colapso identitário, sem saber ao certo qual era seu modelo de jogo. Algo parecido ocorre agora — não no banco, mas no campo. A dependência de Mbappé como finalizador absoluto criou um desequilíbrio tático que adversários organizados souberam explorar. O Bayern, por exemplo, comprimiu os espaços entre as linhas e forçou o Real a construir pelo lado, onde a equipe é menos eficiente.

A analogia que me vem à cabeça é a de Moneyball — o filme sobre o Oakland Athletics que precisou reinventar sua lógica de montagem de elenco após perder seus melhores jogadores. O Real Madrid não perdeu ninguém para transferências, mas perdeu algo mais difícil de repor: o equilíbrio coletivo que Modric, Kroos e Casemiro garantiam no meio-campo durante quase uma década. Tchouaméni, Camavinga e Valverde são bons jogadores, mas ainda não formam uma engrenagem com a mesma consistência. Na avaliação do SportNavo, essa lacuna de controle no meio foi determinante nas eliminações desta temporada.

A comparação com 2020/21 é inevitável. Naquela campanha, o Real terminou a dois pontos do Atlético de Madrid na La Liga — 84 a 86 — e caiu para o Chelsea nas semis da Champions. Havia uma lógica de time competitivo que simplesmente não converteu em troféus. Agora a situação é mais grave: 11 pontos de distância para o líder com três rodadas restantes não é azar, é uma diferença de desempenho acumulada ao longo de meses.

O que vem em seguida

O El Clásico do dia 10 de maio, no Camp Nou, é o próximo capítulo obrigatório. Um empate já basta para o Barcelona sagrar-se campeão da La Liga e confirmar o jejum do Real Madrid. Ancelotti, que já sobreviveu a crises maiores na carreira — inclusive sua demissão do próprio Real em 2015 após uma temporada sem títulos —, terá de decidir se arrisca em busca da vitória ou se administra o placar para evitar uma goleada que agravaria ainda mais o saldo de gols da equipe. Depois do Clásico, o Real ainda enfrenta o Oviedo em casa no dia 14 de maio e o Sevilla fora no dia 17, dois jogos que servirão apenas para fechar contas — sem nenhum título em disputa.

A questão que o clube precisará responder no verão europeu é mais profunda do que uma contratação pontual. Das cinco temporadas sem títulos no século, três foram seguidas de reformulações significativas: em 2005/06, o Real contratou Fabio Capello e venceu a La Liga no ano seguinte com 76 pontos; em 2009/10, Mourinho chegou e construiu o time que fez 100 pontos em 2011/12 — recorde histórico da competição. A história sugere que o Real Madrid tem capacidade de reação rápida. Mas sugere também que o preço dessa reação costuma ser alto. O relógio para 2026/27 começa a contar no apito final do dia 17 de maio, com o Real Madrid há 11 pontos do topo.