Um campeão do mundo que empata com o Iraque não é uma crise — é um diagnóstico. O 1 a 1 desta quinta-feira no Estádio Riazor, em La Coruña, não derruba a Espanha do seu patamar, mas expõe com clareza cirúrgica o que acontece quando Lamine Yamal sai da equação. O paradoxo é esse: a seleção mais talentosa da Europa neste ciclo mostrou, justamente no seu último amistoso em casa antes da Copa do Mundo, que ainda não sabe jogar sem o seu maior talento.
O número que resume o problema de De la Fuente
Ferrán Torres abriu o placar aos 16 minutos com um chute cruzado de dentro da área — gol de atacante de ofício, sem nenhuma complexidade. Até aí, tudo dentro do roteiro. O problema veio quando o Iraque respondeu com um golaço de Doski, chute com efeito da ponta esquerda que surpreendeu o goleiro espanhol mal posicionado. Não foi um gol de sorte: foi um gol de qualidade técnica real, e a Espanha não teve resposta. Esse é o número central desta história — 1 gol marcado, 1 gol sofrido, com um elenco que incluiu jogadores que sequer viajam para a Copa. A profundidade do banco espanhol, que parecia inesgotável na Eurocopa de 2024, mostrou suas costuras.
Para contextualizar a dimensão do problema, pense na Espanha de 2008 a 2012, o ciclo mais dominante da história recente do futebol europeu. Aquela equipe de Xavi, Iniesta e Villa tinha uma característica que a diferenciava de qualquer outra: não dependia de um único jogador para criar. Quando David Villa estava fora, Torres entrava. Quando Torres sumia, Negredo aparecia. O sistema era maior que qualquer indivíduo. A Espanha atual, com todo o seu brilho coletivo, construiu uma hierarquia diferente — e Yamal está no topo dela de forma incontestável.
O que o segundo tempo contra o Iraque revelou sobre o ataque espanhol
No segundo tempo, Luis de la Fuente promoveu mudanças em série, incluindo jogadores que não integram a lista definitiva para a Copa — atletas que estavam no grupo de treinamento apenas para cobrir os desfalques. O ritmo caiu, o entrosamento evaporou e a marcação iraquiana, organizada e física, neutralizou qualquer tentativa de triangulação. A Espanha ficou lenta, previsível, sem a aceleração nas costas dos defensores que Yamal produz com naturalidade desconcertante.
Segundo o que se observou no Riazor, De la Fuente optou por preservar não apenas Yamal, mas também outros titulares do núcleo duro. A decisão é tecnicamente defensável — nenhum treinador sério arrisca uma lesão em amistoso às vésperas de uma Copa. Mas o resultado expõe uma fragilidade real: a Espanha sem Yamal ainda não tem um plano B que funcione com a mesma fluidez. Pedri pode ocupar espaços, Nico Williams pode criar largura, mas nenhum deles replica a capacidade de Yamal de resolver situações de um contra um em velocidade máxima.
A comparação histórica mais honesta aqui é com a França de 1998 sem Zidane nos primeiros 45 minutos contra a Dinamarca na fase de grupos — uma seleção que parecia anestesiada até que o seu maestro voltou ao centro do palco. A diferença é que Zidane tinha 26 anos e estava no auge da maturidade. Yamal tem 18 anos e já carrega esse peso.
O que a Copa exige de uma Espanha dependente de um adolescente
A Copa do Mundo de 2026 começa para a Espanha em 18 de junho, contra a Croácia, no grupo que inclui também Itália e Albânia — um grupo que exige pontuação máxima ou próxima disso para evitar surpresas no mata-mata. A Croácia de Modric, mesmo em declínio geracional, ainda sabe explorar espaços com inteligência posicional. A Itália, reconstruída por Spalletti, tem uma linha defensiva que sufoca equipes sem criatividade lateral.
A Espanha chega a essa fase com uma vantagem histórica clara: desde a Eurocopa de 2024, nenhuma seleção europeia acumulou mais pontos em competições oficiais. Mas chega também com uma dependência que o resultado desta quinta-feira tornou visível para o mundo. Nas palavras que circularam nos bastidores do Riazor, a comissão técnica espanhola tratou o empate como "parte do processo de preparação" — uma forma elegante de dizer que o resultado não preocupa, mas que a ausência de soluções alternativas no ataque preocupa sim.
A história do futebol europeu é generosa com seleções que dependem de um gênio — desde que o gênio esteja disponível. A Holanda de Cruyff em 1974, a Argentina de Maradona em 1986, o Brasil de Ronaldo em 2002. Todos chegaram à Copa com essa mesma tensão entre dependência e genialidade. Todos venceram. Mas todos também tiveram momentos em que o sistema precisou funcionar sem o protagonista — e foi nesses momentos que a qualidade coletiva foi testada de verdade.

A Espanha de De la Fuente tem qualidade coletiva. O que o empate com o Iraque mostrou é que essa qualidade ainda não está calibrada para operar sem Yamal no comando. Em 18 de junho, contra a Croácia, saberemos se o intervalo entre este amistoso e a estreia foi suficiente para resolver esse equilíbrio.









