— Mano, você viu que o Barcelona pode não conseguir voo para o amistoso nos Estados Unidos esse verão?
— Que isso, exagero. Isso não acontece.
— A Lufthansa já cancelou 20 mil voos. Não é exagero não.
A conversa acima está acontecendo em bares de Lisboa a Milão. E quem acompanha o calendário do futebol europeu precisa entender o que está por trás dessa crise — porque o impacto vai muito além do turista que perdeu a passagem para Ibiza.
O gargalo que ninguém viu chegar no Estreito de Hormuz
Pense no Estreito de Hormuz como o coletor de admissão de um motor V8: é por ali que passa cerca de 20% do petróleo transportado no mundo inteiro. Quando esse canal se fecha — como aconteceu após o início do conflito com o Irã, no final de fevereiro de 2026 —, a pressão cai em toda a cadeia. O querosene de aviação, chamado tecnicamente de Jet A-1, é derivado direto desse petróleo. Sem o fluxo pelo Estreito, as refinarias do Oriente Médio param de abastecer os tanques europeus.
O resultado é matemático: o preço da tonelada de querosene saltou para cerca de 1.800 dólares em abril de 2026, mais que o dobro do valor pré-guerra, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA). Fatih Birol, diretor da IEA, foi direto ao ponto:
"Os estoques de combustível de aviação devem durar cerca de seis semanas. Se a Meerenge de Hormuz permanecer bloqueada e novos carregamentos não chegarem, voos precisarão ser cancelados em breve."
A Lufthansa não esperou o colapso total: já anunciou o corte de 20 mil voos de curta distância até outubro, economizando aproximadamente 40 mil toneladas de querosene. Até o fim de maio, 120 voos por dia deixam de existir na malha da companhia alemã.
Como isso derruba o calendário de pré-temporada dos clubes
A pré-temporada europeia funciona como o período de shakedown de um carro de corrida: é quando o time testa configurações táticas, integra reforços e constrói ritmo físico longe das câmeras do campeonato. E ela depende, quase integralmente, de voos fretados ou comerciais para amistosos em outros continentes.
O que para o torcedor argentino é uma excursão de ônibus até Montevidéu para um amistoso com o Peñarol, para o torcedor português é uma viagem de 10 horas de avião até Boston ou Los Angeles — sem alternativa terrestre. Clubes como Manchester City, Real Madrid e PSG já têm acordos comerciais com tournées nos Estados Unidos, Ásia e Oriente Médio, exatamente as regiões mais afetadas pela crise de abastecimento.
Ralph Beisel, diretor-executivo da Arbeitsgemeinschaft Deutscher Verkehrsflughäfen (ADV), o equivalente alemão da associação de aeroportos, foi categórico ao jornal Welt am Sonntag:
"Mesmo que o querosene esteja disponível, as companhias aéreas não conseguirão operar muitos voos de forma economicamente viável a esses preços. Hochgerechnet auf alle Flughäfen — projetando para todos os aeroportos — 20 milhões de passageiros seriam afetados."
A lógica é a mesma de um motor com degradação térmica severa nos pistões: o sistema não quebra de uma vez, mas começa a perder eficiência ponto a ponto até que operar se torna inviável. As low-cost, que voam com margens financeiras mínimas, serão as primeiras a cortar rotas — e são exatamente elas que transportam as delegações menores, comissões técnicas e torcedores organizados que viajam para acompanhar amistosos de pré-temporada.
A equação financeira que clubes e federações precisam resolver agora
A UEFA e as ligas nacionais ainda não se pronunciaram oficialmente sobre o tema, mas a conta é simples: um voo fretado transatlântico para uma delegação de 60 pessoas custa, em média, entre 300 mil e 500 mil euros. Com o querosene acima de 80% mais caro — dado confirmado pelo ZDF com base em análises da Rystad Energy —, esse custo sobe para algo entre 540 mil e 900 mil euros. Clubes com contratos de tournée já assinados para o verão de 2026 vão absorver esse delta ou repassar aos organizadores.
A análise do SportNavo sobre o calendário de pré-temporada europeia mostra que ao menos 14 clubes da Premier League e da La Liga têm viagens intercontinentais planejadas entre julho e agosto de 2026. Cancelar esses compromissos implica multas contratuais que podem superar o próprio custo do voo.
Birgit Eger, da redação econômica da WDR, lembrou que até passageiros com passagens já compradas não estão imunes:
"As empresas de turismo podem cobrar até 8% a mais mesmo de quem já reservou — e podem fazer isso sem precisar da concordância do viajante."
Isso significa que torcedores que compraram pacotes para acompanhar o time favorito num amistoso de pré-temporada podem ver o preço subir no último momento, ou simplesmente receber um e-mail de cancelamento.
O que clubes e federações podem fazer antes de julho
A resposta mais imediata já está sendo adotada por algumas entidades: o hedging de combustível, que funciona como um contrato futuro — o clube fecha o preço do querosene hoje para garantir abastecimento no verão, independente do que aconteça no mercado. Muitas companhias aéreas já operam assim com contratos de longo prazo, o que explica por que o choque de preços ainda não chegou com força total às passagens.
Outra alternativa concreta é a realocação geográfica das pré-temporadas: em vez de voos para Los Angeles ou Tóquio, amistosos dentro da Europa, com deslocamento terrestre ou voos de curta distância. A Eurowings, por exemplo, ainda opera rotas europeias com menor impacto do choque de preços, segundo Edi Wolfensberger, COO da companhia, presente no Fórum de Aviação da AIA realizado em Salzburgo no início de maio de 2026.
A Comissão Europeia já trabalha num plano de contingência e reconheceu que "podem ocorrer gargalos de abastecimento, especialmente em combustível de aviação, no futuro próximo". A ADV, por sua vez, pressiona por suspensão imediata da taxa de aviação alemã — uma das mais altas da Europa — para aliviar a pressão sobre as companhias aéreas.
O prazo é curto. Se o Estreito de Hormuz não reabrir ao tráfego normal até o final de junho, clubes como Bayern de Munique, Arsenal e Juventus precisarão ter planos alternativos de pré-temporada prontos para executar em 72 horas. A janela de transferências de verão, que movimenta bilhões em contratos, também depende de executivos voando entre capitais europeias para fechar negócios — e esses voos corporativos serão os primeiros a desaparecer se as low-cost começarem a devolver slots nos aeroportos.









