O melhor jogador da história da Coreia do Sul pode ser, simultaneamente, o maior obstáculo à renovação que o país tanto precisa. Esse é o paradoxo que Son Heung-min carrega na Copa do Mundo de 2026 — e foi justamente ele quem começou a resolvê-lo no Estadio Akron, em Guadalajara, na noite de 11 de junho.
O espelho de 2002 e o peso da braçadeira coreana
Quando Park Ji-sung entregou a braçadeira a Ki Sung-yueng em 2011, a Coreia do Sul encerrava um ciclo iniciado na semifinal do Mundial japonês-coreano, quando a seleção se tornou a única representante asiática a chegar tão longe numa Copa do Mundo. Agora, em 2026, um novo ciclo se fecha. Ki deixou a seleção após o Catar, levando consigo um grupo de veteranos que havia moldado a identidade dos Guerreiros Taegeuk por mais de uma década. O que ficou foi Son, 33 anos, quatro Copas no currículo, e a missão de fazer a ponte entre o que foi e o que ainda pode vir a ser.
A comparação com Park Ji-sung não é apenas simbólica. Park encerrou sua carreira na seleção com dois gols em Mundiais. Son, ao final da estreia de 2026, acumula três — empatado com Ahn Jung-hwan e com o próprio Park como maior artilheiro coreano em Copas do Mundo. Mas os números de Son vão além do marcador: ele chegou ao torneio como o jogador asiático mais reconhecível do planeta, capitão desde o ciclo iniciado após a eliminação nas oitavas no Catar em 2022.
"Avançar às oitavas de final não é algo que uma seleção conquista sozinha. Tudo precisa se encaixar. De certa forma, esta pode ser minha última Copa do Mundo. Espero que os torcedores nos acompanhem nessa jornada, e que juntos possamos torná-la inesquecível." — Son Heung-min, em documentário da KBS antes do torneio.
A virada sobre a República Tcheca revelou quem vem atrás de Son
Quando Ladislav Krejčí cabeceou o lançamento lateral e abriu o placar para a República Tcheca aos 58 minutos, o roteiro parecia se repetir: uma Coreia do Sul reativa, dependente de lampejo individual para sobreviver na fase de grupos. Nove minutos depois, Hwang In-beom reescreveu a narrativa. O meia de 26 anos driblou a linha defensiva tcheca e tocou por cima do goleiro com uma frieza que raramente se vê num estreante em Copa do Mundo. Aos 79 minutos, Oh Hyeon-gyu entrou como substituto e converteu o cruzamento que selou a virada: 2 a 1. O goleiro Kim Seung-gyu ainda precisou fazer duas defesas decisivas nos minutos finais para preservar o resultado.
Essa vitória, a primeira da Coreia do Sul num jogo de abertura de Copa em 16 anos — desde a fase de grupos de 2010 na África do Sul —, foi construída sem que Son precisasse ser o autor direto dos gols. Sua função foi outra: o capitão movimentou a defesa tcheca, abriu espaços e manteve a intensidade do pressing que o técnico Hong Myung-bo havia desenhado. O modelo de liderança por exemplo, e não apenas por talento individual, é exatamente o que diferencia esta geração das anteriores.
O que os dados de pressing revelam sobre o novo DNA coreano
Uma métrica que começa a ganhar espaço nas análises táticas de alto nível é o PPDA — Passes Permitidos por Ação Defensiva —, que mede a intensidade do pressing de uma equipe: quanto menor o índice, mais agressivo o time é sem a bola. Aplicado de forma simples: um PPDA baixo significa que a seleção não deixa o adversário respirar. A Coreia do Sul de Hong Myung-bo apresentou, contra a República Tcheca, um comportamento coletivo de pressão alta que não existia nas edições anteriores — e que, segundo a firma de estatísticas Opta, atribuiu à seleção 42,9% de probabilidade de vitória naquele jogo, número expressivo para uma partida de Copa do Mundo. A equalização de Hwang In-beom foi diretamente consequência de uma recuperação de bola na linha de pressão, a mais de 30 metros do gol adversário.
Esse padrão representa uma ruptura clara com o estilo reativo que marcou as campanhas de 2014 e 2018, quando a Coreia dependia de contra-ataques velozes para criar perigo. A transição tática, iniciada formalmente após a saída de Ki e da geração que havia disputado o Catar, foi acelerada pela presença de Son como referência de posicionamento e tomada de decisão — um jogador que, após 12 temporadas no futebol europeu de alto nível, aprendeu a ler o jogo de forma sistêmica, não apenas reativa.
O Grupo A ainda não está decidido e o México espera
A vitória sobre os tchecos colocou a Coreia do Sul em segundo lugar no Grupo A, atrás do México, que derrotou a África do Sul por 2 a 0 na mesma rodada — com gols de Julián Quiñones e Raúl Jiménez, este último em seu primeiro tento em Mundiais. O próximo confronto coreano, no dia 19 de junho, no Estadio Akron, é justamente contra o anfitrião mexicano, comandado por Javier Aguirre. Uma derrota pode complicar o caminho até as oitavas; um empate ou vitória consolidaria a posição de vice-líder que Opta e o ex-lateral Lee Young-pyo — herói de 2002 — já projetavam como o desfecho mais provável para o grupo.
Em matéria do SportNavo publicada antes da Copa, a análise histórica mostrava que a Coreia atingiu o mata-mata em apenas três das 12 participações em Mundiais: 2002, 2010 e 2022. A renovação da seleção, com Son como elo entre gerações, torna 2026 a oportunidade mais estruturada desde a campanha de 2002 para transformar esse histórico. O terceiro jogo da fase de grupos, contra a África do Sul no Estadio Monterrey em 25 de junho, será o termômetro final — mas antes disso, a resposta do México ao pressing coreano definirá se esta geração é capaz de superar o teste mais difícil que o Grupo A reserva.












