Fraturou. Pela sexta vez em menos de seis meses, um jogador do Flamengo deixa o campo com osso comprometido — e, pela sexta vez, nenhum adversário foi expulso pela jogada que originou a lesão. O volante Jorginho confirmou fratura no dedão do pé direito nesta segunda-feira (25/5), após exames realizados pela manhã. A lesão foi atribuída pelo clube a duas faltas violentas sofridas no primeiro tempo da derrota por 3 a 0 para o Palmeiras, no Maracanã, no último sábado (23/5), pelo Campeonato Brasileiro.
A fratura de Jorginho e o padrão que o Flamengo documenta
O boletim médico publicado pelo clube foi incomum pela extensão da crítica institucional que o acompanhou. Além de informar a lesão — que tira Jorginho do jogo desta terça (26/5) contra o Cusco, pela última rodada da fase de grupos da Libertadores, e coloca em risco sua presença diante do Coritiba no dia 30 —, o Flamengo produziu um argumento estatístico deliberado. O comunicado oficial afirmou que, em nenhuma das seis fraturas registradas na temporada, o atleta adversário responsável pela falta foi expulso. Em alguns casos, como no sábado, sequer o cartão amarelo foi aplicado.
"A lesão é fruto de duas faltas violentas sofridas no primeiro tempo de Flamengo x Palmeiras, nas quais o jogador adversário sequer foi advertido com cartão amarelo. Em nenhuma das jogadas que originaram tais lesões, o atleta adversário foi expulso", escreveu o clube em nota oficial.
A falta que abriu o jogo foi de Andreas Pereira — ex-jogador do próprio Flamengo — sobre Jorginho, aos 30 segundos de partida. O volante seguiu em campo e foi substituído apenas aos 41 minutos do segundo tempo, o que torna imprecisa a atribuição direta da fratura a um único lance. Mas o clube sustenta que foram duas entradas violentas no primeiro tempo, e a narrativa institucional já está consolidada.
Jorginho, aliás, acumula três problemas físicos nesta temporada: lesão muscular na coxa esquerda durante a Supercopa do Brasil, em fevereiro; lesão na panturrilha esquerda em abril, contra o Santos; e agora a fratura. O jogador pode retornar apenas após a pausa para a Copa do Mundo, o que significa que o Flamengo enfrenta o Coritiba, na 18ª rodada, com até dez desfalques confirmados.
A assimetria disciplinar que o clube expõe com dados
Há um dado que o Flamengo fez questão de colocar no mesmo comunicado, e que merece atenção analítica: o clube é o 12º em número de faltas cometidas no Brasileirão, mas lidera o ranking de expulsões, com seis cartões vermelhos — cinco deles diretos. Nenhuma dessas expulsões resultou em lesão ou saída de campo do adversário. A assimetria é estrutural: o clube que menos falta (relativamente) é o que mais é punido com vermelho; o clube que mais sofre fraturas não vê um adversário expulso sequer.
No futebol brasileiro, costuma-se dizer que "quem não tem cão caça com gato" — e o Flamengo parece ter adotado a nota médica como instrumento de pressão institucional diante da ausência de outros mecanismos formais de proteção ao atleta. A pergunta que fica é se a CBF e a Comissão de Arbitragem acompanham esse tipo de documentação sistemática produzida pelos clubes.
O técnico Leonardo Jardim foi direto na coletiva após a derrota para o Palmeiras:
"O que eu percebo é: contra o Flamengo, é fácil tirar o cartão vermelho e dar. Isso eu entendo muito bem. Um jogo em que o árbitro optou por um nível de agressividade alto, o Jorginho levou uma porrada aos 30 segundos, e o árbitro não disse nada, mandou jogar", afirmou Jardim.
A expulsão de Carrascal, que ocorreu no mesmo jogo, foi mantida pelo VAR após o colombiano acertar o rosto do zagueiro Murilo com a sola da chuteira. O árbitro Davi Lacerda enquadrou o lance como "jogo brusco grave". Jardim discordou da classificação, argumentando que pé alto normalmente resulta em amarelo. Carrascal, que acumula três expulsões em 2026 — na Supercopa, contra o Fluminense e agora contra o Palmeiras —, será multado pelo clube conforme regimento interno, mas não será afastado.
Nove vermelhos em cinco meses e o que isso revela sobre o Flamengo
A dimensão do problema disciplinar fica mais clara quando comparada com a temporada anterior: em todo o ano de 2025, o Flamengo encerrou com oito cartões vermelhos. Em 2026, já são nove em apenas cinco meses — uma média de aproximadamente dois por mês. Dos nove, sete foram vermelhos diretos: dois por reclamação, dois por agressão, dois por faltas duras e um por imprudência. Carrascal lidera com três; Jorginho, Evertton Araújo, Erick Pulgar, Danilo e Carbone completam a lista, além do próprio Jardim.
Na avaliação do SportNavo, o que os dados revelam não é necessariamente um elenco indisciplinado por natureza, mas uma combinação de fatores que se retroalimentam: jogadores com perfil de marcação intensa (Jorginho, Evertton Araújo, Pulgar), um colombiano de alto risco disciplinar em posição de criação (Carrascal) e uma leitura de arbitragem que, segundo o próprio clube documenta, pune o Flamengo com maior frequência do que pune seus adversários em situações análogas. Nos seis jogos em que teve jogador expulso no Brasileirão, o Flamengo venceu apenas uma vez — o clássico contra o Fluminense — e acumulou três derrotas e dois empates.
A questão que transcende o clube é a seguinte: existe no futebol brasileiro um protocolo formal que correlacione lesões com decisões arbitrais e gere retroalimentação para a Comissão de Arbitragem da CBF? A resposta, até agora, parece ser não — e a nota do Flamengo desta segunda-feira funciona, na prática, como um dossiê informal que nenhuma instância é obrigada a processar.
O Flamengo volta a campo nesta terça-feira (26/5), às 21h30, contra o Cusco, no Maracanã, pela última rodada da fase de grupos da Libertadores — sem Jorginho e com Carrascal cumprindo a suspensão automática de um jogo pela expulsão. No sábado (30/5), às 16h, enfrenta o Coritiba pelo Brasileirão, em partida que marca a última rodada antes da pausa para a Copa do Mundo. Quem quiser medir o impacto real dessas ausências sobre o desempenho do time tem, nos próximos cinco dias, dois jogos consecutivos para observar.












