O barulho da vaia ainda ecoa no Estádio Kleber Andrade. Duas derrotas consecutivas - 2x1 para a Venezuela e 1x0 para o México - selaram o pior início de ciclo olímpico da Seleção Brasileira Feminina em mais de uma década. O calor sufocante de Cariacica não foi páreo para o gelo que tomou conta do gramado brasileiro naqueles 180 minutos de março.

Arthur Elias comandou sua primeira sequência de jogos após Paris 2024 vendo a realidade crua: o Brasil perdeu dois jogos seguidos pela primeira vez desde 2019, quando ainda se recuperava da eliminação precoce na Copa do Mundo da França. A diferença é que agora o abismo parece ainda maior.

Os números que assombram o novo ciclo

A comparação com o período pós-Tóquio 2020 revela um cenário alarmante. Entre agosto de 2021 e dezembro de 2022 - primeiros 16 meses após os Jogos japoneses - a Seleção acumulou 12 vitórias, 3 empates e 4 derrotas, aproveitamento de 68,4%. Marcou 43 gols e sofreu 15.

No mesmo período pós-Paris 2024, considerando apenas os primeiros sete meses, o aproveitamento despencou para 42,8%. São 3 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, com 8 gols marcados e 6 sofridos. A média de gols por jogo caiu de 2,26 para 1,14.

Marta, aos 38 anos, observou da arquibancada em Cariacica a nova geração tropeçar contra adversários que o Brasil costumava superar com tranquilidade. A camisa 10, que anunciou aposentadoria da Seleção após Paris, deixou um vazio técnico e emocional que os números confirmam.

Venezuela e México expõem fragilidade defensiva

A derrota por 2x1 para a Venezuela, em 28 de fevereiro, marcou a primeira vitória das venezuelanas sobre o Brasil na história. Deyna Castellanos, estrela da Vinotinto, aproveitou os espaços deixados pela defesa brasileira para marcar o gol da vitória aos 84 minutos.

Três dias depois, o México repetiu a dose. Kenti Robles balançou as redes aos 38 minutos do primeiro tempo, e o Brasil não conseguiu responder. A equipe de Arthur Elias finalizou 14 vezes contra 8 das mexicanas, mas pecou na pontaria e na criatividade.

"Temos que aceitar que não estamos no nosso melhor momento", admitiu Arthur Elias após a derrota para o México. "Precisamos trabalhar muito para recuperar a confiança."

O técnico herdou um grupo em transição, com apenas cinco jogadoras acima dos 30 anos no elenco convocado para março. A média de idade caiu de 27,3 anos em Tóquio para 24,8 em Paris, e agora gira em torno dos 23,5 anos.

Renovação excessiva ou falta de identidade

O ciclo pós-Tóquio teve Pia Sundhage à frente da equipe por dois anos, seguida por Arthur Elias desde dezembro de 2023. A troca de comando no meio do ciclo olímpico trouxe instabilidade tática que se reflete nos resultados atuais.

Lauren, lateral-esquerda do Kansas City Current, virou titular absoluta aos 22 anos, mas ainda busca a consistência internacional. Gabi Portilho, destaque do Corinthians, assumiu a responsabilidade ofensiva, mas os 3 gols em 7 jogos pela Seleção ainda ficam aquém do esperado.

A ausência de Marta pesa não apenas nos números, mas na liderança dentro de campo. Rafaelle, zagueira e capitã, tenta preencher o vazio, mas reconhece que a herança da camisa 10 é imaterial.

"A Marta não se substitui, a gente se reinventa", disse Rafaelle após os jogos de março. "Estamos aprendendo a ser protagonistas sem ela."

O caminho até o Mundial de 2027

Com 30 meses até a Copa do Mundo de 2027, no Brasil, a Seleção precisa acelerar o processo de amadurecimento. O calendário de 2025 inclui a Copa América Feminina, no Equador, entre julho e agosto, competição que serve como eliminatória mundial.

Arthur Elias tem pela frente o desafio de encontrar o equilíbrio entre juventude e experiência. Jogadoras como Adriana, do Orlando Pride, e Debinha, do Kansas City, representam a ponte entre gerações, mas precisam assumir maior protagonismo.

A próxima Data FIFA, marcada para junho, será crucial para medir a evolução da equipe. O Brasil enfrentará Austrália e Estados Unidos em solo americano, dois testes de fogo que podem definir o rumo do novo ciclo antes da Copa América.