A quadra central do Foro Italico estava com aquele sol de tarde que pesa nos ombros — o tipo de luz que faz o saibro parecer mais laranja do que deveria, quase irreal. Alexei Popyrin sacou no primeiro game, e em 67 minutos o jogo já havia acabado. Jannik Sinner fechou em 6/2 e 6/0, e o placar dizia tudo que precisava ser dito: a 30ª vitória consecutiva do italiano o coloca exatamente no mesmo patamar de Novak Djokovic, o único homem na era moderna a ter chegado até aqui.
O que Popyrin encontrou do outro lado da rede em Roma
Quem já treinou muay thai sabe o que é enfrentar um oponente que não comete erros. Não é intimidação — é pior. É a sensação de que cada movimento seu está sendo lido antes de acontecer, que o espaço vai fechando sem que você entenda quando isso começou. Popyrin, 25 anos e número 28 do mundo, viveu exatamente isso em Roma nesta segunda-feira (12). O australiano não teve um set point, não teve um momento de respiro real. O 6/0 no segundo set é o tipo de placar que, em esporte de alto nível, carrega uma mensagem técnica precisa: o adversário parou de acreditar antes do fim.

A leitura técnica do jogo de Sinner passa pelo forehand. O italiano tem um dos drives mais planos do circuito no saibro — o que parece contraintuitivo, porque o saibro favorece bolas com mais rotação e quique alto. Mas Sinner usa a velocidade para tirar tempo do adversário, não para criar ângulo. Popyrin, que depende de um segundo tempo para montar seu backhand cruzado, nunca encontrou esse segundo tempo. Foram 27 winners contra apenas 8 erros não forçados em 67 minutos.
"Estou jogando bem, me sentindo bem fisicamente. Só quero continuar assim", disse Sinner em entrevista rápida após a partida, com a objetividade de quem já não precisa mais explicar o óbvio.
Federer ficou para trás, Djokovic está empatado — e o recorde isolado está a dois jogos
Roger Federer chegou a 29 vitórias consecutivas em 2006, durante um dos períodos mais dominantes que o tênis já viu. Djokovic igualou essa marca e foi além, chegando a 30 em 2015-2016, numa sequência que incluiu títulos em Roland Garros e Wimbledon. Sinner chegou a 30 nesta segunda-feira em Roma, superando Federer e empatando com o sérvio. Para se tornar o recordista isolado, precisa de mais duas vitórias no Masters 1000 de Roma.
A diferença entre as sequências não é só numérica. Federer construiu a dele em grama e quadra rápida, superfícies onde seu jogo era quase perfeito. Djokovic fez a sua atravessando saibro, grama e quadra dura — o que torna a façanha mais ampla. Sinner está fazendo a sua no saibro europeu, a superfície historicamente mais ingrata para jogadores de base plana. Isso tem peso técnico real: o saibro exige adaptação constante de posicionamento, e Sinner tem mostrado uma capacidade de ajuste de postura que lembra o melhor Djokovic dos anos de 2011 a 2016.
"Trinta vitórias seguidas é um número que pertence a uma categoria diferente de jogadores", comentou o ex-tenista e analista Mats Wilander em entrevista à Eurosport antes da partida desta segunda.
O caminho até o recorde isolado passa por Roma — e não será fácil
Sinner está garantido nas oitavas de final do Masters 1000 de Roma e pode cruzar com nomes como Casper Ruud ou Lorenzo Musetti nas fases seguintes — adversários que conhecem saibro de verdade e que, em dias bons, têm capacidade de criar problemas reais. Musetti, especialmente, joga com uma variação de ritmo no saibro que é o tipo de coisa que quebra sequências: bolas curtas, slices, mudanças de direção. É o equivalente de um lutador que muda o timing do jab para desestabilizar o ritmo do adversário.
Há também a questão física. Trinta jogos seguidos em alto nível acumulam. O quinto round de uma luta, o tie-break do quinto set — o corpo guarda memória de cada esforço anterior, mesmo quando a mente quer fingir que não. Sinner fechou em 67 minutos hoje, o que ajuda na recuperação, mas o torneio ainda tem rodadas pela frente e o calendário não para. A semifinal e a final de Roma seriam os jogos 31 e 32 da sequência.
Se o italiano vencer o título em Roma, será o recordista isolado de vitórias consecutivas na era moderna do tênis masculino — acima de Federer, acima de Djokovic, acima de qualquer referência que o esporte tinha até agora. É o mesmo cenário que Djokovic viveu em 2016, quando o sérvio parecia ter chegado a um patamar sem teto — só que agora a aposta é diferente, porque Sinner tem 24 anos e o recorde ainda não acabou de ser escrito.








