Decidiu. Lionel Scaloni encerrou a especulação nesta sexta-feira (26) ao confirmar, em coletiva de imprensa, que Lionel Messi não começará como titular na última rodada do Grupo J da Copa do Mundo, diante da Jordânia, neste sábado (27). Com cinco gols em dois jogos e a liderança da chave já garantida, o camisa 10 da Argentina vai ao banco — e esse ato de gestão, aparentemente trivial, abre uma das perguntas mais substantivas que esta Copa ainda não respondeu: o que é a Argentina sem ele?

A lógica por trás da ausência de Messi na titularidade

A decisão de Scaloni não nasce do acaso nem da arrogância de quem se sente seguro demais. Ela nasce de uma leitura fria de variáveis que qualquer comissão técnica de alto nível precisa administrar: desgaste físico acumulado, acúmulo de cartões, necessidade de dar rodagem ao elenco e testes táticos para o mata-mata. O jornal argentino Olé projetou que, além de Messi, nomes como Rodrigo De Paul, Alexis Mac Allister e Enzo Fernández também podem começar no banco — o que tornaria este jogo contra a Jordânia quase uma seleção paralela, uma Argentina B que precisa provar que existe.

"A classificação não muda nada para nós; todos nós entraríamos em campo para vencer as duas partidas. Agora vamos analisar a situação. A ideia é dar oportunidade à maioria dos jogadores que merecem jogar", disse Scaloni após a vitória por 2 a 0 sobre a Áustria.

O treinador reforçou, na sexta, que a escolha dos titulares não está relacionada ao nível do adversário — uma declaração que, lida com atenção, é um aviso ao próprio elenco. Scaloni não está escalando reservas apesar da Jordânia; está escalando jogadores que, segundo ele, merecem essa oportunidade independentemente de quem está do outro lado do campo.

"Os que vão jogar amanhã merecem jogar. São parte da convocação. Tem méritos pelo que fizeram. Quando jogam, são os primeiros nos treinos do dia seguinte", afirmou o técnico argentino.

Quem assume o protagonismo e como a tática pode se redesenhar

O Olé projetou uma escalação que indica: Musso ou Rulli; Montiel, Otamendi, Senesi, Tagliafico; Barco, Palacios, Lo Celso, Nico Paz; Giuliano Simeone e Julián Álvarez. Uma equipe que preserva a espinha dorsal defensiva — com Otamendi como âncora — mas reconfigura completamente o meio e o ataque. Simeone aguarda para estrear na Copa. Lo Celso carrega uma narrativa de lesões e ausências que o tornou quase uma figura especular na seleção argentina: sempre convocado, raramente aproveitado.

O nome que mais carrega expectativa, porém, é o de Paulo Dybala. A Joya, que vive uma temporada de alto rendimento pela Roma, representa o tipo de jogador que prospera exatamente quando o holofote se desloca — quando a marcação adversária não sabe mais a quem seguir. Sem Messi como referência gravitacional, Dybala pode ser o elemento de desequilíbrio que a Argentina precisaria para não parecer previsível. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, a dependência estrutural da seleção em relação ao camisa 10 já havia sido apontada como uma vulnerabilidade latente para o mata-mata.

Scaloni também deixou uma pista conceptual importante ao dizer que "não há uma maneira única de ganhar" — frase que, no contexto de uma coletiva pré-jogo, funciona como sinalização tática. A Argentina pode jogar em bloco mais baixo, apostar em transições rápidas com Álvarez e Simeone, ou tentar pressionar alto como faz com Messi. A resposta virá apenas quando o árbitro apitar.

O que este jogo revela sobre a Argentina que vai ao mata-mata

A Jordânia, eliminada e ainda sem pontos no Grupo J, também deve entrar com reservas — segundo o Clarín, a seleção asiática replicará a lógica argentina e aproveitará o jogo para dar minutos a jogadores que não atuaram. A equipe, porém, não é tão inofensiva quanto parece: Scaloni lembrou que a Jordânia perdeu para a Argélia apenas no último minuto e que o confronto contra a Áustria foi igualmente equilibrado. Tratar o adversário com desdém seria, além de um erro analítico, uma contradição com o discurso que o próprio técnico vem construindo ao longo desta Copa.

O que torna este jogo mais relevante do que o placar final é o que ele pode revelar sobre a profundidade do elenco argentino. Seleções que chegam longe em Copas do Mundo raramente dependem de onze nomes fixos — dependem de sistemas que funcionam mesmo quando o melhor jogador do mundo está descansando. A França de 2018 tinha Griezmann e Mbappé, mas também tinha Matuidi e Pavard. A Espanha de 2010 tinha Xavi e Iniesta, mas vencia por 1 a 0 porque o coletivo era maior que qualquer indivíduo.

A Argentina de Scaloni, com 100% de aproveitamento na fase de grupos e Messi como artilheiro com cinco gols, precisará mostrar amanhã que guarda mais de uma forma de ser perigosa. Não por vaidade estética, mas por necessidade estratégica: no mata-mata, qualquer adversário que souber que basta anular Messi para neutralizar a Argentina terá um plano de jogo pronto antes de entrar em campo.

A partida entre Argentina e Jordânia está marcada para este sábado (27). Se Álvarez e os demais reservas entregarem uma performance consistente, Scaloni chegará às oitavas de final com um trunfo adicional — a dúvida que todo adversário terá sobre qual Argentina vai encontrar. O resultado desta noite, seja qual for, será lido com muito mais atenção pelos próximos adversários do que pelos próprios argentinos.