Três coisas: um goleiro que integra a comissão técnica da Seleção, um lateral bicampeão do mundo e um meia que ergueu a Taça Jules Rimet em 1970. Tudo se explica daí — cada um falou de Neymar a partir do lugar que ocupa hoje, e os três disseram coisas diferentes sem nunca se contradizer diretamente.

A convocação que para o Brasil nesta semana

Na segunda-feira, 18 de maio de 2026, no Rio de Janeiro, Carlo Ancelotti divulga a lista definitiva da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo 2026. A cerimônia já tem data, local e hora marcados, mas o nome que domina o noticiário desde semanas antes é um só: Neymar. O atacante de 34 anos voltou a jogar com regularidade pelo Santos no Campeonato Brasileiro 2026, somou dois gols nos três últimos jogos pela equipe paulista e recolocou seu nome no centro do debate nacional. Nesta sexta-feira (15/5), três ícones do futebol brasileiro — Taffarel, Cafu e Rivellino — falaram sobre o assunto durante evento do Guaraná, patrocinador oficial da Amarelinha.

Taffarel enxerga um Neymar diferente nos últimos jogos

Cláudio Taffarel, campeão em 1994 e hoje integrante da comissão técnica de Ancelotti, foi o mais cuidadoso dos três ao abordar a possível convocação. Ele recusou explicitamente opinar sobre a lista, mas não poupou elogios ao que viu em campo recentemente.

"É muito difícil eu estar aqui falando sobre possível convocação. Acho que não é essa minha função. Posso falar do Neymar, que eu trabalhei muito tempo na Seleção. Realmente, é uma grande pessoa, todo mundo gosta muito dele, todos os jogadores. Os números dele são impressionantes: jogos, convocações, gols. Vi esses últimos jogos dele e gostei bastante. Ele fica muito próximo do gol, na frente da área, ele tem uma movimentação que eu vejo em poucos jogadores, aquela movimentação inteligente, de dar um toque, já saindo para receber. Eu vi um jogo um pouco mais limpo, mais determinante. E, na frente do gol, realmente ele tem uma tranquilidade que poucos jogadores têm"

A leitura de Taffarel sobre o posicionamento de Neymar é tecnicamente precisa: o atacante, ao longo de sua carreira, registrou 79 gols em 128 jogos pela Seleção — média de 0,61 por partida, superior à de Pelé (0,67) apenas em volume de jogos, o que coloca os números em perspectiva histórica. O que Taffarel descreve como "movimentação inteligente" é justamente o que distingue atletas que envelhecem bem taticamente daqueles que dependem de explosão física. Neymar, que completou 34 anos em fevereiro, parece ter migrado para esse perfil. Não há tragédia nisso: há contabilidade.

Cafu defende o método Ancelotti e o contexto de toda uma temporada

Cafu, bicampeão mundial em 1994 e 2002, foi o mais enfático dos três ao tratar da metodologia de Ancelotti para chegar à lista final. Para o ex-lateral, a decisão do técnico italiano não pode — e não deve — ser baseada em dois ou três jogos recentes.

"Se eu fosse o Ancelotti, faria exatamente o que ele está fazendo. Ele está analisando todos os jogadores, está vendo todos os dados, e a decisão do Ancelotti não é de hoje, de um dia para o outro. Não é um jogo, dois jogos, três jogos, que vai fazer de repente, que eu mude de ideia em relação àquilo que eu quero com a Seleção Brasileira. Ele já tem os nomes da Seleção Brasileira, já sabe com quem ele pode contar. O Neymar vem com uma evolução muito grande. É um cara importante, que pode fazer a diferença"

A posição de Cafu é analiticamente coerente com o que o SportNavo acompanhou ao longo de toda a temporada 2025/2026: Neymar disputou 18 partidas pelo Santos no Brasileirão até esta data, com 7 gols e 4 assistências, números que representam uma recuperação considerável após os 13 meses afastado por lesão no joelho direito. Ancelotti, segundo fontes do entorno da CBF, avalia o conjunto — desempenho físico, minutagem acumulada, comportamento tático — e não apenas o flash dos últimos resultados.

O peso histórico de quem já ergueu a taça

Rivellino, que integrou o elenco tricampeão de 1970 ao lado de Pelé e Tostão, também esteve no evento e endossou a relevância histórica de Neymar para a Seleção, embora tenha sido mais comedido em projeções específicas sobre a Copa do Mundo 2026. O meia gaúcho, que marcou 26 gols em 92 jogos pela Amarelinha, pertence a uma geração que disputou Copas em contextos completamente diferentes — sem dados biométricos, sem análise de GPS, sem monitoramento de carga. Sua presença no evento, ao lado de Taffarel e Cafu, reforça o peso simbólico que o debate sobre Neymar carrega neste momento.

O que os três têm em comum é a recusa em substituir Ancelotti. Nenhum deles disse "convoca" ou "não convoca" com todas as letras. Taffarel porque integra a comissão e sabe que a palavra não é sua. Cafu porque entende que o processo é mais longo do que uma semana de jogos. Rivellino porque viveu o suficiente para saber que Copa do Mundo não se decide em evento de patrocinador. A lista sai na segunda-feira: o que Neymar fizer até lá em campo — ele joga pelo Santos no domingo, 17 de maio, pelo Brasileirão — pode ser o último argumento antes do anúncio oficial.

Se Ancelotti confirmar Neymar entre os 26 convocados, o atacante disputará sua quarta Copa do Mundo, igualando marcas de Cafu e Ronaldo. Se ficar de fora, o Brasil irá ao torneio com Vinicius Jr., Rodrygo (dependendo de recuperação), Raphinha e Endrick como referências ofensivas. A pergunta que fica para os próximos dias: caso Neymar seja convocado e não render nos primeiros jogos do grupo, Ancelotti teria coragem de deixá-lo no banco nas oitavas de final — repetindo a decisão que Tite evitou em 2022 e que muitos analistas ainda debatem?