Diz-se que o Flamengo tem um dos melhores aproveitamentos fora de casa do futebol brasileiro moderno. Tecnicamente, os números desta sequência confirmam isso — 61,1% dos pontos disputados em seis partidas longe do Rio de Janeiro. Na prática, porém, esse índice carrega uma ressalva que muda a leitura: um dos resultados que compõe a conta foi conquistado no tribunal, não em campo, depois que torcedores colombianos invadiram o gramado do Atanasio Girardot com bombas e pedras, inviabilizando o jogo contra o Independiente Medellín pela Libertadores. O aproveitamento é real, mas a história por trás dele é mais complexa do que o número sugere.
Uma rota de aeroportos que começou bem em Belo Horizonte
A maratona teve início com o melhor cenário possível: uma goleada por 4 a 0 sobre o Atlético-MG, no Brasileirão, em Belo Horizonte. Para quem acompanha a história dos confrontos entre Flamengo e Galo fora do Rio, o placar foi expressivo — o Rubro-Negro não costuma vencer com tal margem no Mineirão. Dali, a delegação embarcou para Buenos Aires, onde arrancou um empate por 1 a 1 com o Estudiantes pela fase de grupos da Libertadores. Historicamente, qualquer ponto conquistado na Argentina tem peso específico: desde a campanha vitoriosa de 2019, o Flamengo aprendeu que viagens ao Prata exigem controle emocional tanto quanto qualidade técnica.

O retorno ao Rio durou pouco. O clássico contra o Vasco, pelo Brasileirão, terminou em 2 a 2 — único jogo da sequência disputado no estado — e a delegação voltou a desfazer as malas para embarcar rumo à Colômbia. O que aconteceu em Medellín já entrou para os registros bizarros da competição continental: o jogo foi suspenso minutos após o apito inicial, com a torcida local atirando objetos proibidos dentro do estádio. As forças de segurança atestaram a impossibilidade de garantir proteção, e o Flamengo acionou a Conmebol para reivindicar o W.O. — três pontos que, segundo apuração do SportNavo, o clube já contabiliza como praticamente certos no tribunal.
O peso do cansaço apareceu nos momentos mais caros
Sem folga após o episódio colombiano, o elenco seguiu para Porto Alegre. Lá, superando o cansaço acumulado de voos e fuso horário comprimido, o Flamengo venceu o Grêmio por 1 a 0 pelo Campeonato Brasileiro — resultado que demonstra resiliência, mas que os dados de intensidade de jogo ajudam a contextualizar. O PPDA (passes permitidos por ação defensiva, métrica que mede o quanto uma equipe pressiona o adversário na saída de bola) do Flamengo neste período caiu visivelmente em relação à média registrada nos jogos em casa: em termos simples, o time pressionou menos, recuou mais e apostou na transição rápida para economizar energia. Contra equipes mais qualificadas, essa estratégia tem custo.
O custo chegou na sequência: derrota por 2 a 0 para o Vitória e eliminação precoce da Copa do Brasil. Para quem viveu as campanhas rubro-negras de 2006 e 2013, quando o clube também caiu cedo na competição nacional por subestimar adversários do Nordeste, a saída antecipada tem sabor amargo de déjà vu. A maratona encerrou em Curitiba, com empate por 1 a 1 diante do Athletico-PR pelo Brasileirão — resultado que, no contexto do desgaste, pode ser lido como ponto conquistado tanto quanto ponto perdido.
"O elenco não recebeu folga após o jogo em Curitiba. Nesta segunda-feira (18), Leonardo Jardim já comanda a primeira atividade com foco no Estudiantes", segundo informações apuradas pela reportagem.
Jardim treina o Flamengo sem pausa enquanto a Libertadores exige liderança de grupo
Nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, enquanto boa parte dos atletas de outras equipes descansava, o elenco rubro-negro se apresentou no Ninho do Urubu às 11h (horário de Brasília) para iniciar a preparação visando a quinta rodada da fase de grupos da Libertadores. O adversário é o mesmo Estudiantes que empatou com o Flamengo em Buenos Aires — desta vez, porém, o palco será o Maracanã, na quarta-feira (20), às 21h30, com transmissão na TV aberta pela Rede Globo.
A classificação às oitavas de final está encaminhada, mas o objetivo de Leonardo Jardim é terminar o Grupo A na primeira colocação. Com o W.O. contra o Medellín praticamente confirmado, o Flamengo chegaria à quinta rodada com condições de selar a liderança diante de sua própria torcida — o que, historicamente, tem peso simbólico e prático. Nas edições de 2019 e 2022, o Rubro-Negro utilizou a fase de grupos para rodar o elenco e chegou às fases eliminatórias com jogadores em condições físicas distintas justamente por ter gerenciado a carga nas últimas rodadas. Jardim, que assumiu o clube nesta temporada de 2026, ainda não passou por esse teste de gestão em competição continental.
"Apesar de estar praticamente garantido nas oitavas de final da Libertadores, o Fla luta para se classificar em primeiro do Grupo A", registrou a cobertura interna do clube.
A sequência imediata dirá muito sobre como Jardim administra o esgotamento acumulado. O jogo contra o Estudiantes, na quarta-feira, será o primeiro do Flamengo no Maracanã depois de seis partidas fora — e a torcida, que viu o time empatar com o Vasco em casa e acumular resultados irregulares nos últimos meses, vai cobrar uma resposta em campo. Se o técnico vai poupar peças desgastadas ou escalar força máxima para garantir a liderança do grupo: essa é a decisão que define não apenas o resultado de quarta, mas o estado físico do elenco quando as oitavas de final chegarem.









