Quarta-feira, 10 de junho de 2026. O CT do Red Bull em Morristown, Nova Jersey, acordou com aquele frio seco do início da tarde americana — o tipo de dia em que a névoa ainda abraça os gramados às 13h. A Seleção Brasileira completava mais uma sessão de trabalho sob o comando de Carlo Ancelotti quando, do lado de fora, um pequeno caos se formou entre os repórteres credenciados. A razão: um homem de 69 anos, camisa amarela do Brasil, óculos escuros e uma energia que nenhum jogador presente conseguiu ignorar. Spike Lee havia chegado.
O diretor que trocou o Madison Square Garden pelo gramado de Morristown
O nome de Spike Lee dispensa apresentação em qualquer esquina de Nova York — e, aparentemente, também nos bastidores da Copa do Mundo. Diretor de Faça a Coisa Certa (1989), Malcolm X (1992) e Infiltrado na Klan (2018), filme pelo qual ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, Lee construiu ao longo de décadas uma relação visceral com o esporte americano. Ele é, talvez, o torcedor mais famoso do New York Knicks — e a franquia, ironicamente, está disputando a final da NBA neste momento. Ou seja: o homem tem muito no que pensar além de futebol.
Foi o que ficou evidente quando Lee apareceu no treino. Segundo apuração do Terra, o cineasta entrou em contato com a CBF para pedir acesso a uma das sessões e foi convidado a comparecer nesta quarta. Chegou rodeado por poucos seguranças e assessores da confederação, passou pela zona de imprensa gerando um tumulto imediato — repórteres se acotovelando, câmeras disputando ângulo — e seguiu para uma área separada antes dos tradicionais 15 minutos de observação aberta se encerrarem. Houve até um tropeço literal: a reportagem do Terra registrou Lee tentando subir os bancos de madeira da pequena arquibancada em frente ao gramado e escorregando no processo. Spike Lee, o mesmo que filmou cenas antológicas em Bed-Stuy, tropeçou na arquibancada de Nova Jersey. O futebol tem esse poder.
Após o treino, Lee conversou com os jogadores e distribuiu bonés do New York Knicks — um gesto que mistura paixão pessoal com uma coincidência histórica difícil de ignorar. Os Knicks foram campeões em 1970 e 1994, os mesmos anos das conquistas do Brasil no tri e no tetra. A Copa volta agora ao México, aos Estados Unidos e estreia no Canadá. O talismã, pelo menos simbolicamente, foi entregue.
Neymar na altinha, Ancelotti no campo e uma seleção que ainda se monta
Quando faz altinha com os companheiros na academia, ele parece o de sempre — o sorriso largo, a bola grudada no pé, o ambiente ao redor esquecendo por um segundo que há uma lesão muscular de grau dois na panturrilha direita travando tudo. Quando precisa seguir para o trabalho em campo, ele fica para trás. Neymar participou do aquecimento recreativo desta quarta, em cena registrada e divulgada pela CBF nas redes sociais, mas não acompanhou o restante do elenco nas atividades comandadas por Ancelotti. Após novos exames realizados esta semana, o departamento médico decidiu preservá-lo até a cicatrização completa — e o camisa 10 está fora do jogo contra Marrocos, no sábado (13), em Nova Jersey, às 19h de Brasília.
Quando faz aparições no gramado, Neymar tira fotos, conversa com convidados e atende patrocinadores que receberam acesso à atividade — uma rotina paralela que a comissão técnica tolera enquanto o corpo ainda não responde ao ritmo de treino. A expectativa da CBF é contar com o jogador a partir da segunda rodada, diante do Haiti, no dia 19 de junho. Até lá, a Seleção precisa se virar sem ele contra um adversário que não perde desde agosto de 2025 e que acumula títulos da Copa Africana de Nações, do Campeonato Africano de Nações e da Copa Árabe no período.
O treino desta quarta também contou com a presença de ex-jogadores como Zinho, campeão em 1994 e hoje na ESPN, Ricardinho, pentacampeão em 2002 e integrante da equipe da Globo, e Alexandre Pato, amigo pessoal de Ancelotti. Torcedores sortudos, convidados por patrocinadores da CBF, ficaram nas arquibancadas mesmo após a saída da imprensa. O ambiente era de festa — mas com aquela tensão silenciosa de quem sabe que, em 72 horas, o jogo começa de verdade.
O que a visita de Spike Lee revela sobre a Copa nos Estados Unidos
A presença de Lee não é um acaso cultural. Ela diz algo sobre o que esta Copa representa no território americano. O Brasil joga em casa alheia — mas o Brasil tem uma diáspora que transforma qualquer estádio em território canarinho. E celebridades como Spike Lee, que historicamente circulam pelos corredores do Madison Square Garden mas raramente aparecem em treinos de seleções de futebol, sinalizam que a Copa de 2026 está penetrando em camadas culturais que edições anteriores não alcançaram nos EUA.

Conforme registrado pelo SportNavo, o episódio é parte de um movimento maior: a Copa como evento pop, capaz de atrair o olhar de quem jamais assistiu a um jogo de 90 minutos. Lee não foi ao CT porque descobriu futebol de repente — foi porque a seleção brasileira, com toda a sua carga simbólica e estética, representa exatamente o tipo de história que ele passou a vida inteira filmando: corpos negros em movimento, excelência sob pressão, a beleza como forma de resistência.
"O Brasil, desde que nasci, sempre foi a seleção com grandes estrelas, jogadores incríveis. Eles têm uma seleção fantástica, então temos muito respeito por eles. Mas estaremos prontos, vamos dar tudo de nós", disse o meia marroquino Sofyan Amrabat, do Real Betis, projetando o duelo de sábado.
A fala de Amrabat resume o que espera o Brasil na estreia: respeito que não paralisa, confiança que não se dobra. A Seleção chega sem time definido, sem Neymar no campo e com uma celebridade de boné Knicks distribuindo talismãs no vestiário. Em 1958, o Brasil também não tinha o time pronto na estreia — escalou cinco jogadores que não participaram da final — e voltou para casa tricampeão. O futebol, como Spike Lee bem sabe, tem roteiros que nenhum estúdio de Hollywood ousaria aprovar.
Brasil e Marrocos se enfrentam no sábado, 13 de junho, às 19h de Brasília, em Nova Jersey. A próxima cena já tem data marcada.








